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04/06/2001

Cultura no Nordeste não é só de cana

TÁRIK DE SOUZA

   Estigmas de um mercado afunilado. Como desceu para o Sul Maravilha em meados dos 50 com seus cocos e rojões, Jackson do Pandeiro destronou no segmento nordestino o rei do baião Luiz Gonzaga, então em declínio de popularidade na mídia principal. Por ter ficado em sua região, este ás do coco sincopado, o chamado trava-língua com pique de embolada, o alagoano Jacinto Silva morreu aos 68, no começo deste ano em silêncio desrespeitoso. Começou a carreira em 1942, gravou a partir de 1959 nada menos de 24 LPs e dois CDs, tinha a agenda atulhada de shows, mas quem o conhece no Sudeste ditador de opinião? Os que não ouviram sequer seu último CD, Só não dança quem não quer (Manguenitude), produzido por Zé da Flauta no ano passado, agora serão apresentados a ele em Bate o mancá (Natasha), tributo prestado pelo ex-líder do grupo Cascabulho Silvério Pessoa.

   Muito além da mera repescagem dos sucessos do ícone, capturado em pequenos depoimentos dispostos em vinhetas e (cantando) na última faixa (Aquela rosa), o disco injeta eletrônica nos variados formatos do gênero praticado por ele. O resultado em algumas passagens é um eletrococo que rivaliza com o upgrade tecnológico aplicado por Chico Science e sua Nação Zumbi ao maracatu. ''Silvério é o único que pode levar o mangue beat adiante'', profetizou numa entrevista em 1998 Paulo André Pires, organizador do festival pernambucano Abril Pro Rock, propagador do movimento.

   Bate o mancá (re)ativa o mangue beat (de grupos inovadores como Nação Zumbi e mundo livre s/a), abrindo-lhe uma facção de fraseado mais veloz que o rap, em compasso (eventual) de drum n bass, munida de samplers e guitarras com overdrives esgarçadas no convívio com o eixo central formado pela sanfona, triângulo e zabumba. ''O forró é isso, é poeira, é simplicidade'', prega Jacinto numa das vinhetas de abertura das faixas. Mas que ninguém se engane. O disco não surfa na onda oportunista de disseminação do chamado forró universitário.

   Aqui e ali pode incentivar um arrasta-pé, mas, por trás da aparente singeleza, as composições de Jacinto propõem armadilhas poéticas, nós rítmicos e exigem destreza vocal típica de uma época em que os criadores populares, por mais intuitivos, sempre aspiravam à norma culta. Como no intrincado Coco do M, um aglomerado de palavras com essa inicial (''morou no mato é madeira (...)/ melão maduro, morcego, mosquito e muro'') que desata num refrão recorrente: ''Quando eu canto esse coco minha língua treme/ quem fizer outro coco em m/ eu amarro e mando matar''.

   Contracenando com vários tipos de coro, do feminino aconchegante do Comadre Florzinha ao tônus rapper das vozes ásperas do grupo Faces de Subúrbio, Silvério também promove uma metamorfose ambulante pessoal. Às vezes puxa nos erres encarnando seu (outro) mestre Jackson do Pandeiro - a quem o Cascabulho dirigia a maior parte do repertório - ou soa como um Alceu Valença ainda mais demiurgo como na inaugural Carrero novo. Sai da letra dessa composição de Jacinto Silva a expressão que intitula o disco explicada pelo próprio autor. ''Onde se bate o mancá é quando estão fabricando o carro de boi. O mancá é aquela peça que segura o eixo'', ensina.

   Esse tipo de informação de um Nordeste canavieiro quase medieval salta das imagens de Amor de capinheiro (''todo cortador de cana tem uma foice na mão/ de madrugada quando a usina apita/ vem o feitor chamando a rapaziada'') encerrado num rap/repente de B.Negão do grupo carioca Planet Hemp.

   Jacinto prefacia Coco na Paraíba lembrando que inicialmente o estilo resumia-se a um cantador acompanhado pelo ritmo de um ganzá. Do refrão folclórico de Chora bananeira (utilizado com outra letra por Edu Lobo e Capinam em Cirandeiro, gravado no começo dos 60) ao curioso invento poético de Gírias do Norte (''ele me convidariou/ pra quadrilha eu marcariá'') a obra desse criador obscuro (ao Sudeste) exibe seu lastro fincado na terra, mas aberto a improvisos como na tradição oral nordestina. Recriado por um Silvério inspirado para dosar a eletrônica da mistura, o tributo a Jacinto atesta que a cultura da região dos engenhos não dá caldo só de cana. (Jornal do Brasil)

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