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22/06/2001 Cine Ceará - Realismo fantástico
Fatos históricos sob o olhar mítico do povo do Cariri, sertão sul do Ceará. Juazeiro do Norte - a Nova Jerusalém, de Rosemberg Cariry, abre hoje, às 20h, no São Luiz Centro, o XI Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo, que este ano engaveta a Mostra Internacional de Novos Talentos, aposta na competição entre longas nacionais e incrementa sua programação com a mostra especial do cinema cubano e uma homenagem a Zé do Caixão. É tudo verdade. Ou mentira. Quer dizer, nenhum fato histórico parece tão interessante quanto a versão que se constrói dele ao longo dos anos. E se a releitura popular do que se convém chamar realidade vem justamente do sertão caririense, ao sul do Ceará, aí pode esperar histórias fantásticas, míticas, passionais, carregadas de sentido. Juazeiro do Norte, a Nova Jerusalém, filme de Rosemberg Cariry, bebe nessa fonte, evocando, entre outras lendas, relatos e imagens, uma tal lagoa encantada onde dormia a Serpente d'Água, cujo caudal era represado pela Pedra das Batateiras, que, ao rolar, transformaria o sertão em mar. Por fim, somente quem submergisse das águas, os `escolhidos', conheceria a fartura daquela Terra Prometida abençoada por Padre Cícero.O Padim se valeu do mito, assim como Antônio Conselheiro. O povo passou adiante, se fiou em outras tantas profecias e tratou de construir sua própria História: passado, presente, futuro. Tendo Padre Cícero como referência, Rosemberg costurou o discurso coletivo, azeitado por gente `iluminada': Cego Oliveira, Ciça do Barro Cru, Aves de Jesus, Irmãos Anicete, Manoel Caboclo, Bacamarteiros de Caruaru, entre outros mestres religiosos, artistas, penitentes, romeiros e artesãos da região. Não só. Parte do épico também é cantado em métrica e rima por Oliveira de Panelas, Geraldo Amâncio e José Maria. De `oficial', só mesmo o depoimento de Luís Carlos Prestes, que passou pelo Cariri em suas cruzadas. O documentário marca a abertura do XI Cine Ceará, hoje, no cine São Luiz Centro, a partir de 20 horas. Precioso calvário. Juazeiro, a Nova Jerusalém levou doze anos para ser concluído. ``Esse filme é parte de um projeto que compreende quatro longas sobre a religiosidade do Nordeste. Lancei O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto em 1987 e dois anos depois comecei a captar as primeiras imagens para esse trabalho. Gravei primeiro em 16mm, depois em 35. Daí houve uma mudança na política audiovisual do Estado e não consegui verba para dar continuidade da forma que queria. Então resolvi fazer por conta própria, com o que tinha em mãos: saiu parte com hi-8, parte com Betacam, mais um pedaço em vídeo digital e assim foi indo. Ao final, ganhei um prêmio do Ministério da Cultura e formatei-o para televisão. Agora, o material foi telecinado com verba da Secretaria da Cultura do Estado. Mais de 50 horas de gravação se transformou em 98 minutos de filme'', detalhou o diretor, orçando seu documentário em US$ 100 mil. Empolgação de estreante. ``Tenho muito amor por esse trabalho, é como se fosse o primeiro. Além de reafirmar uma ética e uma estética, o filme é um encontro de mundos, porque o Cariri é um ensaio de civilização brasileira. A versão popular daquele povo diante de fatos históricos bate de frente com o pensamento positivista da nossa elite. Portanto, não reclamo do tempo que levei para fazê-lo. Ao contrário. Acho que foi fundamental para que eu compreendesse melhor a sabedoria do povo, suas sutilezas, seu discurso diferenciado. O sentimento que move esse filme pode ser comparado à imagem de um casebre miserável rodeado por lama, mas que tem na janela uma flor plantada dentro daquelas latinhas enferrujadas. Esse trabalho é a minha flor'', definiu. Todos os dias do Festival O Cine Ceará - que tem início hoje e prossegue até o dia 28 - chega a sua 11° edição com uma novidade e um desafio. A novidade: substituir a Mostra Internacional de Novos Talentos, que nos anos anteriores costumava ser a vedete do evento ao apresentar diretores estreantes, por uma mostra competitiva de longas-metragens nacionais (ver sinopses na página 8). O desafio: dar conta de uma vasta programação que inclui uma mostra retrospectiva do cinema cubano, uma outra do cearense e uma terceira em homenagem a José Mojica Marins, o ``maldito'' Zé do Caixão; lançamento de livros; seminários; sessões especiais para crianças e adolescentes; e um circuito paralelo de exibição. Em recente entrevista ao Vida & Arte, o organizador oficial do Cine Ceará, Wolney Oliveira, disse que o Festival está priorizando agora os lançamentos. Tanto assim que, dos oito longas que constam na programação, cinco são inéditos. Além de Juazeiro, a Nova Jerusalém, que abre a mostra logo mais à noite, três filmes concorrentes serão exibidos pela primeira vez: Onde os Poetas Morrem Primeiro, Janela da Alma e Fim do Sem Fim. O longa-metragem que encerra o Festival na quinta-feira, 28, também faz sua estréia nacional: o esperado Memórias Póstumas, de André Klotzel. Quanto à mostra competitiva de curta e média-metragem, que tem início amanhã à noite, no Cine São Luiz, foram selecionados 31 trabalhos de um total de 270 inscritos entre filmes e vídeos. Oito deles, cearenses. Na paralela, um detalhe: o Festival irá apresentar filmes e vídeos inscritos, inclusive não-selecionados, em praça pública em bairros periféricos. Além disso, o presídio feminino Auri Moura Costa irá assistir à Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, antecedido pelo curta O Prisioneiro, de Eric Laurence; e o Lar Torres de Melo, a Milagre em Juazeiro, de Wolney Oliveira. Nas mostras retrospectivas, um olhar sobre a cinematografia cubana, sempre às 16 horas, no Espaço Unibanco; e um outro sobre o cinema cearense, diariamente, no mesmo horário, no Cine São Luiz, oportunidade de rever títulos como Tigipió, de Pedro Jorge de Castro, e Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry. O grande homenageado de evento, José Mojica Marins, chega para uma sessão de gala, à meia-noite do sábado, quando será lançado o livro Maldito, de André Barcisnky e Ivan Finotti. Seus filmes se estendem por toda a semana com a mostra Cinema Maldito. Durante o Festival, também será lançado o livro Orson Welles no Ceará, do cearense Firmino Holanda. O XI Cine Ceará se completa com o seminário ``Memória e Cinema'' e ``Dolby Som'' e com a continuação do Projeto ``O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece'', para crianças e adolescentes, que este ano terá a exibição de Tainá, uma Aventura na Amazônia, de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch. (O Povo)
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