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21/06/2001
Fagner entre tapas e beijos
Cantor critica
o forró e seus ''grupos vagabundos'', e defende romantismo e pirataria
SILVIO
ESSINGER
Raimundo
Fagner acaba de lançar Fagner. Um disco em que volta a atacar, sem o menor receio,
na seara romântica que tanto sucesso já lhe rendeu. Nem poderia ser diferente, diz o
cantor, diante da situação do mercado, que, de um modismo dançante ao outro, acabou por
desencavar o velho forró. ''O cearense não tem tradição de forró. O que existe lá é
um comerciante vivo que criou uns grupos vagabundos, do tipo do Mastruz com Leite. A Bahia
é axé puro, Recife tem o frevo e o Ceará é mais romântico, nosso ritmo lá é mais
cadenciado'', explica. Curiosamente, a primeira música de trabalho do disco, Jardim
dos animais, parceria com Fausto Nilo, é um baião. ''Que as pessoas confundem com
forró'', corrige.
Em seguida, indica o cantor, deverão chegar ao rádio as
baladas do disco, muitas de autoria de compositores fora da mídia, que ele achou por
intermédio de uma nota de jornal. Vieram nomes como São Beto (Muito amor) e
Domervil (Certeza). De certa forma, foi o Festival da Música Brasileira do
Fagner. ''Porque aquele Festival da Globo foi um desastre, não teve nada que se
aproveitasse ali. Não acredito que a produção tenha escutado 60 mil músicas, acho que
não houve seleção'', ataca.
Mercadão - Fagner não se mostra lá muito
preocupado com as chances que seu novo disco tem para emplacar no mercadão. Ele se fia
mesmo é nos shows, recheado de sucessos, com o qual tem corrido o país. ''A música de
modismo é a música para a pirataria'', acredita. Para ele, o disco pirata, contra o qual
as grandes gravadoras têm voltado seus esforços, acaba mais é servindo para ''completar
a divulgação do artista''. ''O pirata para mim é um mal necessário, já que quem é
fã sempre compra o disco original. A culpa não é minha, a indústria é que tem que
baixar o preço para poder competir.''
Chateado com o relançamento de seus discos dentro da
coleção Geração Nordeste (''depois de ter feito um disco para o mundo, o Traducirse,
vêm e me põem o chapéu de couro na cabeça!''), Fagner conta que andou se empenhando em
reunir sua velha turma do Ceará, Ednardo e Belchior, para um disco nos moldes do Grande
Encontro. ''Mas a gente não se entende'', conta. No momento, ele se preocupa mesmo é
com outros conterrâneos: os políticos. Está dividido na corrida presidencial entre o
governador Tasso Jereissati (do seu PSDB) e Ciro Gomes (do PPS). ''O Tasso é um cara
simplesmente fantástico, mas como ele é amigo do Fernando Henrique, que puxa todo mundo
para baixo, acho que não vai ter futuro. FHC rifou o país para fazer a reeleição. ''
(Jornal do Brasil)
| CD faz síntese da carreira TÁRIK
DE SOUZA
Desembarcado
no Rio no começo dos 70 num grupo musical heterogêneo denominado Pessoal do Ceará,
Raimundo Fagner impôs-se pelo estilo vocal áspero e o repertório que juntava baladas
cortantes atravessadas por guitarras, repaginações elétricas dos baiões e xotes
nordestinos e um viés ibérico andaluz coerente com sua origem árabe. Mais adiante, ele
surfou na onda brega que desguiou de seu rumo a MPB dos anos 80 incorporando outro traço
a sua personalidade artística. Todas essas tendências estão coletadas no novo disco do
cantor, Fagner (Sony), o vigésimo sexto de uma carreira de 28 anos, o primeiro
inédito nos últimos oito, incluído no hiato um inevitável ao vivo que arrebanhou meio
milhão de compradores.
O CD reativa seu lado compositor. Ele assina sete das 13
faixas com velhos parceiros como Abel Silva e Fausto Nilo e o mais recente Zeca Baleiro,
com quem já fez seis músicas, três delas alistadas no repertório. Até o baú foi
revirado para que Fagner repescasse uma antiga associação com o inesgotável Cazuza (Olhar
matreiro) e um poema esquecido de Capinam (A tua boca). Para completar o
cardápio, encomendou músicas através da imprensa e das 700 fitas que recebeu selecionou
apenas uma composição do carioca São Beto (Muito amor) e outra do pernambucano
Domervil (Certeza). Nada que abale a linha evolutiva ou aponte novos rumos no
impasse entre o mercado e a arte.
Estranhamentos - Entre os dois, Fagner há tempos
optou pelo primeiro, mas tem se (re)aproximado do segundo através de lances
estratégicos. Neste disco, o peso arrastado dos baladões, como os mencionados Muito
amor e Certeza, vem adocicado por leves floreios de acordeom. A batida
escadaria de acordes que leva ao clímax em O vinho ou Sem teto tem o
contraponto de sax ou guitarra. Nesta última, uma das regravações do CD ao lado de
outra balada, Feliz, de Gonzaguinha, curiosos estranhamentos agitam a letra de
Sérgio Natureza (''tu tens o óleo diesel das carretas/ das pickups, motonetas/ passeando
em suas veias'').
Também saltam da lama romântica pegajosa inesperadas
imagens de Cazuza em Olhar matreiro (''olha a lua lá no céu/ magrinha, turca'') e
Zeca Baleiro em Tempestade (''eu nem sabia/ desse cinema mudo nos seus olhos''). Da
parceria com Zeca sobre o poema de Capinam rola a melhor faixa do disco, o xote A tua
boca (''se reclama ser tão pouca/ a outra boca que esvazia/ quando beija ou
abandona''). As faixas com sotaque da música nordestina como os outros xotes bem
azeitados Eu e tu (Gereba/ Tuzé de Abreu) e Outra era (com Baleiro), mais o
estilizado baião Jardim dos animais (Fagner/ Fausto Nilo), são as que fazem o
disco decolar da mediania melódica que favorece os arroubos do cantor, cultor dos
vibratos.
Entram também no recheio uma piscadela ao fado mouro (Cor
invisível, simétrica parceria com Abel Silva) e outra à latinidade edulcorada de
Antonio Caban, El Topo, compositor de San Domingos, o mesmo do megasucesso Borbulhas
de amor, que volta em Puedo. Com uma qualidade poética superior à musical, o
disco procura contentar todos os segmentos do público conquistado por Fagner. Sem ir
muito além das favas contadas e recantadas. (Jornal do Brasil)
Visite os sites de FAGNER e outros artistas nordestinos na
seção MÚSICA, subseção ELES |
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