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14/05/2001

Bienal de Artes do Cariri celebra tradição


Termina primeira edição do evento nas cidades cearenses de Barbalha, Crato e Juazeiro do Norte

VALMIR SANTOS

   No Cariri, sertão cearense, os paus-de-arara continuam a ranger pelo asfalto ou estradas de terra batida. Esse meio arcaico de transporte -o povo espremido feito gado na carroceria do caminhão- não tem a demanda de quatro, cinco décadas atrás, quando levava migrantes nordestinos para o "Sul maravilha".

   Hoje, os paus-de-arara concorrem com lotações, caminhonetes, além do aeroporto de Juazeiro do Norte e do cyber café de Crato.

   Cercado por montanhas, o vale do Cariri, primitivamente habitado pela nação indígena (dizimada) que lhe dá nome, destoa do imaginário árido da seca e chega ao século 21 preso às raízes.

   Prova de perseverança da cultura popular se deu no domingo passado, em Barbalha (550 km ao sul de Fortaleza), no cortejo de 15 grupos folclóricos vindos do Cariri, a maioria, ou de Pernambuco e do Rio Grande do Norte.

Tradições populares

   Os "folguedos" (ou melhor, as brincadeiras) são o ponto alto da 1ª Bienal de Artes do Cariri, que acontece simultaneamente em Barbalha, Crato e Juazeiro do Norte -iniciativa das prefeituras (R$ 70 mil cotizados) e do Estado (R$ 400 mil). Esses municípios (são 32 na região) formam triângulo dos mais representativos na devoção às tradições populares.

   A programação do evento termina hoje, quando o cortejo se repete, desta vez em Crato, cidade natal de padre Cícero (1844-1934). Desde o dia 4 aconteceram diversos shows (Xangai, Cordel do Fogo Encantado, Bia Bedran, Luís Fidelis, Bráulio Tavares, Antúlio Madureira etc), exposições, mostras de vídeo, lançamentos de livro, encontro de cordelistas e oficinas (percussão, xilogravura, brinquedos etc).

   Em começo de noite no qual a lua se insinua cheia, os moradores de Barbalha acompanham reisados, dança do coco, dança do pau de fita, incelências, penitentes, enfim, ritmos, cânticos e movimentos característicos do Nordeste, transmitidos espontaneamente por gerações.

   "Quando meu pai morreu, aos 104 anos, ele disse para os seis filhos: "Essa bandinha é para vocês alegrarem o Brasil". É essa a missão que cumprimos com prazer", afirma Raimundo, 65, um dos integrantes da banda cabaçal dos Irmãos Aniceto, de Crato.

   De Caicó (RN), vem o reisado do grupo Reis Negros do Rosário, criado em 1771. Quem conta sua história é Bonifácio José Andrade, 69, que já foi capitão-de-lança (comanda o bailado guerreiro que simula ataque e defesa) e hoje é um dos tocadores de tambor.

   As incelências e os penitentes do sítio Cabeceiras, em Barbalha, despertam atenção pelos cânticos dolentes e pelas roupas (elas, vestidos e lenços brancos na cabeça; eles, batas pretas com desenhos de cruz em branco e capuz).

   Mulheres entoam como se velassem "um anjo" (criança). Homens louvam e se imolam com pequenos chicotes com lâminas nas pontas. "É como lei divina, não dói", diz Severino Antônio Rocha, 75.

   O cortejo cativa os moradores de Barbalha, eles que em junho celebram a profana festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio.
"Nasci e me criei vendo a cultura do povo, nosso mundo é este", conta a dona-de-casa Terezinha Ribeiro Bezerra, 57.

   "Olha o boi, olha o boi, minha filha", empolga-se a moradora Eneida Feitosa de Queiróz, 68, despertando os "oím" da bisneta, Emilly, de sete meses, em seu colo. (Folha de S. Paulo)

Cortejo recria e reafirma cultura popular

ANA CRISTINA MARINHO

   Para acompanhar o cortejo de folguedos pelas ruas de Barbalha (CE), era preciso correr contra o tempo. Havia boi, galantes e damas, burrinha, bode, mascarados, Mateus, gente que canta benditos, os Irmãos Aniceto e até uma réplica do Pau da Bandeira de Santo Antônio, que saiu pela primeira vez em maio e, por isso, não atraiu moça casamenteira.

   O pouco tempo (total de cerca de quatro horas) fez com que os grupos adaptassem as brincadeiras. Alguns bichos que aparecem nos bois entraram num pé e saíram no outro; ema e girafa brincaram juntas, e o boi, morre-não-morre, acabou sem ressuscitar.

   Já era noite e o menino mirradinho vestido de pastor não conseguia laçar o boi, que dava marradas para todo lado, assustava as crianças e empurrava as moças que se apertavam na roda.

   Os Irmãos Aniceto, acostumados a esse tipo de apresentação, escolheram alguns cantos de entrada, outros que servem para esquentar a festa, e terminaram com a dança das facas.

   Resumiram em alguns minutos uma brincadeira que pode durar a noite toda quando o motivo é comemorar um casamento ou a renovação do santo.

Cultura do dia-a-dia

   O que se via no corpo dos homens que participavam do cortejo, o que se ouvia na voz dos que entoavam benditos, de mulheres como dona Valquíria, que cantava baixinho os cocos que aprendeu com o avô, é resultado de uma cultura que se constrói nas relações miúdas do dia-a-dia, que não identifica na repetição de gestos e versos um indício de empobrecimento.

   O tempo de aprender os passos, de trocar experiências, esperar o Mateus recuperar as energias, tempo de tomar uma bebida, conversar com a dona da casa, fazer uma oração para um santo de devoção, não cabe nesse tipo de apresentação.

   Mesmo assim, dava para se encantar com a mistura de ritmos, o colorido das roupas, a alegria de alguns diante das câmeras, a vaidade de outros diante de amigos e vizinhos.

   Era possível perceber nos gestos e na expressão séria dos homens que dançam o reisado as marcas que diferenciam aqueles grupos de outros que surgem nas cidades e que se autodenominam "grupos folclóricos".

   Estes podem ter roupas novas, cantar bem entoado, com todos os "erres" e "esses", mas não trazem nos gestos, no canto, o registro de uma cultura que se constrói nas relações de trabalho e solidariedade, na transmissão do saber através de histórias de assombração e encantamento, na mistura sem reservas entre coisas da terra e do céu.

Fascínio das crianças

   Guardo na memória o fascínio de meninos e meninas diante do boi e dos mascarados. Meninos que aprendem a dançar desde pequenos, como um dos Aniceto, de seis anos, que já acompanha os mais velhos na brincadeira, no jeito de tocar pífano e de não deixar cair o "chapéu de massa" da cabeça, mesmo com todas as evoluções que a dança exige.

   Aquele menino traz no corpo as marcas de uma cultura que muitos insistem em dizer que está acabando, porque só conseguem vê-la no passado, não percebem que para existir precisa se renovar, mesmo que para isso tenha que viver num tempo corrido.

Ana Cristina Marinho, 30, é doutoranda em literatura brasileira pela Universidade Federal da Paraíba e co-autora de "Cordel na Sala de Aula" (ed. Duas Cidades), com Hélder Pinheiro, que será lançado este mês


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