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17/05/2001

CD recupera show histórico do velho Lua nos anos de chumbo

Luiz Gonzaga Volta Para Curtir

'Luiz Gonzaga Volta Para Curtir' registra a volta do rei do baião aos palcos cariocas em 1972, em show-tributo que teve o aval dos tropicalistas

   "Guitarras e sanfonas anunciam o rei do baião./Aviões sobre as praias da Guanabara anunciam o rei do baião./Lua cheia sobre o céu do Brasil."

   Com esses versos Jorge Salomão alardeava o show do pernambucano Luiz Gonzaga, o velho Lua, no Teatro Tereza Rachel, no Rio, em março de 1972. O acontecimento foi tratado como o retorno do cantor e compositor aos palcos cariocas, pois havia mais de uma década que estava esquecido por lá.

   O registro desse show, organizado pelos poetas Jorge Salomão e Capinam, pode ser conferido no CD Luiz Gonzaga Volta Para Curtir, que a BMG acaba de lançar no mercado.

   O motivo dessa volta de Luiz Gonzaga aos palcos cariocas, conta o jornalista Sérgio Cabral no encarte, foi a declaração dos tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso, recém-chegados do exílio, dizendo que Gonzagão era uma das maiores personalidades artísticas do Brasil e que tinha influenciado enormemente as trajetórias pessoais de ambos.

   Nesse tempo, Gil iria gravar o disco Expresso 2222, marcado pela presença da música regional nordestina, e Caetano tinha acabado de gravar Asa Branca (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) em seu LP londrino Caetano Veloso, de 1971.

   No retorno ao Brasil, os tropicalistas estavam abrindo mão de experimentos sonoros mais radicais e promovendo uma releitura de algumas raízes profundas de suas músicas.

   Na primeira vez que Luiz Gonzaga chegou ao Rio, no fim da década de 30, foi o Mangue (nome pelo qual era conhecida a antiga zona de meretrício da cidade) que o acolheu. Ali tocava os grandes sucessos da época em troca de algumas moedas, depositadas num pires que corria as mesas após o show.

   O público - marinheiros, malandros, boêmios e prostitutas - apreciava o balanço de sua sanfona, mas prestava pouca atenção a Lua, que não tocava música nordestina e tinha vergonha de cantar com sua voz de "taboca rachada".

   A partir daí, Luiz Gonzaga trilhou um longo e sinuoso caminho, que passou pela glória, entre o fim dos anos 40 e início dos 50, e pelo quase total esquecimento nos anos seguintes.

   Nesse show de 72, tudo era bem diferente do início de sua carreira, ainda que Lua não estivesse sendo devidamente prestigiado.

   O contraste começava pelo público, composto maciçamente por estudantes intelectualizados, avidamente interessados em entender o que fazia daquela figura um dos mais importantes precursores de seus cantores preferidos.

Amigo de Falcão

   O endereço também era outro: a rica zona sul carioca, que em nada se parecia com o Mangue. Mas a maior mudança se dera no artista, que mostrava sua voz sem receios e seu repertório, que o consagrou em todo o País como O Rei do Baião.

   Gonzagão estava completamente à vontade no palco. O afastamento da mídia e do público das grandes cidades do Sul não o impediu de exercer seu reinado no interior do País, sobretudo no Nordeste. Eram viagens cantando em carrocerias de caminhão, cinemas, circos, coretos etc.

   Durante o show, o jovem público pôde conhecer (ou recordar) as belas canções do velho Lua e ouvir seus divertidíssimos casos.

   Num deles, Gonzagão fala um pouco sobre sua chegada no Rio, em 1939, e provoca estranheza na platéia ao se referir com carinho a um amigo daquele tempo que estava ali presente: Armando Falcão, ex-deputado federal e articulador civil do golpe militar de 1964. Falcão viria a ser anos depois um dos principais responsáveis pela censura no governo Geisel, quando assumiu o cargo de ministro da Justiça.

'Maior casada do mundo'

   O público, no entanto, compreendeu que não havia interesse político nas palavras de Gonzagão. E nenhum censor do regime foi lhe cobrar explicações depois do show sobre uma frase perigosa dita um pouco adiante:

   "Os coroné perderam o cartaz. Hoje, não tem mais esse negócio de coronelismo; coroné, hoje, é coroné mesmo!". Outro caso contado mostra melhor a essência de Luiz Gonzaga. É a narrativa do retirante que está se preparando para voltar à sua terra, depois de passada a seca.

   Imitando através de onomatopéias o som dos passos arrastados pela estrada, o cantor acrescenta o pensamento do sertanejo: "Se houver inverno, vou dar a maior casada do mundo!".

   O universo de Luiz Gonzaga, rico nas palavras, sons e ritmos, reúne famosos personagens do sertão - Lampião, Padre Cícero, Mestre Vitalino, Frei Damião -, que se encontram com os "cabras" desconhecidos e com as moças perfumadas na festa da sanfona do Rei do Baião.

   Embora a iniciativa de Jorge Salomão e Capinam tenha sido bem-sucedida, a justiça à obra de Luiz Gonzaga só seria feita na década de 80, quando ele retomou o prestígio, gravou com grandes estrelas da MPB e conseguiu seu primeiro disco de ouro, com o LP Danado de Bom (1984).

   Luiz Gonzaga morreu em 21 de junho de 1989, aos 76 anos. Mas sua história continua sendo contada nas vozes de grandes intérpretes e nos bons relançamentos de sua obra, como o este Luiz Gonzaga Volta Para Curtir. (André Domingues, Jornal da Tarde)

Disco inédito mostra show de Luiz Gonzaga em 1972
 
BMG lança 'Luiz Gonzaga Volta para Curtir', gravado no Teatro Tereza Rachel

JOTABÊ MEDEIROS

   Em março de 1972, "apadrinhado" por dois discípulos - Caetano Veloso e Gilberto Gil -, Luiz Gonzaga fez uma temporada no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro. O show, com roteiro de José Carlos Capinam e Jorge Salomão, permaneceu inédito por quase 30 anos e retorna agora como parte das comemorações dos 100 anos da RCA Victor.

   "Era tocadorzinho de pé de serra, namorador como o diabo", conta Luiz Gonzaga, o velho Lua, em um dos muitos causos que conta nos intervalos entre as 15 faixas do CD Luiz Gonzaga Volta para Curtir (BMG), que mostram 29 canções com a gênese da mais popular e inventiva música brasileira do século passado.

   Gonzagão estava acompanhado por Dominguinhos (sanfona), Maria Helena (triângulo, cabaça e voz), Toinho (triângulo), Renato Piau (guitarra), Porfírio Costa (baixo), Raimundinho (reco-reco) e Ivanildo Leite (zabumba, gonguê e triângulo).

   Sérgio Cabral, no texto de apresentação, ressalta duas qualidades fundamentais de Luiz Gonzaga: como cantor, o melhor intérprete da música nordestina e como instrumentista, criador de uma escola. Há vários outros pontos que, fora dos limites estritos de uma contracapa, mereceriam destaque. O próprio CD os aponta.

   Em Cigarro de Paia (Armando Cavalcante/Klecius Caldas), Gonzaga funde o lamento do aboio protomusical do sertão ao timing do blues rural americano - o ponto de contato é a guitarra à Santana de Renato Piau. Armando Cavalcante, general da reserva e boêmio, é autor das primeiras músicas do show.

   Outro ponto é a busca de Luiz Gonzaga por um ritual sertanejo que fosse adequado a uma cultura urbana, de programa de auditório, de animador de salão de baile. "Eu queria ser o Rei do Baião", conta Luiz Gonzaga no seu primeiro causo. "Quando eu chegasse em 39 ao Rio de Janeiro, eu ia tocar na zona violenta, lá no mangue."

   O disco recém-lançado de Gilberto Gil, São João, predominantemente composto por canções "de festa junina" de Gonzagão, mostra a outra faceta do Velho Lua, a de depositário de uma tradição cultural nordestina. "Todo tempo que eu tiver para mim é pouco, para dançar com meu benzinho numa casa de reboco", canta o sanfoneiro, numa das suas melhores canções, Numa Sala de Reboco (Luiz Gonzaga/José Marcolino).

   Gonzagão foi, mesmo sem querer, o pai da música nordestina de duplo sentido, com suas piadas ingênuas. E também com seus duetos bem-humorados, como em Lorota Boa (com Humberto Teixeira) e Siri Jogando Bola (com Zédantas). Nas duas, acompanha-se ao microfone com a voz escrachada de Maria Helena, um pendant falsamente tosco que seduz de imediato.

   Alguns depoimentos apóiam o senso histórico do disco, no encarte. "Um som que me formou: meu pai me pedia para comprar os discos lá no Boulevard e sempre me transforma em alegria e prazer", contou o cineasta Leon Hirszman.

   "A ambientação desse show não tem nada a ver com cenário, não somos cenógrafos", diz Capinam. "Para Luiz Gonzaga, Rei do Baião, criamos vermelhos e brilhos, alegrias de circo, verdes e areia, o cine-teatro, tela & palco", afirma. Não precisava nem ter sugerido nada disso. Luiz Gonzaga trazia embutido nos baixos da sanfona. (O Estado de S. Paulo)

 

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