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Nova cara da MPB: trilha aberta

28/08/2002

Mano Borges

 

O que pensam e o que produzem as novas gerações da música brasileira ao romper cada vez mais fronteiras sonoras e incorporar eletrônica a repente, maracatu, samba

Thaís Cieglinski
Da equipe do Correio

   Há quatro anos, quando o pernambucano Otto lançou seu primeiro CD solo — Samba pra Burro — muita gente torceu o nariz. O ex-percussionista do mundo livre s/a, um dos ícones do movimento mangue beat, levantava uma nova bandeira. Se agarrou a uma irresistível e equilibrada mistura de música popular, brasileira, mas, com uma grande novidade, antenada com as novidades do maravilhoso mundo da eletrônica.‘‘É como se a MPB tivesse subido uma montanha enorme nos últimos anos e, quando atingiu o topo, lhe deram uma bicicleta e disseram ‘desce’. Essa bicicleta era a música eletrônica’’, resume.
  
   DJ Dolores é outro que decidiu dar pedaladas. Em seu festejado álbum de estréia — Contraditório —, Dolores, ou melhor, Hélder Aragão, leva o experimentalismo ao extremo. Mesclando maracatu e outros ritmos nordestinos com drum’n’bass, recebe ainda reforço da Orchestra Santa Massa, que além de ter participado das gravações do CD, acompanha o disc jockey nas apresentações. ‘‘Acho que a nossa geração não vê mais a música eletrônica como algo diferente, já que crescemos ouvindo Kraftwerk’’, avalia Dolores. Talvez por isso, artistas como Max de Castro se assustem ao serem perguntados sobre a nova facção da música brasileira. ‘‘Isso é tão natural, está até batido. Hoje, o som que eu faço é estereótipo do moderno’’, dispara, sem maiores explicações.
  
   Os dois CDs de Max de Castro, por sinal, estão cheios de referências e elementos da eletrônica. Orchestra Klaxon, segundo álbum do cantor, vem rendendo elogios da crítica e confirmando que essa moçada apostou certo em fugir da fórmula seguida à risca pela maioria dos músicos tupiniquins. Max chegou a ser apontado pela revista norte-americana Time como o maior talento brasileiro dos últimos 30 anos. ‘‘Nossas referências de música brasileira são diferentes do tradicional. No Nordeste, Luiz Gonzaga toca no rádio’’, confirma DJ Dolores.
  
   Em abril passado, Dolores e sua banda excursionaram pela Europa e ajudaram a confundir ainda mais a cabeça dos gringos que viam outro brasileiro, o bambambã do drum’n’bass Marky, colocar sua versão de Carolina, Carol Bela entre as 20 mais executadas no Reino Unido. O drum’n’bass, aliás, é ponto comum em quase todos esses trabalhos. Fundindo o estilo com bossa nova, o DJ Patife é outro que também vem conquistando o Velho Continente e ocupa posto entre os tops das pick ups.‘‘O drum’n’bass é o gênero menos agressivo da música eletrônica e mais universal também, por ser bem grooviado’’, arrisca Otto, que já tem escolhido o nome do próximo CD. Sem Gravidade será um disco ainda mais recheado de eletrônica, como ele define, ‘‘mais pista’’.
 
   E não é somente a chamada nova geração que desfruta das benesses das fusões eletrônico-acústicas. O veterano Naná Vasconcelos, considerado um dos melhores percussionistas do mundo, também entrou fundo na onda em seu último disco, Minha Loa. ‘‘Trata-se de um trabalho novo para quem conhece minha obra. Sempre fiz discos sobre sons, agora ele é todo ritmo e conseqüentemente dançável’’, explica Naná. Não à toa, DJ Dolores ficou responsável por fazer o remix de uma das faixas do álbum. Outro que, vira e mexe, experimenta desses acessórios é Lenine. Em seu último CD, Falange Canibal, o compositor não dispensou as intervenções eletrônicas.
 
   A onda parecer ter vindo mesmo para ficar e nem mesmo os puristas parecem ter alternativas para barrar a cruzada. A modernização dos estúdios abre um leque infinito de possibilidades, ficando difícil até para o mais tradicional dos músicos resistir. Otto reforça a idéia de que as mudanças vieram mesmo para ficar. ‘‘Na época de Samba pra Burro, estava sozinho e peitei a história. O mundo mudou e ninguém mais vai conseguir apagar a luz’’, filosofa o cantor, aos risos.

(© Correio Braziliense)


Nova cara da MPB: tempo certo

Mano Borges desembarca de mala pronta no cenário nacional, para mostrar como se costuram as diferenças musicais do país num repertório comum

Rosualdo Rodrigues
Da equipe do Correio

   De Passagem Franca pra Caro Custou. O nome do disco causa estranhamento e não encontra explicação em nenhuma das 12 faixas. Mas Mano Borges o escolheu por acreditar que ele dá idéia de ‘‘interior’’ e ‘‘deslocamento’’ e sintetiza de certa forma a relação entre regional e universal que há em sua música. Passagem Franca é a cidade do interior do Maranhão onde o músico e compositor passava férias na infância. Caro Custou fica no sertão do Ceará e foi lá que nasceu Isaac Cândido, também músico, amigo de Mano Borges. Numa conversa entre os dois, em uma mesa de bar, surgiu o título do disco.
  
   Produzido por Marco Mazzola e lançado pela Abril Music, De Passagem Franca pra Caro Custou marca a estréia de Mano Borges na cena pop nacional. Mas, na verdade, é o oitavo disco na carreira do músico, que há dez anos se apresenta na noite de São Luís e arredores e já lançou dois LPs e cinco CDs. Em 1988, foi para Porto Alegre (RS), onde passou dois anos. ‘‘Sempre tive curiosidade de percorrer o Brasil e descobrir as manifestações locais. Quando decidi ir para o outro lado do país e procurar essas diferenças, foi importante porque descobri com os gaúchos a disciplina e a exigência com o texto poético.’’
   
   Apesar da experiência radical, Mano Borges nunca pensou em mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro para investir em carreira de alcance nacional. ‘‘Corri risco ao ficar no Maranhão, mas a década de 90 foi cruel com a música brasileira, porque se investiu muito na segmentação. Eu não via espaço para o que queria fazer. Hoje em dia a cena mudou, o espaço está mais democrático.’’ Tão democrático que Mano nem precisou sair de São Luís para ser descoberto pelo produtor Marco Mazolla. ‘‘Tive oportunidade de mostrar a ele meu trabalho e uma semana depois fui chamado para falarmos sobre o disco.’’
  
   Os dez anos de atividade no Maranhão, segundo o cantor, também serviram para que ‘‘digerisse a música e chegasse a uma personalidade própria.’’ E o som de Mano Borges não nega as origens, apesar do perfil pop de De Passagem Franca pra Caro Custou. ‘‘No disco, o regional não é explícito, mas é intrínseco. Venho do Maranhão, um ‘país’ muito musical, em que há muita presença da cultura popular, do folclore, e isso é marcante. Mesmo assim, não queria passar a idéia de um trabalho regional.’’ Para ele, estar lançando pela primeira vez um disco por grande gravadora neste momento lhe dá uma vantagem: ‘‘Os dez anos que passei trabalhando serviram para formar a personalidade musical de que falo, aparar arestas, identificar e liquidificar influências. Chego a este momento sem ter medo de ser criticado’’.
  
   De Passagem Franca pra Caro Custou é formado em grande parte por composições recentes de Mano Borges, feitas em parceria com Alê Muniz, ‘‘um paulista filho de maranhenses que está em São Luís há dez anos’’. Há ainda duas regravações: Medo de Avião, de Belchior (‘‘encontro em Belchior a singeleza e a verdade que encontro no meu trabalho’’) e Maranhão Meu Tesouro Meu Torrão, de Humberto Maracanã (‘‘essa música é a forma como nós maranhenses enxergamos o Maranhão’’). Confiante no resultado, Mano acredita que o disco envolve o ouvinte aos poucos. ‘‘É uma relação conquistada. E isso é o que tem feito diferença na atual MPB. Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, Chico César, Cássia Eller e Lenine se destacaram por serem pessoas com personalidade musical formada e que foram sendo reconhecidas com o tempo, dentro de uma velocidade normal.’’

(© Correio Braziliense)


Nova cara da MPB: o músico elegante

Com o lançamento do quarto CD, o músico maranhense junta no mesmo lugar sons e ritmos que traduzem a alma da música popular brasileira — e eles são muitos

Paulo Paniago
Da equipe do Correio

   Deus não nos reconhece mais. É o que canta Zeca Baleiro no novo disco, PetShopMundoCão. É, esse é mesmo um mundo cão. Pequinês, para respeitar a letra da música Mundo Cão: ‘‘Ouço seu latido/ mundo pequinês/ mundo comprimido’’. O músico tem dica de antídoto que pode funcionar para tempos bicudos. ‘‘Deveríamos fazer como sugere Voltaire, cuidar do jardim.’’ Perdeu-se o respeito, a gentileza. Zeca tem saudades. Compôs Meu Nome é Nelson Rodrigues, que manda no último verso: ‘‘Sou do tempo em que até os automóveis davam bom dia’’. À pergunta sobre o porquê desse verso, Baleiro diz: ‘‘Acho que é um tempo meramente literário, cinematográfico, um desejo impossível e implausível de que o mundo fosse mais gentil, elegante, de alma elegante’’.
  
   Nesse mundo vasto mundo, ainda que cão, o sujeito sobrevive ao descobrir a própria e melhor tribo. Pois Zeca Baleiro renega tudo. O disco abre com Minha Tribo Sou Eu. Ele diz que não é cristão nem ateu, japa nem chicano, que dirá europeu. Zeca não é negão, não é judeu, não é do samba nem do rock: ‘‘Minha tribo sou eu’’. É um manifesto que renega tudo. ‘‘Dessa negação é que fico livre para ser o que quiser, posso ser tudo.’’
  
   Nessa loja de bichos de estimação que é o mundo (e nele, o disco do Zeca Baleiro) cabe todos os sons, tendências, linhas, ritmos, todas as referências poéticas. O disco do caixeiro-viajante Zeca Baleiro é a casa da mãe Joana da música popular, alegre, misturado, samba-enredo do crioulo doido que leu tudo e gostou do que leu. Por exemplo. Música eletrônica? Está lá, em Drumembêis. Mas não é isso uma embolada? Também. ‘‘Embolada é quase rap / rap é quase drumembêis’’, mistura a letra. ‘‘Tá rolando uma onda aí’’, diz Elba Ramalho, no início da faixa. O DJ que Baleiro invoca chama Corisco. No meio, canta um trecho de folia de reis.
  
   Zeca Baleiro jurou — confira o texto do livreto que acompanha o disco — que iria fazer ‘‘um disco compacto, homogêneo, centrado etcétera, que não faria um disco com síndrome de múltipla personalidade’’. Fica pra próxima, ouvinte. Ele se deu conta: ‘‘Não consegui, e o curioso é que me sinto estranhamente feliz por isso’’. Por que ele queria um disco certinho? Fácil, porque é tudo aquilo que Zeca Baleiro não é. Escute ele falando: ‘‘Admiro os especialistas, o Jorge Ben Jor. Mas a música brasileira tem isso, é tão diversa, é inerente à alma. Faço o som que gostaria de ouvir se eu não fosse eu. Gosto do disco que me surpreenda, que vai me conquistando aos poucos. É o que acho que vai acontecer, se o ouvinte estiver aberto’’.
  
   Cabe poesia, música de Haendel (O Messias, devidamente sampleado, ninguém é louco de deixar o som original, já pensou?), referências à Jovem Guarda (‘‘hi hi Johnny, hi hi Alfredo’’), algumas anotadas no pé da letra, outras devidamente disfarçadas (‘‘são um Onde Está Wally poético’’, defende Baleiro). Leitura de O Capital? Pode conferir. Em Eu Despedi o Meu Patrão: ‘‘Ele roubava o que eu mais valia’’. Em Mundo dos Negócios: ‘‘A poesia está morta / mas juro que não fui eu’’, por exemplo, título de poema e livro de José Paulo Paes. Ou referência ao poeta Stéphane Mallarmé: ‘‘Jamais abolerar o acaso’’ (no original, o verbo é abolir). O disco é um liquidificador de referências, no que isso tem de bom e de mau.
  
   Referências a poetas: ‘‘Arte contemporânea está perdendo a relação com a própria arte. Tudo é calculado para ser bem-sucedido. Não tenho vergonha de ser inteligente, mas sei que sou um cantor popular. Adoro José Paulo Paes, tenho o projeto de musicar os poemas eróticos que ele traduziu. Não é um disco que vou me pressionar para fazer, tenho que ler algumas coisas, Aretino, por exemplo.’’
  
   Compositor popular. Tem a referência cabeça, mas tem o cheiro de mercado, a embolada, tem o que Zeca Baleiro chama de ‘‘meu lado Odair José’’, ensaiado no visual que trazia em Vô Imbolá. Um Brasil mais vasto que une as impossíveis pontas: erudição e Reginaldo Rossi.
 
   Zeca Baleiro vê como o Brasil tem valores permeados: as meninas dos jardins gostam de rap (e happy end, aqui uma coisa não anula a outra, é o país do vale-tudo), enquanto Mano Brown aparece na tevê vestindo Gap. Aqui pode tudo. E Zeca Baleiro é o guru da grande mistura.

(© Correio Braziliense)

Pérolas de Zeca Baleiro

PetShopMundoCão - Zeca Baleiro

Deus não nos reconhece mais
‘‘Nos afastamos do projeto original, dessa essência do que é o ser humano.’’

Objetivos
‘‘Mais do que a glória, quero me divertir.’’

O que toca na rave
‘‘Drumembêis é antropofágico, um repente com levada eletrônica que poderia tocar em Londres.’’

Os achados nas letras
‘‘Os achados estão perdidos por aí, é procurar até achar.’’

Mistérios da criação
‘‘A criação é uma coisa misteriosa. E prefiro não saber como isso se processa. Tudo é tão às claras, veja aí esses reality shows, tudo é feito às vistas de todo mundo, o abraço, as almas, o sexo, os sentimentos, tudo exposto demais. A criação é o meu segredo.’’

Mudar de São Paulo para o mato, mas mato perto da metrópole
‘‘Minha vida profissional está no meio de Rio e São Paulo, mas cansei do tumulto.’’

As meninas na letra de As Meninas dos Jardins gostam de rap e happy end
‘‘Antigamente, as coisas eram definidas, esquerda, direita, careta, doidão. Não somos mais assim, as meninas de Jardins (bairro chique de São Paulo) podem gostar de rap, claro que sem o estofo da vivência de um cara de periferia, mas todo mundo pode ouvir qualquer coisa.’’

(© Correio Braziliense)

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