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08/05/2001

Sem tanta falação, até é um CD interessante

 Luiz Gonzaga

   A BMG abre a festa com uma exceção: em vez de um relançamento histórico, um CD inédito. É verdade que Luiz Gonzaga - que dedicou a vida ao selo Victor ou RCA - vale qualquer exceção. Principalmente quando se apóia em documento há 30 anos inacessível ao público: o show "Volta pra curtir", gravado ao vivo em março de 1972, no Teatro Teresa Raquel.

   Musicalmente, o CD é mais do que bom. Gonzaga ainda estava com a voz encorpada, segura, cabocla, nordestina, que fez dele o melhor intérprete de sua música. O repertório é irrepreensível: os sucessos do Rei do Baião, é verdade que, pelas limitações de uma gravação ao vivo, sem a qualidade de som do estúdio. O acompanhamento é correto, fiel ao estilo de Gonzaga. Além do que o ainda não famoso Dominguinhos empunha sua sanfona de verdadeiro sucessor, no instrumento e na voz, do astro do show.

   O CD, porém, tem seus excessos. Ou melhor, há demasiada falação de Gonzaga que, se funcionou no teatro, ao vivo, pelo carisma do rei e pelo clima de redescoberta que cercou o show (Gonzaga ganhando o aval de Caetano Veloso e Gilberto Gil para chegar ao público jovem), perde-se quando ouvido e reouvido em disco. Talvez valesse uma edição: podia-se perder em documento, mas ganhava-se bastante em ritmo.

   O ritmo, sabemos, é fundamental no que ouvimos em casa e não no teatro. Quanto ao documento, seria melhor não termos registro do genial artista tecendo loas a Armando Falcão, em pleno decorrer do show. Ou seja, a um dos homens fortes da ditadura Médici. O bom Sérgio Cabral, no texto do encarte, ressalta com lirismo a ingenuidade de Gonzaga, que "se interessava tanto por política quanto por física nuclear". Pois não é que o rei do baião ainda aceitaria candidatar-se a deputado pelo partido de Médici? Enfim, o CD tem uma vantagem: sempre se pode saltar as falas e ficar com a música. (João Máximo, O Globo).

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