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05/05/2001
"Lisbela & o
Prisioneiro" eleva coadjuvante a protagonista

MARCELO BARTOLOMEI
Em sua estréia solo na direção, Guel Arraes acerta na mistura do cinema
com o teatro em "Lisbela & o Prisioneiro". Arraes é conhecido pela ousada
produção entre cinema e TV de "O Auto da Compadecida", sucesso que levou mais
de 2 milhões aos cinemas.
Na peça, que entrou em cartaz nesta sexta-feira em São Paulo, Arraes une os
gêneros para tornar o espetáculo dinâmico, segurando o público atenciosamente com uma
história que, mesmo não sendo surpreendente, agrada pela sua leveza e significado.
Desta vez, a estrela de Arraes, que sobe a cada novo trabalho desde seu
reconhecimento nos anos 90 graças à "TV Pirata", ilumina também o trabalho de
um ator que, na peça, é promovido de coadjuvante a protagonista.
Tadeu Mello é, na vida real, um personagem interessante: baixinho, magro,
"branquelo", de canelas "fininhas" e voz aguda, um tipo de
"E.T." global, que nem de longe passaria por galã. E o mais importante: ele faz
rir.
Em meio à história de um casamento mal-resolvido no interior do Nordeste, o
ator Tadeu Mello (Cabo Citonho) arranca aplausos inesperados da platéia, no meio da
apresentação, com sua brilhante atuação. Público de estréia é diferente, pois tem
na platéia uma legião de vips (dramaturgos, atores, diretores e apresentadores de TV),
mas a reação prova que cabe a Mello o "roubo" de quase todas as cenas.
Isto não significa desmerecer o trabalho de Bruno Garcia e de Virgina
Cavendish, tecnicamente os protagonistas, nem do restante do elenco; muito menos desprezar
o texto e as amarrações promovidas entre as cenas do cinema preto-e-branco e a
interpretação tão única do teatro.
Uma única falha: a fascinante atuação do coadjuvante-protagonista esbarra
de fato em sua dicção. Como o texto é dinâmico, não são raras as vezes em que o
espectador se vira para o lado para perguntar "o que ele disse". E não há pior
coisa que perder um bordão no espetáculo. Problema de menos, já que o mais importante
é que o personagem consegue entreter de tal maneira que sempre é preciso acompanhar o
desenrolar de suas peripécias, perto ou longe da cadeia.
Todos os elementos, aliados à comédia inteligente e sensível que passa
pelas mãos de Arraes, fazem de "Lisbela & o Prisioneiro" uma ótima
atração para o paulistano, um "ser" tão temido pela classe artística, como
comprovou o desabafo do próprio Guel Arraes, ao final da apresentação, que respirava
aliviado, dizendo ter ficado "nervoso" com a estréia em São Paulo.
A peça, que estreou no ano passado no Rio de Janeiro e já rodou por algumas
cidades do Nordeste, é uma comédia popular nordestina, cujo cenário é a cidade de
Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco. Conta a história de Leléu, um
"espetalhão" que ganha todas as mulheres do local, mas se apaixona pela
"mocinha" Lisbela e é ameaçado de morte o tempo todo. (Folha Online)
| Teatro: "Lisbela" é primeiro solo de
Guel Arraes
VALMIR SANTOS
"Lisbela
& o Prisioneiro" é peça de Osman Lins que virou trama de TV que virou
espetáculo, esses sob assinatura de Guel Arraes. Não é à toa que o diretor de
programas cômicos para a TV usa com frequência o verbo "fabricar" como
metáfora de "criar". Ele opera em várias frentes, como fez o autor em
questão.
O pernambucano Osman Lins (1924-78) cursou dramaturgia, flertou com a
televisão, mas despendeu mais talento para romances como "Avalovara" (1973).
Conterrâneo, Arraes, 47, também vive em concubinato com áreas distintas,
como televisão, cinema e teatro. Travou contato com os palcos pela primeira vez em 1997,
co-dirigindo a comédia de costumes "O Burguês Ridículo", de Molière, com o
também pernambucano João Falcão ("A Máquina", "Cambaio").
Ao defender sua primeira encenação solo, Arraes parece ter encontrado o
lugar do teatro na carreira, ele que há pouco levou 2,1 milhões de brasileiros ao
cinema, para ver "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, e tem a televisão
na veia há duas décadas.
"No teatro, como tudo na vida, quando você encontra uma solução sobre
a cena de uma batalha, por exemplo. Esta será melhor que uma batalha original ou criada
pelo cinema", diz o diretor.
"Lisbela & o Prisioneiro" não tem batalha, mas Arraes cita
como exemplo a passagem em que a protagonista, vestida de noiva, visita seu amado no
xadrez.
O diretor encasquetou com a cena, não poderia recorrer ao clichê
hollywoodiano das grades em espetáculo não-realista. Solução: induziu um a pensar no
outro, até evoluírem para a contracena. "No teatro, você não precisa
explicitar", diz.
Mas a TV o impregna. O embrião da montagem está num dos programas que a
"TV Pirata" levou ao ar em 1993, adaptação do texto de Lins por Arraes, Pedro
Cardoso e Jorge Furtado, trinca que também se repete agora.
"A gente meteu bastante a mão (no texto), meio que sem a vergonha de
criar uma ou duas viradas dramatúrgicas e dinamizar o original", afirma Arraes.
Tempo e espaço foram mantidos. A história se passa em Vitória de Santo
Antão, cidade natal do autor. Mocinha recatada, Lisbela (Virgínia Cavendish, mulher de
Arraes) é apaixonada por filmes românticos em preto-e-branco.
Ela começa a peça noiva de Douglas (Lúcio Mauro Filho), mas depois se
apaixona pelo sedutor Leléu (Bruno Garcia), quando finalmente compreende que a vida real
pode ser mais romântica do que o cinema.
Um delegado, um cabo, um matador e sua mulher engrossam a comédia popular
nordestina à "Auto da Compadecida".
O espetáculo estreou no Rio em julho passado. Fez temporadas pelo Nordeste e
entra em cartaz hoje em São Paulo, no teatro Hilton. Haverá duas sessões aos sábados,
uma delas a R$ 3, por conta de patrocínio do grupo Pão de Açúcar (cerca de R$ 250
mil).
LISBELA & O PRISIONEIRO
De: Osman Lins
Adaptação: Guel Arraes, Pedro Cardoso e Jorge Furtado
Direção: Guel Arraes
Com: Emiliano Queiróz, Marcos Oliveira, Lívia Falcão, Tadeu Mello e outros
Teatro Hilton (av. Ipiranga, 165, região central, tel. 0/xx/11/3156-4334)
Quando: estréia hoje, às 21h30; sáb., às 19h30 e 21h30. R$ 25 e R$ 3 (sessões
populares aos sáb., às 19h30). Até 1º/7. (Folha Online) |
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