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19/06/2001 Augusto dos Anjos, o poeta da vida REYNALDO JARDIM A 43ª edição de "Eu e Outras Poesias", de Augusto dos Anjos, revista e ampliada, é de um primor gráfico rigoroso e belo. É a melhor de quantas se editarem, trazendo textos de Antonio Houaiss, Orris Soares, Otto Maria Carpeaux, Francisco Assis Barbosa. Faltou o texto de Ferreira Gullar, que organizou uma das edições. Há ainda uma cronologia histórica e reprodução de
capas anteriores. Só não encontro o nome da pessoa responsável pela organização da
obra. Chamar Augusto dos Anjos de "poeta da
morte" tem sido uma blasfêmia resultante de leitores pouco atentos ao sentido vital
que informa a poemática desse autor singular, que não deixou herdeiros na história de
nossa literatura. Solitário porque não encontramos pares em seu passado, no curso de sua vida e em sua posteridade. Augusto dos Anjos começa e só não acaba em Augusto do Anjos porque, apesar da complexidade de conceitos e linguagem nada populares, conquistou uma platéia que abarca gente simples de parcas letras até eruditos de alta linhagem. O curioso é que o leitor sem maiores luzes se deleita com o vocabulário encantatório cientificista, objeto de rejeição dos mais letrados. A tragicidade de Augusto dos Anjos não é mórbida, ele não se compraz com a degradação, apenas vai buscar no âmago da matéria a permanência de vida. No corpo em decomposição, encontra todo um universo
em transmutação permanente. A vida se multiplica e prolifera em outras formas de
fantástica vitalidade. O "eu" que intitula sua obra não é autobiográfico, nem ególatra. É um eu que extrapola o limite epidérmico e abarca, de maneira vertical e cósmica, todos os egos da humanidade, estabelecendo uma comunhão espiritual com quem o lê. Se não é o único, será, certamente, fator decisivo de um sucesso que o tempo não deseja esgotar. Os conceitos existencialistas não são suficientes para enquadrar a obra em questão em seus limites. Essência e existência aparecem sem precedência de um fenômeno sobre o outro. Existiram desde sempre em uma sincronicidade integrada, não dicotômica, na cadeia evolutiva das espécies, humanas ou não. É o que se infere da leitura dos poemas. Seria um elucidativo serviço se a próxima edição contivesse um glossário dos termos científicos que dificilmente o leitor conhece o significado. Se o risco é desvendar a palavra de sua sonoridade encantatória, o benefício seria o valor didático enriquecendo nosso entendimento, pois deveria mostrar o significado do termo dentro de contexto poemático. (Folha de S. Paulo) Reynaldo Jardim é poeta, jornalista e fundador do jornal "Sol" nos anos 60 Saiba mais sobre outros escritores nordestinos na seção LITERATURA |
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