25/05/2001
Silvério Pessoa incorpora Jacinto Silva

Ex-vocalista do Cascabulho homenageia o pioneiro
compositor pernambucano com o primeiro CD do projeto Bate o Mancá
Marco Antonio Barbosa
Você sabe o que é um mancá? Mancá é uma peça
fundamental para o funcionamento dos carros de boi. E é de carros de boi, usinas de
açúcar, canaviais e sol a pino que se compõe o imaginário de O Povo dos Canaviais,
primeiro disco do "projeto" Bate o Mancá. Nas rédeas, Silvério Pessoa,
ex-vocalista do grupo pernambucano Cascabulho - que, assim como em sua antiga banda, usa a
obra de um pioneiro compositor nordestino como trampolim para sons mais universais. No
Cascabulho, a referência era Jackson do Pandeiro. O Bate o Mancá, por sua vez, vem
seguindo as pegadas de Jacinto Silva. O Povo dos Canaviais é todo composto de
releituras de músicas de Jacinto, falecido em fevereiro último. (Em tempo: o encarte do
disco traz um gráfico bem detalhado sobre a "geometria" dos carros de boi,
explicando inclusive a função do mancá.)
"Jacinto Silva é um elemento presente na minha alma. Para mim ele é um
dos ícones da música nordestina, tão forte quanto Luiz Gonzaga e Jackson do
Pandeiro", afirma Silvério, que ainda filosofa: "A música de Jacinto é parte
importante do imenso prisma da música nordestina, de onde sai luz para todos os lados.
Ele é uma das luzes mais brilhantes". Em O Povo dos Canaviais pode se ter uma
amostra da inventividade de Jacinto como compositor, que trafegava entre vários ritmos
(samba de roda, coco, embolada e o forró mais convencional). "É tudo música de
terreiro. Nada disso é novidade para os nordestinos", considera o cantor.
O Povo dos Canaviais é a concretização em CD de uma relação que
já ultrapassava a mera admiração. Silvério conheceu Jacinto Silva em 1995, antes mesmo
de formar o Cascabulho. "Eu o conheci em Caruaru, mas ele já fazia parte de meu
imaginário. Cresci ouvindo suas músicas no rádio, na Zona da Mata pernambucana. Para
mim, homenageá-lo era muito importante; deixei até minha produção como compositor de
lado. Quero que o disco tenha um sentido educativo, que ajude as pessoas a conhecer a obra
de Jacinto e também para preservá-la", conta Silvério. Enquanto seguia com o
Cascabulho, Silvério aprofundou a amizade pessoal com Jacinto Silva e acalentava planos
de um projeto paralelo ao grupo, dedicado às músicas do compositor. "Ele dizia que
as músicas dele eram minhas também", lembra Silvério. No festival Abril Pro Rock
do ano passado, o Bate o Mancá fez sua estréia oficial ao vivo, já numa época em que
Silvério dava sinais de insatisfação com sua situação no Cascabulho. "Sou muito
inquieto, então resolvi sair da banda para perseguir um projeto de realização pessoal.
Sei que fiz um bom trabalho com eles, mas estou muito mais feliz agora", diz o
cantor.
O álbum foi sendo registrado ao longo do ano passado, com participações de
gente como BNegão, do Planet Hemp, Marcelo e Zé Brown do Faces do Subúrbio (os três
soltam um repente - ou seria rapente?! - na faixa Amor de Carpinteiro), Lula
Queiroga (co-produtor do CD), Zé da Flauta e Lirinha (do Cordel do Fogo Encantado).
"Apesar do Bate o Mancá ser uma viagem completamente minha, pessoal, essa galera foi
fundamental para concretizar o disco", considera Silvério. Não poderia faltar o
próprio Jacinto Silva: o disco traz suas últimas gravações, como um dueto com
Silvério (em Aquela Rosa) e um sample extraído de uma gravação caseira
(inserido em Casa de Aranha).
Silvério não teme ficar restrito aos clichês nordestinos e diz que, mesmo
em se tratando de um trabalho de resgate bem específico, o Bate o Mancá almeja a
universalidade. "Acho que o momento é oportuno; afinal, o forró está em alta, todo
mundo louva Luiz Gonzaga, Gilberto Gil acabou de lançar um disco de forró... Mas eu sou
o que sou. Trata-se de um trabalho muito espontâneo. O que é verdadeiro fica", diz
o cantor, que completa: "Apesar de ter trocado a sonoridade mais pop do Cascabulho
por um som mais regional, folclórico, não acho que andei para trás".
O complemento de O Povo dos Canaviais no trabalho de preservação da
obra de Jacinto Silva é o site Bate o Mancá (www.bateomanca.mus.br), já no ar mas ainda
em construção. "Estou trabalhando, junto com a família de Jacinto, num catálogo
completo da obra dele. Queremos colocar isso tudo no site, a relação de todos os discos
que ele gravou desde os anos 50. Infelizmente, vamos ter de ficar só nisso: é quase
impossível recuperar os fonogramas, muita coisa já se perdeu", conta Silvério. O
próximo passo seria a construção da Casa do Forró, um memorial à obra de Jacinto
construído com o apoio da prefeitura de Caruaru. "Penso em uma visão mais ampla, um
espaço que tenha não só as recordações da vida e da carreira de Jacinto, mas também
possa mostrar como o próprio forró nasce, dentro de seu contexto social", revela
Silvério.
E, em meio a tanto resgate, como fica a criatividade própria de Silvério -
que define a si mesmo como um "compositor compulsivo"? "Tenho mais de
trinta músicas prontas, mas não tenho pressa de lançá-las: quero trabalhar este disco
do Bate o Mancá por uns dois anos, antes de gravar meu próximo álbum", diz
Silvério. Na turnê promocional do novo projeto (que começa oficialmente dia 14 de
junho, com um show em Caruaru), Silvério canta não só as músicas de Jacinto, mas
também várias do Cascabulho - que, por sinal, continua seu rumo sem o vocalista.
"Canções como Vovó Alaíde e Vendedor de Amendoim são minhas; o
Cascabulho apenas as gravou (no álbum Fome Dá Dor de Cabeça). Deixei para lá
todas as brigas judiciais com o grupo, mas as músicas sempre serão minhas",
sustenta Silvério. (CliqueMusic) |
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