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13/06/2001

José Lins do Rego, contador de histórias do Brasil

Nascido em 3 de junho de 1901, o escritor paraibano, autor de Menino de Engenho e Fogo Morto, foi um dos mais festejados representantes do Movimento Regionalista nordestino na Literatura Brasileira após o surgimento do Modernismo em 1922, com o qual apresentava pontos de convergência e de afastamento

Por Amador Ribeiro Neto

   O romance regionalista da década de 30 assumiu o compromisso de dar continuidade ao painel que os modernistas de 22 vinham pintando do Brasil. Ao invés de um país exótico e triunfalista, que se propagara com o Romantismo, agora chegava a vez de difundir-se um Brasil mais verdadeiro, perdido entre as inúmeras desigualdades sociais e governos elitistas. Um Brasil que já esboçava sua cara com o Realismo.

   Mas enquanto o Realismo centrava fogo no determinismo social ou biológico, e enquanto os modernistas de 22 usavam e abusavam dos recursos da linguagem literária, tirando o máximo proveito do modo de dizer as coisas, os romancistas de 30 apegavam-se à realidade social, produzindo uma narrativa direta, desprovida das grandes conquistas em prosa, como as de Oswald de Andrade e de Mário de Andrade.

   A partir de agora o mais importante é pintar o país com as cores dos fatos concretos: fome, miséria, luta de classes, autoritarismo rural e urbano confundidos, arcaísmos e modernidades entrelaçados.

   Mário e Oswald já haviam lançado, respectivamente, Macunaíma e Memórias Sentimentais de João Miramar. Os dois romances explodiam a visão idealista e simplificadora do país, numa linguagem de alta voltagem criativa.

   Caldeirão de culturas

   No Nordeste, e em especial, na Paraíba, José Américo de Almeida lançara, em 1928, A Bagaceira, marcando significativamente a linguagem regionalista de nossa prosa. Para alguns críticos, como Cavalcanti Proença, a reduzida capacidade comercial do porto marítimo de Cabedelo (cidade que hoje faz parte da grande João Pessoa) permitiu que uma linguagem muito característica se desenvolvesse e permanecesse circunscrita à Paraíba.

   José Américo e José Lins do Rego souberam tirar proveito deste isolamento geográfico e econômico. O resultado está na prosa coloquial extremamente rica em expressões e construções lingüísticas. Isto levou alguns afobados a declararem guerra ao Modernismo paulista e a elegerem o Grupo Regionalista do Recife como a central dos novos parâmetros literários.

   Sem dúvida, a importância de Gilberto Freyre, cabeça do Movimento Regionalista do Recife, foi significativa. Mas é necessário perceber que o regionalismo não estava excluído da plataforma modernista de 22. Basta ver a atuação de Raul Bopp. Ou a deglutição antropofágica de Oswald. Ou o caldeirão de culturas e linguagens de Mário de Andrade. O fato é que, neste contexto de renovação literária do país, pós 22 e na década de 30, surge a obra de José Lins do Rego.

   Paraibano de Pilar, uma cidadezinha até hoje pouco expressiva, mesmo dentro do próprio Estado, ele nasceu em 3 de junho de 1901, e ambientou vários de seus romances na região. Órfão de mãe, foi criado no engenho do avô materno.

   Fez os estudos iniciais em outra cidade do interior do estado - Itabaiana, onde concluiu os estudos médios. A universidade cursou no Recife, formando-se em Direito. Nesta época conhece e torna-se amigo de Gilberto Freyre, Olívio Montenegro e José Américo de Almeida. Juntos formaram o Grupo Modernista do Recife, que mantinha pontos de união e de discordância com o grupo modernista paulista. O apego ao texto enquanto retrato do país, em detrimento dos experimentalismos de linguagem dos modernistas de 22, era pomo de discórdia. Por isto mesmo a geração de 30 evitou tanto "trapacear" com a normatividade da língua e da linguagem.

   Do Recife José Lins muda-se para Minas e de lá, para Alagoas, sempre exercendo a profissão universitária. Em Alagoas trava amizade com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Foi a partir de conversas e experiências trocadas com estes escritores, mais a influência determinante que sobre ele tinha exercido Gilberto Freyre, que o leva a escrever sobre a vida nordestina. Da permanência em Alagoas nascem seus três primeiros romances: Menino de Engenho, Doidinho e Bangüê, bem recebidos pela crítica e pelo público.

   De Alagoas segue para o Rio de Janeiro onde, em 1955, seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em 1957, falece no Rio, consagrado como um dos escritores mais lidos e amados do país. Sua linguagem clara, desprovida de arrojos e torneios estilísticos, calcada na vida sofrida e singular de um certo tipo de nordestino, entusiasmou e continua entusiasmando leitores brasileiros e estrangeiros. José Lins era o feliz proprietário de um talento que perpassa o tempo e segue recebendo o reconhecimento tanto da crítica especializada como do público leitor.

   José Lins publicou romances, memórias, literatura infantil, crônicas, conferências e relatos de viagem. Seus romances são didaticamente classificados em ciclos, de acordo com os temas abordados: ciclo da cana de açúcar; ciclo do cangaço, misticismo e seca; ciclo que acumula características dos dois ciclos anteriores.

   Esta divisão, já tradicional e acadêmica, reflete a tentativa de apreender-se a produção deste escritor irrequieto e minucioso. Um atento e autêntico retratista do país. Mesmo em seu livro de memórias, é o lado social do Brasil que se destaca por entre anotações subjetivas. O indivíduo, em sua obra, é parte de um todo - é o país, e, por extensão, o mundo.

   Sem exageros e sem presunções, o autor, a partir de sua aldeia, traça um painel da condição humana, tal como os melhores escritores o fazem, segundo observa Antonio Candido. Para além do paisagismo, da geografia, das características culturais regionalistas, a ênfase de José Lins recai sobre os caminhos e os descaminhos do homem.

   Pertencem ao ciclo da cana-de-açúcar os três romances iniciais, a obra-prima Fogo Morto e aquela que, segundo o próprio autor, fecha o ciclo: Usina. Ao ciclo do cangaço, misticismo e seca, pertencem Pedra Bonita e Cangaceiros. Finalmente, ao ciclo que associa os anteriores, Água-mãe e Eurídice.

   Os romances mais lidos e comentados fazem parte do ciclo cana-de-açúcar e são referendados pelo próprio autor como obras pertencentes a um plano de criação previamente definido. Ele esclarece: "Com Usina termina a série de romances que chamei um tanto enfaticamente de 'Ciclo da Cana-de-açúcar'. A história desses livros é bem simples - comecei querendo apenas escrever umas memórias. Sucede porém que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior. Vieram, após Menino de Engenho, Doidinho e Bangüê."

Painel de lembranças

   Menino do Engenho (1932), romance de estréia, traça o painel das lembranças de um garoto às voltas com o mundo do engenho de seu avô José Paulino. Este garoto cresce no mundo como "moleque da bagaceira", envolvendo-se com raparigas e contraindo as mazelas de uma criança rica, órfã e criada pelos avós. Até o momento em que o avô patriarcal decide enviá-lo ao colégio interno, a fim de adquirir bons modos e perder os vícios que adquirira. A vida deste personagem no colégio interno será contada no livro Doidinho, publicado no ano seguinte. Com Bangüê (1934), o garoto transforma-se num adulto. Advogado, volta ao engenho e busca viver ali. Mas bate de frente com o comportamento patriarcal do avô. Quando este falece, o jovem advogado desfaz-se do engenho como de um pesadelo, vendendo-o ao tio. Por um modo ou outro a família continua ligada à cana-de-açúcar.

   O engenho então é transformado em usina pelo novo proprietário. Sua história de lutas contra os interesses estrangeiros e os mecanismos excludentes do capitalismo moderno é narrada em Usina (1936). O engenho, com o mesmo nome com que aparece no primeiro livro de José Lins, Engenho Santa Rosa, ressurge em Fogo Morto, seu mais acabado e completo livro. As forças sociais do capital, do mercado e da política nacional ocupam lugar determinante nesta obra.

   Os lances autobiográficos, facilmente identificáveis nos livros anteriores, cedem lugar a uma análise mais apurada da realidade nacional. O Nordeste é tomado como parte essencial de um todo que espelha o país: modernização dos meios e modos de produção com a conseqüente espoliação dos empregados. A facilidade narrativa de expressar-se com leveza, prendendo o leitor da primeira à última página de cada romance, permanece. Mas agora vem depurada por uma montagem estrutural da narrativa e uma visão sócio-político-histórica do país bem menos subjetiva.

   Fogo Morto firma-se, pois, como um marco no romance brasileiro. Contando a história do Engenho de Santa Fé, a narrativa centra-se no início do século 20, no interior da Paraíba. O título deriva da expressão "engenho de fogo morto", aplicada aos engenhos que, pressionados por outros mais poderosos, substituem a produção do açúcar pelo abastecimento de matéria-prima, a cana-de-açúcar, destas usinas poderosas. Fogo Morto é um romance triádico. Cada parte leva o nome de um dos personagens centrais do livro. Todavia, e aí reside a maestria de José Lins, as três partes se entrelaçam continuamente, num diálogo que dinamiza a narração, empolgando o leitor.

   Parte 1: "O Mestre José Amaro" é a história de um seleiro pobre, orgulhoso da profissão que herdara do pai, que luta contra os senhores de engenho, abate-se com a loucura da filha e é expulso das terras do coronel Lula, onde vive. Ao final suicida-se, depois de abandonado pela própria mulher. Parte 2: "O engenho de seu Lula" revela o isolamento a que chega o coronel, autoritário, epiléptico, sádico ao tratar escravos e empregados. Lula, o coronel, termina isolado e decadente. Parte 3: "O capitão Vitorino" é conhecido como o Papa-Rabo, devido ao seu espírito donjuanesco. Quixotesco, vive no mundo da lua e defende grandes e pequenos, pobres e oprimidos. Chega ao final do romance com planos de interferir politicamente na região.

   Em Fogo Morto encontram-se os componentes mais importantes da narrativa de José Lins: os personagens são extensão de toda a realidade nordestina (nacional) e não apenas açucareira. Buscam a grandeza das relações interpessoais, profissionais e sócio-culturais - ou, nas palavras de Antonio Candido, a luta pelo "reencontro da justa condição humana".

   José Lins do Rego coloca em seus livros a oralidade, a persuasão, a crítica e as utopias que se encontram nas cantigas de cordel, no repente, no desafio dos poetas e cantores populares. Sem preocupar-se com a esmerada elaboração da linguagem literária, e sem cair na adiposidade verbal de outros companheiros de geração, consagra-se, hoje, no centenário de seu nascimento, como o grande contador de histórias do Brasil.

Amador Ribeiro Neto é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor de Teoria da Literatua e Literatura Comparada na UFPB

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