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07/05/2001 Redundância de ex-vanguardista
TÁRIK
DE SOUZA Dessa mastigação de repertório não escapam nem totens como Gilberto Gil, que desembarca pouco mais de um mês antes das festas juninas seu São João vivo (Warner). Trata-se de um remake com platéia (registrado na casa paulista Via Funchal, em junho passado) da inicialmente despretensiosa trilha sonora do filme Eu tu eles, que resultou num estouro de vendagem do cantor no ano passado, puxado pela faixa Esperando na janela (Targino Gondim/ Manuca/ Raimundinho do Acordeon). A despeito do viés junino do novo produto, São João vivo reprisa (claro, com nova roupagem e o calor da platéia) nada menos de oito faixas do disco anterior (Óia eu aqui de novo, Baião da Penha, Esperando na janela, Último pau de arara, Asa branca, Qui nem jiló, Pau de arara e Lamento sertanejo). É verdade que o filhote de Eu tu eles soma 18 faixas (com a delicada bônus Na casa dela, do próprio Gil) contra 14 de seu genitor, mas ainda assim a taxa de redundância é alta para um ex-tropicalista que namorou a vanguarda dissonante. Sua Questão de ordem nem chegou a ser ouvida de tão vaiada nas eliminatórias do Festival da Canção de 1968, o que motivou o célebre discurso de Caetano Veloso contra o conservadorismo da platéia estudantil ''que queria tomar o poder''. Os tempos, obviamente, são outros. O pragmatismo levou a nocaute a iconoclastia e a maestria substituiu na maioria dos casos a invenção, para mencionar a célebre categorização estética de Ezra Pound. Gil não compôs a ode Palco (''subo nesse palco minha alma cheira a talco/ como bumbum de bebê'') por acaso. O tablado é seu domínio e é tal transfiguração que fornece o pathos substancial de São João vivo. Ainda que recorra a expedientes banais como a repetição de refrões no misto ''ijexá-forró'' Toda menina baiana, seu envolvimento com a platéia (via de mão dupla) gera uma energia que recarrega temas surrados como Asa branca (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira) numa levada a galope boa para pular a fogueira, Qui nem jiló (da mesma dupla), batido forte na zabumba ou a re-regravação em formato de xaxado acelerado de Baião da Penha (Guio de Moraes/ David Nasser), também regravada por Caetano. Aliás, o desaparecido xaxado, um dos ritmos engolfados no rótulo generalizador de forró, parece exercer especial fascínio sobre Gil. Ele, que no disco O sol de Oslo, de 1998 indagou em parceria com Rodolfo Stroeter Onde o xaxado tá (''por onde anda o meu xaxado/ já que o rock é tão falado'') recorre ao ritmo em Óia eu aqui de novo (Antonio Barros). Introduz a letra, sucesso de Luiz Gonzaga: ''óia eu aqui de novo, xaxando/ óia eu aqui de novo/ para xaxar''. Outro diferencial favorável ao disco, que o separa das meras ruminações de repertório, é o dialógico apoio instrumental da banda formada por Cicinho (acordeon), Jorginho Gomes, Gustavo de Dalva e Márcio Brasil (percussão), Arthur Maia (baixo), Claudio Andrade (teclados), Sérgio Chiavazzoli (guitarra, bandolim, viola de 12, banjo). O grupo interage - realmente - com o cantor que alterna violão e guitarra. O realce instrumental fica por conta do timbre do pífano (flautinha rudimentar muito usada em bandas do interior nordestino) soprado pelo especialista Carlos Malta. Ele adiciona sempre algum estranhamento à linearidade do desfile de favoritas. Com este estofo conceitual, São João vivo atinge sua meta tripartite: serve de combustível para forrós, festas juninas (abre logo com o clássico baloneiro Olha pro céu, de Luiz Gonzaga e José Fernandes) e ainda pode ser degustado pelos ouvidos que exigem algo além da simples trilha sonora de arrasta-pé. Levado pela mãe aos 11 anos, em 1953, para assistir a um show de Luiz Gonzaga na praça da Sé em Salvador, o menino Gilberto Passos Gil Moreira ficou impressionado com a figura pop que dominava o palco e quis seguir-lhe as pegadas. Ei-lo, trinta e seis anos de carreira depois, cumprindo o rito do eterno retorno. (Jornal do Brasil) |
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