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19/06/2001

Segredos de uma voz e um violão

   O João Gilberto personagem é muito interessante, misterioso também, mas perde longe para o João Gilberto músico. A vida reclusa, a misantropia, os estranhos passeios noturnos, o hábito de dirigir de olhos fechados, a psicose maníaco-depressiva, tudo isso são pontos de partida para os incríveis episódios (reais ou imaginados) que ele tem vivido nas últimas quatro décadas. Mas nenhum deles significa muito perto do que diz respeito ao violonista e ao cantor. Não para quem só está interessado em música.

   Há quem pergunte se suas esquisitices não seriam pensadas, estudadas, espécie de papel vivido em tempo integral por um insólito ator. Não haveria traços de autopromoção por trás de tudo isso? É pouco provável. E há quem pergunte se sua arte também não seria estudada, o cantor e o violonista (e principalmente os dois integrados, formando um som só, harmonizados e indivisíveis) sendo o resultado de um longo e obsessivo processo de elaboração. Será? É aí que começa o mistério.

   Nenhum de seus biógrafos — e já são três — conseguiu explicar até hoje como o cantor criou seu estilo. Ou como o violonista inventou a batida. Consta que um professor da Universidade Católica de Música da Bahia dedicou 27 anos de seus estudos à mão direita do violonista. Já conseguiu entendê-la, mas o como da história ainda não foi decifrado. Isto é, nem o professor, nem ninguém descobriu até hoje em que momento — e por quê — o violonista dos Garotos da Lua trocou as tais baixarias pelas síncopes que deram na bossa nova. E o cantor? As possíveis influências de Chet Baker e Mário Reis não bastam para explicar a química que transformou o cantor do grupo vocal no intimista João Gilberto. Se no crooner de sambas dos anos 50 (“Amar é bom”, “Quando você recordar”, “Anjo cruel” e “Sem ela”) é nítida a admiração por Orlando Silva, não há nele o menor sinal do cantor que vai entrar em cena, quatro anos depois, com “Chega de saudade”. Entre um e outro deu-se espantosa transformação. A admiração por Orlando Silva só se faz notar no novo João Gilberto quando ele regrava “Aos pés da cruz”, “A primeira vez” e outros sambas do repertório do Cantor das Multidões. Em nada mais o intérprete de “Bim bom” se parece com vozes anteriores. Nem mesmo com as de Mário, Chet ou outros intimistas.

   O primeiro biógrafo de João Gilberto (na verdade, o Ruy Castro que faz dele o principal personagem do livro “Chega de saudade — A história e as histórias da bossa nova”) conta que, certo dia, João Gilberto sumiu. Corria o ano de 1955. Sem dinheiro, sem trabalho, sem amigos (afastara quase todos), deixou de lado a onda dos grupos vocais e se mandou. Não para a Juazeiro natal, de onde a família acabara de lhe cortar a mesada, mas para Porto Alegre. O gaúcho Luís Telles, ex-integrante do Quintandinha Serenaders, preocupado com as “visões alucinógenas” do cantor, e com o fato de ele estar à beira de um colapso nervoso, levou-o para o Sul. Lá, segundo Ruy Castro, João Gilberto começou a viver “a descida solitária aos seus próprios infernos”, durante a qual, sabe-se lá por quais mecanismos, emergiria o artista que todos conhecemos. O cantor e o violonista. Ao mesmo tempo que cumpria um roteiro meio sem lógica (Porto Alegre, a mineira Diamantina, Salvador e até uma volta a Juazeiro), sempre a propósito de descansar a cabeça e de poupar os nervos, o artista se reinventava.

   O violonista, que mereceu o esclarecedor livro “Bim bom”, de Walter Garcia, revelou-se para o público antes do cantor. Se toda as explicações técnicas sobre a batida são dadas pelo autor, músico ele próprio, foi e ainda é impossível chegar a como e quando João decidiu simplificar — transgredindo-o no melhor sentido — o ritmo do samba. Não como uma substituição, pois as baixarias jamais deixariam de ser apreciadas, mas como alternativa. Isso, mais que tudo, é a bossa nova.

   Ruy Castro defende que as síncopes do piano de Johnny Alf e do acordeão de João Donato deram o clique que levou João Gilberto a transpor aquela alteração para o violão. Hipótese difícil de aceitar por quem ouve o piano de Alf e o acordeão de Donato em discos da época. Hal Mooney? Page Cavanaugh? Nada a ver.

   O fato é que, ao menos num estúdio de gravação, a batida diferente surgiu de repente, de surpresa. Em depoimento de 1993 sobre o histórico LP “Canção do amor demais” — Elizeth Cardoso cantando músicas suas e de Vinicius de Moraes — Jobim lembrou que, tendo escritos todos os arranjos, incluiu neles partes de violão. João Gilberto, vivendo então dos cachês de boate e de disco, seria o violonista. Jobim já não se lembrava se de todas as faixas ou se só da metade. Não sabendo ler música, João Gilberto se guiaria pelas cifras indicadas no arranjo. Nas canções mais lentas, o que ouvimos no LP é um violão bem-comportado, correto, sem ousadias. Já nos dois sambas ligeiros, “Chega de saudade” e “Outra vez”, os acordes são os das cifras, mas o ritmo... Bem, o ritmo marca o nascimento da bossa nova, da batida transgressora, do som de toda uma geração.

   O cantor, Jobim já conhecia. Já se impressionara com as inusitadas (pela aparente simplicidade) “Bim bom” e “Hô-ba-lá-lá”, que João lhe cantara antes do LP “Canção do amor demais”. Já se convencera de que o artista que reencontrava agora era outro, diferente inclusive do desesperado jovem que fugira para Porto Alegre.

   O resto, como se costuma dizer, é História. João Gilberto gravou seu próprio LP, em cuja contracapa Jobim o apresenta ao mundo. Aquela brilhante geração de compositores e intérpretes — toda ela, como disse Tom, influenciada por João Gilberto — ganhou o nome de Bossa Nova (antiga expressão do linguajar carioca, assumida então na letra de “Desafinado”), autodenominou-se movimento , manteve por algum tempo uma briga com os tradicionalistas que a combatiam (briga na qual João Gilberto jamais entrou), partiu para viver seu sonho americano, foi aplaudida no Carnegie Hall, encantou músicos de jazz, entrou para o repertório de Frank Sinatra, correu o mundo, venceu.

   Tudo se deveu, evidentemente, ao talento de cada um. Mas a voz e o violão de João Gilberto mostraram o caminho. Não teria acontecido a geração da Bossa Nova propriamente dita, nem a que veio depois, igualmente brilhante. Sobre esta, é só conferir os depoimentos de Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Marcos Valle e tantos outros sucessores, todos atingidos nos ouvidos e no coração pelo “Chega de saudade”, para saber o efeito que causou sobre ele, alguns até só se tornando compositores por causa do disco de 1958.

   Assim, João Gilberto chega aos 70 sendo, não para uma, mas para duas ou três gerações de músicos, aquele mesmo baiano bossa nova de 27 anos que mestre Jobim, sabiamente, reverenciou. (João Máximo, O Globo)

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