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28/05/2001

Morte e estrelas em Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

O poeta pernambucano, cuja Antologia Poética acaba de ser reeditada pela Editora Nova Fronteira (232 págs., R$ 25,00), teve a 'Dama Branca' como uma companheira constante, na vida e na obra

 

Edson Nery da Fonseca

   Em 19 de abril de 1886 - há 115 anos, portanto - nascia no Recife o poeta Manuel Bandeira. Nascia na então muito quieta Rua da Ventura, que é hoje a movimentadíssima Rua Joaquim Nabuco, passagem obrigatória de ônibus, caminhões, automóveis e outras viaturas que se destinam à zona oeste da cidade. Em seu poema "Evocação do Recife", escrito em 1925, Bandeira exclamou: "Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)."

   Como as Ruas da União, da Aurora e da Saudade, a do Sol continua, felizmente, com o seu nome luminoso; mas a Rua da Ventura passou a chamar-se Joaquim Nabuco. É verdade que o grande abolicionista não foi um Fulano de Tal qualquer; entretanto, o seu nome poderia ter sido dado a outra rua, como o foi a uma praça do bairro de Santo Antônio, na qual se ergue uma bela estátua.

   Na casa em que nasceu o poeta funciona um restaurante que tem o nome do livro no qual reuniu seus poemas de circunstância: Mafuá do Malungo. Toda a ambientação evoca a vida e a obra de Bandeira: retratos dele menino e homem feito, fotografias do velho Recife, reprodução da edição príncipe do Mafuá do Malungo (uma raridade bibliográfica impressa em Barcelona por João Cabral de Melo Neto em 1948) e até um boneco que o representa sentado diante de uma escrivaninha da época.

   Numa das paredes, o retrato que pertenceu à hoje inexistente Lojinha Pasárgada, mantida no Rio de Janeiro pelo mercador de livros Carlos Ribeiro. Noutra, uma bela fotomontagem do poema "Evocação do Recife" sobre gravuras antigas da cidade, trabalho do arquiteto/pintor Sidney Tendler, autor, aliás, de toda a ambientação do restaurante.

   Somente em 1892, quando tinha seis anos de idade, é que o poeta passou a residir com a família de seu avô materno na casa da Rua da União imortalizada em seus versos:

"Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade"

   Morreram todos, é verdade: o avô, a avó, os pais, a irmã-enfermeira, as empregadas Rosa e Tomásia, os vizinhos. Como ele escreveu noutro poema do livro Libertinagem (1930) - poema no qual recriou, com elementos do folclore brasileiro, o tema universal ubi sunt:

"Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."

   Mas fisicamente a casa sobreviveu. Em 1986, comemorando o centenário de nascimento de Bandeira, ela foi tombada pelo governo do Estado, adquirida e restaurada, sendo desde então o Espaço Pasárgada. Em sua fachada foi fixada uma grande cabeça de bronze do poeta. Erradamente chamada de busto, a cabeça de Manuel Bandeira - uma obra de arte do grande escultor Celso Antonio - despertou grande celeuma porque o jornalista Mário Melo se insurgiu contra sua colocação em via pública, alegando que a Constituição do Estado de Pernambuco proíbe nomes de pessoas vivas em ruas e praças.

   A transposição de nomes para esculturas era flagrantemente antijurídica pois, como é sabido, leis proibitivas não admitem ilações. A escultura havia sido encomendada a Celso Antonio pela Assembléia Legislativa de Pernambuco, por meio do empresário e homem de letras paraibano Odilon Ribeiro Coutinho, recentemente falecido. Mas o saudoso mecenas acabou pagando tudo.

   Manuel Bandeira ficou, naturalmente, muito aborrecido com o episódio e não compareceu à inauguração da cabeça que ele mesmo chamava busto. No poema "Recife" - escrito em 20 de março de 1963 e incluído no livro Estrela da Tarde - ele exclamou, citando o desabafo de Ciprião, o Africano:

"Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea!
Nem os ossos nem o busto.
Que me adianta um busto depois de eu morto?
Depois de morto não me interessará senão, se possível,
Um cantinho no céu."

   A morte esteve sempre presente tanto na vida como na obra de Manuel Bandeira. Tuberculoso aos 18 anos, interrompe o curso de arquitetura iniciado em 1903 na Escola Politécnica de São Paulo e procura inicialmente os climas serranos de Campanha (MG), Teresópolis (RJ), Maranguape, Uruquê e Quixeramobim (CE). Em 1913 vai para o sanatório de Clavadel, perto de Davos Platz, Suíça, onde permanece até o início da 1.ª Guerra Mundial.

   Um tisiólogo suíço informou que seus pulmões apresentavam "lesões teoricamente incompatíveis com a vida". O poema "Pneumotórax" - antigo método de tratamento da tuberculose pulmonar por introdução de nitrogênio ou ar na cavidade pleural - reflete com ironia a situação pessoal do poeta:

"Febre, hemoptise , dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
...............................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."

   A morte também aparece freqüentemente na obra bandeiriana e José Lins do Rego explicou muito bem porque, em sua contribuição à obra coletiva de 1936 Homenagem a Manuel Bandeira: "Nada se parece mais com Manuel Bandeira que a sua poesia. O homem não é no seu caso o outro lado da sua arte, como sucede com Augusto Frederico Schmidt, que a gente lê espantado, sem encontrar um jeito de ligar a poesia com o seu autor." Manuel Bandeira foi, portanto, o contrário de Fernando Pessoa, para quem "o poeta é um fingidor".

   Ele viu a Morte tão de perto que ela se tornou o seu tema preferido. Não fingia, portanto, nem romantizava quando escrevia, em 1912, concluindo o segundo poema de seu livro de estréia, em 1917, A Cinza das Horas: "- Eu faço versos como quem morre." Até num livro que se chama Carnaval - o segundo por ele publicado, em 1919 - a Morte aparece como "Dama Branca":

"A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.
Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai."

   Em Libertinagem, livro publicado em 1930, aparecem, além de "Pneumotórax", o "Poema de Finados" e "O Último Poema", que é uma de suas obras-primas, escrito com uma compulsão responsável pela eliminação de vírgulas e pontos:

"Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."

   Em 1936 o poeta completa 50 anos e publica Estrela da Manhã. É o começo da utilização do que Elódia Xavier chamou "o símbolo estelar na poesia de Manuel Bandeira": símbolo evidente tanto nos títulos dos livros - além do citado Estrela da Manhã, Estrela da Tarde (1960) e Estrela da Vida Inteira (1966) - como em vários poemas que a professora Elódia aprecia em sua brilhante exegese, publicada na obra coletiva que organizou em 1986 - Manuel Bandeira 1886-1986 (Rio de Janeiro: VERS/Antares) -- e reproduzida na edição crítica de Libertinagem/Estrela da Manhã, organizada por Giulia Lanciani para a Coleção Archivos da Unesco (México: Fondo de Cultura Econômica, 1998).

   Ao publicar em 1948, pela Casa do Estudante do Brasil, a segunda edição das Poesias Completas, Manuel Bandeira incluiu no fim do livro um grupo de poemas até então inéditos ao qual deu o título de Belo Belo, com um poema homônimo, reproduzido por Elódia Xavier em seu estudo porque nele "aparece a estrela como objeto de desejo". Também de Belo Belo é o poema "As Três Marias", que diz na primeira estrofe:

"Atrás destas moitas,
Nos troncos, no chão,
Vi, traçado a sangue,
O signo-salmão!"

   Signo-salmão ou signo-salomão é - explica a Grande Enciclopédia Delta-Larousse - uma espécie de talismã ou amuleto, constituído por linhas retas entrelaçadas, formando uma estrela de cinco pontas. Também é conhecido como estrela de Salomão ou pentagrama. E o poeta termina com esta exclamação:

"Dentro dalma levo,
Levo três estrelas,
Levo as três Marias!"

   Três Marias são as estrelas que formam o cinto da constelação de Órion, que fica na zona equatorial. Lembre-se que antes, na "Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá", Bandeira perguntou angustiado: "Meu Deus, serão as três Marias?" A obsessão da Morte levou o poeta a apelar para as três Marias que podem ser tanto as da constelação de Órion como as do Evangelho: Maria mãe de Jesus, Maria Madalena e Maria irmã de Marta e Lázaro.

   A Dama Branca se faz presente em Estrela da Manhã pelos poemas "Oração a Nossa Senhora da Boa Morte" - que Múcio Leão incluía entre as melhores poesias de Manuel Bandeira -, "Momento num Café", "Contrição" e "Jacqueline". "Momento num Café" - que mereceu um magistral ensaio de exegese de Otto Maria Carpeaux - é um dos mais belos poemas de Manuel Bandeira, mas contém uma terrível blasfêmia: a de que, com a morte, o corpo se "liberta para sempre da alma extinta". Parece que depois de escrevê-lo o poeta relutou muito em publicá-lo, talvez receoso de uma excomunhão. Acabou publicando-o, mas o fez seguir do poema "Contrição". Contrição é, no vocabulário teológico, dor profunda e sincera pelas ofensas feitas a Deus.

   Este poema de Manuel Bandeira é ainda mais forte do que os chamados salmos penitenciais doVelho Testamento:

"Quero banhar-me nas águas límpidas
Quero banhar-me nas águas puras
Sou a mais baixa das criaturas
Me sinto sórdido
Confiei às feras as minhas lágrimas
Rolei de borco pelas calçadas
Cobri meu rosto de bofetadas
Meu Deus valei-me
Vozes da infância contai a história
Da vida boa que nunca veio
E eu caia ouvindo-a no calmo seio
Da eternidade."

   Em Lira dos Cinquent'anos - grupo de poemas que, como o de Belo Belo, não tem existência bibliográfica independente - está "A Morte Absoluta", poema no qual o autor manifesta o desejo de:

"Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: 'Quem foi?...'
Morrer mais completamente ainda,
--- Sem deixar sequer esse nome."

   Num livro do ensaísta português Fidelino de Figueiredo há um "Retrato da Morte" no qual ele fala de um moribundo que viu a Morte chegar não como o esqueleto armado de foice das gravuras antigas e sim como uma linda e doce mulher que lhe fechou os olhos com ternura. Dessa admirável página de prosa Manuel Bandeira desentranhou - o verbo com esta acepção foi cunhado por ele - o belíssimo poema "O homem e a morte", que também figura em Belo Belo.

   Como era natural que acontecesse, a Morte reaparece com mais freqüência nos dois últimos livros de Manuel Bandeira: Opus 10 e Estrela da Tarde. Ambos surgiram inicialmente em edições para bibliófilos, a primeira impressa em Niterói por Thiago de Melo e Geir Campos (Hipocampo) em 1952 e a segunda na Bahia (Dinamene) em 1960. Os seis últimos poemas de Estrela da Tarde estão agrupados sob o título "Preparação para a Morte".

   Dois anos antes de morrer, em 13 de outubro de 1968, Manuel Bandeira concordou com os artistas gráficos André Willième e Antonio Grosso em reunir num álbum ilustrado com litografias do pintor João Quaglia 13 poemas escolhidos como representativos de seu tema favorito: a Morte. Ele mesmo os gravou em pedra e do álbum existem apenas 108 exemplares, sendo 100 numerados e oito destinados ao autor e aos artistas. Não sabemos por que o primeiro desses poemas, "O homem e as coisas", até então inédito, não figura nas edições da Nova Fronteira - Estrela da Vida Inteira - nem da Nova Aguilar - Poesia Completa e Prosa. Por isso o reproduzimos na íntegra agora:

"Quando eu era menino
Olhava para as coisas
Como se sempre as visse
Pela primeira vez.
Agora que eu estou velho
Sempre olho para elas
Como, ai de mim, se as visse
Pela última vez."

Edson Nery da Fonseca é professor emérito da UnB (Jornal da Tarde)

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