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28/08/2002
Disco
revive parceria de 30 anos entre Caetano Veloso e Jorge Mautner
Silvio Essinger
Repórter do JB
Foram quase 30 anos de algumas poucas
canções em parceria e alguns encontros esporádicos. Depois dos acontecimentos de 11 de
setembro de 2001, o ''hipertropicalista'' (nas palavras de Caetano Veloso) Jorge Mautner e
o mais ruidoso dos tropicalistas acabaram se encontrando com mais freqüência e
resolveram que era hora de gravar um disco juntos. Daí saiu Eu não peço desculpa,
com novíssimas - e, curiosamente, divertidas - canções de Caetano e Mautner. ''As
nossas conversas eram muito engraçadas'', conta Caetano. ''Mas o disco tem um tom mais
jocoso que as conversas.'' Apenas uma das músicas se refere diretamente ao terror, o
samba Homem-bomba, segundo Jorge Mautner ''sobre o enaltecimento da democracia''.
Algumas, porém, têm no centro da questão o erotismo, como Voa, voa perereca
(''Marcha-rancho nostálgica e erótico-buliçosa de fábula infantil, de um Brasil antigo
e eterno'', como define Mautner a velha canção de Sérgio Amado) e O tarado,
''letra inferior de Jorge Mautner, música superior de Caetano Veloso'', na descrição
bem-humorada do letrista.
''Eu vi que ali estava o sublime. De
todas as canções do disco, O tarado é a que mais traz à tona a idéia da
compaixão, que é uma coisa muito importante no imaginário do Jorge'', diz Caetano,
sobre a música que fala do sujeito que olha mulheres bonitas e feias na praia com a mesma
volúpia - ''Porque são todas gostosas e sereias pro meu olhar de supremo tarado.''
''Essa é a canção mais cristã de todas do disco porque ela tem o dom da compaixão.
Não só pelas mulheres que são vistas igualitariamente, mas sobretudo pela
identificação com o tarado'', diz o baiano, para quem o disco ficou ''com algo de Tropicália
3''. ''Mesmo os que são contra o tropicalismo são frutos do tropicalismo. Do Arrigo
Barnabé ao axé e ao pagode, tudo é tropicalismo'', acredita Jorge Mautner.
Para reforçar a idéia tropicalista,
quem está no disco é Gilberto Gil, cantando Feitiço, samba de Caetano em
resposta a Feitiço da Vila, um dos sambas mais famosos de Noel Rosa. ''Lembro que
o [crítico musical José Ramos]Tinhorão baseou o ataque que ele fez contra a
bossa nova numa argumentação em que punha Noel como um representante da classe média
que tinha se aproximado do samba como se deve, e não fazendo uma apropriação indevida,
como a bossa veio a fazer. Ora, o Feitiço da Vila é uma obra-prima cuja letra é
um manifesto de apropriação violenta pela classe média do samba dos pretos do morro ou
dos que vieram da Bahia! Limpando o samba de feitiço, de farofa, de vela, das
características africanas. É com amor que eu respondo a ele, num samba que não me teria
vindo à mente se eu não tivesse feito um disco com Jorge Mautner'', diz Caetano.
(© JB Online)
Amizade nasceu em Londres
''Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista/ Jesus de
Nazaré e os tambores do candomblé''. Eis a idéia que defende Mautner ao longo de todo Eu
não peço desculpa (verso de seu rock-balada-sertanejo-mariachi Todo errado,
cujo clipe roda há semanas na MTV). ''Aqui no Brasil misturamos todas as culturas, todas
as etnias e todos os ritmos. O mestiço é que é bom. O Ariano Suassuna dizia: 'O
tropicalismo não inventou nada, tudo já foi sempre misturado'', diz Mautner
Mais do que celebrar o encontro
tropicalista, Eu não peço desculpa acabou se prestando para que Caetano e Mautner
fizessem um histórico troca-troca. ''Eu propus a ele que cada um gravasse uma canção do
outro'', conta Caetano, que bateu o pé por Maracatu atômico (de Mautner e Nelson
Jacobina), música lançada por Gil e recuperada duas décadas depois por Chico Science
& Nação Zumbi. ''O desafio era total, mas essa era uma canção que eu sempre tive
vontade de gravar. O Gil fazia uma coisa mais pop e cantava muito bem a melodia. O Chico
Science fez um maracatu, mas não cantava a melodia, praticamente falava a letra. Eu,
então, canto a melodia de uma maneira bem lírica, em cima de uma base de maracatu'', diz
Caetano. Mautner, por sua vez, ficou com Cajuína, para a qual diz ter feito uma
interpretação totalmente nordestina. ''E o nordestino total dele soa totalmente eslavo.
Na mão dele, tudo passa pelo filtro da Europa Oriental'', diz Caetano, sobre o amigo, o
filho de um judeu com uma eslava-irlandesa, que escapou do Holocausto na Áustria porque
veio nascer no Brasil.
Apesar de mutuamente se admirarem, o
baiano e Mautner só se conheceram pessoalmente em 1970, em Londres, onde o primeiro vivia
no exílio com Gil. ''Eu conhecia o livro Deus da chuva e da morte, que Aneci Rocha
[irmã do diretor de cinema Glauber Rocha]me apresentou, em 1963, quando era minha
namorada. Eu admirava Mautner também por causa de uma entrevista à revista Senhor,
em que ele falava que 'do Brasil nascerá a nova coisa'. Achei aquele personagem
fascinante. E, para ser sincero, achei Mautner muito bonito na fotografia'', conta. ''Nos
encontramos na casa de Gil. Eram muitas as gargalhadas, um desejo louco de voltar para o
Brasil'', conta Mautner, que rodou por lá, com os amigos, o filme O demiurgo.
''Algumas cenas de Gil, em que ele estava totalmente nu, não entraram no filme, por causa
da preocupação com a Censura'', conta. ''Cortaram o pau do Gil (risos). Mas agora
a Flora disse que se pode usar'', brinca Caetano. ''Quando O demiurgo passou no
Museu de Arte Moderna, esperavam um filme de orgias, de transgressões. E era o filme mais
casto!'', lembra o autor.
Eu não peço desculpa terá apenas
alguns poucos shows no Rio e em São Paulo, que Caetano não sabe se vai ser antes ou
depois de sua turnê por Estados Unidos, México e Canadá, que começa em outubro e deve
se estender por dois meses. ''O tropicalismo não parecia exportável, embora só falasse
em exportação. Mas com o passar dos anos veio também a ser. Mas é tudo uma elite dos
criadores de pop-rock de alta qualidade que conhecem, não é que o público saiba o que
é tropicalismo'', diz Caetano, sobre sua presença cada vez maior nos Estados Unidos.
''Eu não sou um dos melhores da minha turma, mas na conversa apresento uma visão muito
coerente sobre a música popular brasileira, o que me dá um lugar particular.'' Mês que
vem, por sinal, sai por lá, pela Knopf, a primeira tradução para o inglês do seu livro
Verdade tropical: Tropical truth - A story of music and revolution in Brazil.
Tradução essa que não agradou Caetano. ''Não consegui ler toda, mas saiu do meu
controle, fiquei cansado. Não agüento mais ler esse livro em nenhuma língua'', diz.
(© JB Online)
| O feitiço dos taradosCerimônia de entrega do Rival BR de Música lembra clássicos como 'Asa
Branca"
Bernardo Araujo
Uma música chamada
Tarado, uma versão masculina de A namorada, para responder a
Carlinhos Brown o namorado tem namorado Cajuína
transportada do Piauí para a Bulgária e uma introdução em latim, de Urge
dracon. Tudo isso está em Eu não peço desculpa, disco que a dupla
Caetano Veloso-Jorge Mautner está lançando. E tudo é explicável. A pergunta que não
quer calar é: o que aquele desenho vazado na capa do CD que parece uma batata-doce ou um
rabanete gigante?
Não é nada não, é só onda diz Caetano. Zeca, meu
filho, também achou que fosse uma plantinha. Talvez fosse para ser isso mesmo, mas o
fundo acabou ficando meio azul-turquesa, né?
Caetano não se cansa de surpreender. Amigo de Mautner há 30 anos, pensou
nesse disco após as conversas que tiveram no fim de 2001 depois que Caetano voltou
dos EUA, onde estava no fatídico 11 de setembro e de onde teve dificuldades para sair.
Ele se diz fascinado pela mistura de características que definem o amigo, uma
personalidade paraliterária, paramusical e parapolítica, como escreve no
texto de apresentação. Então, Caetano deixou de lado a seqüência de CDs como
Livro e Noites do Norte para gravar Eu não peço
desculpa?
Numa certa medida, sim diz. As músicas que fiz, com e
sem o Jorge, foram compostas especialmente para o projeto. Mas não posso ignorar o
momento artístico e musical que estou vivendo. Não dá para separar as coisas de maneira
tão completa.
A responsabilidade de se gravar um disco com um amigo é diferente
completa Mautner. Você talvez não precise pensar em tudo, compor tudo, mas
por outro lado é com um amigo que você está trabalhando. As músicas vêm das nossas
conversas.
Tarado, por exemplo, era um poema do Jorge que eu musiquei
sem mudar nem uma palavra conta Caetano. É curioso, porque é uma música
que fala de um cara que olha as coxas das mulheres na praia e tem um melodia sublime,
celestial. E a música fala de sexo, erotismo, como várias outras do disco, mas de
maneira ingênua. O samba Feitiço é quase a reprodução exata de uma
conversa nossa, com essa referência a Noel Rosa e a Aquele abraço, de Gil.
Ambos se dizem felizes com a companhia dos jovens músicos que trabalharam no
disco: Alexandre Kassin foi o produtor, ao lado de Caetano, e outros amigos de seu filho
Moreno, como Domenico Lancelotti e Pedro Sá estiveram no estúdio.
É claro que poderíamos ter contratado outros ótimo músicos, mais
experientes, que tocam seus instrumentos divinamente diz Caetano. Mas esses
meninos, além de dominarem as técnicas modernas de gravação como ninguém, encaram
tudo naturalmente, sem preconceitos. A música de abertura, por exemplo, Todo
errado, é uma mistura de rock-balada com música brega, country americano e outras
coisas, cheia de auto-ironia. Eles entenderam perfeitamente até onde a ironia deveria ir.
Viram exatamente porque era tudo errado completa Mautner.
Era uma frase que meu pai dizia: Não importa o que você fizer, sempre
estará errado.
As origens de Mautner filho de austríacos, o pai judeu e a mãe com
raízes eslavas e irlandesas também aparecem na transposição de
Cajuína para a Europa Oriental.
Desde o início eu queria regravar o Maracatu atômico
diz Caetano. Acabei gravando Lágrimas negras também e pedi que
ele cantasse uma música minha.
Peguei Cajuína e fui cantar achando que tinha concebido
uma interpretação totalmente nordestina lembra Mautner.
Quando ele cantou, eu e Kassin nos entreolhamos, já rindo, pensando
como ele tinha dado aquele clima russo a uma música que fala no Piauí conta
Caetano.
Dupla tem pouco tempo para conceber um show
Os dois têm planos de lançar Eu não peço desculpa com shows,
mas ainda não sabem quando e nem se será realmente possível.
Em outubro parto para a turnê de Noites do Norte na
América do Norte conta Caetano. Vou ficar um mês e meio lá. Se
conseguirmos conceber, ensaiar e apresentar um show, vai ser agora. Se não, fica para o
fim do ano. Mas eu gostaria muito de cantar essas músicas ao vivo. Eu me senti muito bem
com os músicos quando tocamos na entrega do Video Music Brasil.
Nos Estados Unidos ele aproveitará para lançar o livro Verdade
tropical.
Foi um parto, várias versões foram rejeitadas, acabei entregando a
Deus sem nem ler direito diz ele. E quando um ateu entrega a Deus, só pode
ser definitivo.
(© O Globo On line)
Geléia velha, com ingrediente que anda em
falta na MPB: o prazer
Arnaldo Bloch
Uns dirão que é velho. E é. Ou que não traz grandes novidades. E não
traz. Dir-se-á também que não é um disco de carreira de Caetano. E não é. Ou que as
composições não buscam verniz de excelência nem sofisticação. E não buscam. Ou
ainda que algumas letras são primárias. E são.
Justamente por isso, Eu não peço desculpa é riquíssimo,
divertido, bonito, redondo. Nele, Caetano e Mautner investiram em algo que anda raro na
MPB (inclusive na de Caetano): prazer, despretensão, vida.
Ainda assim, as afirmações acima merecem ressalvas: se o
sertanejo-paródico Todo errado, o samba pós-11 de setembro Homem
bomba e a havaiana Tarado (inéditas) carregam debochada candura (o que
é ótimo), letras como Graça divina são para se ouvir com reverência. Se
Maracatu atômico, Cajuína e Lágrimas negras são
emblemas do passado cae-mautneriano , suas releituras, no comando instrumental da
turma Kassin/Moreno/Pedro Sá, injetam presente com inteligência nova. Ao contrário do
anacronismo entre a base musical e as composições/voz de Caetano no anterior
Noites do Norte, aqui as novas tendências compreendem não só a herança,
mas o espírito de geléia geral tropicalista. Abarcam velhos Rhodes ; as
percussões pesadas da Bahia; ferramentas eletrônicas de ultimíssima geração;
cavaquinhos e violões tudo com organicidade máxima, deixando Caetano e Mautner
completamente à vontade, navegando no seu elemento primordial.
Na mesma linha, o engajamento aparentemente pueril de Morre-se
assim e Coisa assassina (de Gil e Mautner) ecoa com respeito o protesto
rap/funk, sem necessidade de transfigurações excessivamente sofisticadas (se bem que o
violão de Gil é de lembrar que ele é um mestre do instrumento).
Os contrastes entre a voz lapidada de Caetano e o quase falar mambembe de
Mautner (que felizmente usou sobriamente sua rabeca incorreta, valorizando-a) conferem
valiosa aspereza ao disco, especialmente em O namorado e na belíssima
Manjar de reis. No mais, às vezes uma pausa no excelente Morelenbaum faz bem
ao ouvido viciado.
(© O Globo On line) |
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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