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22/06/2001

Para xaxar com Gilberto Gil

Gilberto Gil


Luciano Almeida Filho

   Foi por esta época, ano passado, que Gilberto Gil passou por Fortaleza para mostrar o show As Canções de Eu, Tu, Eles. Com o repertório baseado nos xotes e baiões da trilha do filme de Andrucha Waddington, Gil botou todo mundo para dançar e emocionou quem foi até a Biruta para conferi-lo desfiando composições suas, de Luiz Gonzaga e outros autores nordestinos. Desde então, o público cearense ficou esperando na janela uma nova oportunidade para ver outra performance de Gil e sua banda.

   Quem viu, adorou e ficou com vontade de ver de novo. Quem não viu e soube do arraso, ficou querendo conferir a performance de Gil ao lado de uma banda afiadíssima. Agora chegou a oportunidade. Com o sucesso da trilha e do show, Gil lançou CD gravado ao vivo, São João Vivo, e botou o pé (calçado em chinelas de rabicho) na estrada do forró mais uma vez neste mês de junho. O show São João Vivo será a principal atração de amanhã no Arraiá do Marina Park, que começa às 22 horas.

A reportagem do Vida & Arte foi encontrar Gilberto Gil num hotel em Juazeiro do Norte, semana passada, e conversou com ele por telefone. Novamente Gil estava na companhia do diretor Andrucha Waddington. Juntos estão fazendo um documentário sobre festas juninas com locações nas cidades nordestinas de maior tradição. Na ocasião da entrevista, o baiano e a equipe de Andrucha gravavam na Festa de Santo Antônio, de Barbalha. O projeto deve ser lançado em cinema, e posteriormente em vídeo e DVD. Confira a entrevista:


Vida & Arte - Como surgiu a idéia do documentário?
Gilberto Gil - A idéia é do próprio Andrucha que está dirigindo. Ele teve essa idéia quando estava... não me lembro agora... foi numa cidade do Nordeste. Mas ele teve a idéia e me propôs. Como eu ia fazer a excursão agora de São João, ele me propôs fazer uma sequência de festas pelo Brasil e aproveitar toda essa animação do período junino.

V&A - Você escreveu a trilha do Eu, Tu, Eles como uma coisa pontual na sua carreira. Mas ela acabou ganhando vida própria e gerando várias outras coisas. O sucesso de ``Esperando na Janela'' inclusive puxou esta onda de resgate do forró mais autêntico, chamado `forró universitário'. Como você está vendo este fenômeno?
Gil - O disco proporcionava, com a minha figura, levar a cultura do Nordeste para todo o Brasil, a coisa do Gonzaga, junto com a coisa dos jovens grupos se manifestando fortemente no Rio e São Paulo. Essa nova onda de interesse com o forró, a contribuição da gente foi alguma...

V&A - Quais as suas melhores lembranças dos shows no ano passado?
Gil - Foram seis ou sete shows. Este ano são 12. A principal impressão que ficou foi a saudade que eu senti da festa no interior que, na minha infância, era uma coisa muito forte. E já fazia 45 anos que eu não passava São João no interior. Então, voltar pra o interior no ano passado e viver esse período lá foi muito emocionante, marcante, muito tocante mesmo. Tanto que eu repeti este ano e, se eu puder, eu vou ficar fazendo sempre que puder daqui pra frente.

V&A - Houve um sucesso muito grande do seu disco de forró. Isso, de certa forma, atrapalhou o processo do seu disco com o Milton Nascimento? A receptividade? Como é que foi?
Gil - Olhe, eu não sei avaliar isso direito não. Talvez tenha atrapalhado um pouco porque dois discos assim... Na verdade, o disco com o Milton chegou quando o disco de forró já tinha deslanchado, já tinha feito a sua caminhada mais natural. Talvez tenha prejudicado, mas eu não sei avaliar muito não. Na verdade, do ponto de vista do que a gente tinha programado pra fazer, não atrapalhou muito não. Não houve interferências porque o lançamento do disco com o Milton acabou atrasando um pouco por conta dos problemas de Milton com a saúde, com a voz... Nós só lançamos o disco em outubro, novembro. E todos os compromissos que nós tínhamos que cumprir, nós cumprimos. Agora mesmo, depois do carnaval, eu cumpri uma agenda. Fiz vários shows com o Milton em cidades brasileiras e, agora, quando eu terminar a temporada do São João, eu vou pra Europa, cumprir a turnê por lá. Agora, por conta até do sucesso mais do que o esperado do Eu Tu Eles talvez tenha feito com que a vida do disco tenha se prolongado um pouco mais e aí tenha interferido no caminho do disco com o Milton. Não tenho certeza, mas acho que essa é uma suposição aceitável, não é?

V&A - Você ficou satisfeito com a receptividade do disco com o Milton ou acha que deixou a desejar?
Gil - Não, acho que está de acordo com a própria proposta do disco, o modo como foi feito, enfim. Foi um disco que sofreu um pouco com a coisa da continuidade, já que foi interrompido pelo menos umas duas ou três vezes. Quer dizer é um disco que tem coisas muito boas mas é um disco que, sei lá, podia ter rendido mais, podia ter conseguido concentrar melhor a questão do alvo, do público. Mas acabou sendo um disco nosso, com os nossos gostos, nossa forma de trabalhar. E, enfim, ele tá indo aí com 200 mil cópias. Não é nada extraordinário mas também é o que a gente... sabe, tá dentro da nossa realidade tanto minha quanto do Milton. É a nossa média. O disco não é nenhum fracasso. Foi bem, poderia ter sido melhor, mas foi bom. Também é uma coisa que eu não sei avaliar precisamente. Porque, a gente tem que fazer. A carga de interesse e esfoço foi dada, ainda está sendo dada e o público respondeu na medida do estímulo que o disco provocou nele. Já gravamos um show, mas não sei se vai virar disco. Ainda não sentamos para conversar sobre isso.

V&A - Você está nessa excursão pelo interior do Nordeste, de alguma forma essa coisa do racionamento de energia já está atingindo o show business ou, por enquanto, ainda não afetou?
Gil - Logo quando surgiu o alerta, o alarme do racionamento, uma série de festas e programações que estavam sendo feitas pelas cidades ameaçaram de ser canceladas. Mas, na verdade, a maioria delas acabou se mantendo. E o público tá indo. Do ponto de vista das produções em si os geradores estão resolvendo o problema. A energia está sendo garantida pelos geradores. Agora, questão de ocorrência de público, acho que só daqui a uns dois meses a gente vai poder sentir algum efeito.

V&A - E como é que você tá vendo a atual crise política que envolve o problema da crise no painel do senado, e agora essa do racionamento, coisas que afetam o dia-a-dia das pessoas e que tem uma grande irresponsabilidade dos nossos gestores?
Gil - Olha, as crises políticas são, como todas crises, cíclicas. De vez em quando elas vêm, desaparecem, voltam. Agora então é um momento próprio pra isso porque, além de tudo é um momento de sucessão presidencial depois de dois mandatos. Então, isso tudo é, a crise já é esperada, e até pré-fabricada. E junta-se a isso os problemas de ineficiência e incompetência das próprias administrações, no caso, falando mais especificamente, da administração federal, então, junta tudo isso e aí explode uma crise muito grande. Também tem os problemas das incertezas internacionais: crise na Argentina, nos índices de crescimento da economia americana. E hoje como toda a dinâmica da economia mundial é capenga, é globalizada, aí, tamos vivendo uma fase ruim. Mas pra mim a coisa principal é fim de governo mesmo. Aí todo mundo começa a dizer: ``tá na hora de sair, vamo acabar logo com esse''. E aí começam a aparecer as fraquezas, as dificuldades do governo, acho que a crise é um pouco mais por aí. Tem a coisa política em si, quer dizer, a crise da instituição política em si, com aquele problema do Senado, aquelas coisas todas, mas isso também é cíclico.

V&A - Como você está vendo a questão da pirataria no Brasil, já que o afeta especialmente como artista?
Gil - A pirataria é uma decorrência resultante do próprio desenvolvimento tecnológico, do crescimento populacional, do ainda pequeno mas, de qualquer maneira, significativo aumento do acesso das populações ao consumo de bens simbólicos - no caso, música - e, se o povo tem possibilidade de reprodução e produção de discos caseiros e isso cresceu muito com as novas tecnologias, então... Quer dizer, eles hoje produzem discos com quase a mesma, ou senão as mesmas possibilidades, das gravadoras oficiais e a preços muito menores. Então, vai ser difícil. Eu não sei quais as providências que vão ser tomadas. O combate vai sendo tentado a todo custo, mas eu tenho a sensação de que essa pirataria veio pra ficar.

V&A - E o que a gente nota muito é que ela mina principalmente a música de mercado e de consumo mais imediato e não afeta muito um artista como você...
Gil - Muito menos. Afeta muito menos. Ela tá ligada à volúpia do mercado. Quer dizer, quanto mais voluptuoso seja o mercado mais a pirataria se beneficia. E a pirataria tá ligada muito mais à coisa da moda, coisas desse tipo.

V&A - As pessoas não tão querendo mais pagar R$ 20,00 R$ 30,00 por um CD...
Gil - ...Pra jogar fora dentro de seis meses a um ano. É isso. A coisa é um pouco assim. (O Povo. Colaborou Ana Cláudia Peres)

São João Vivo - Show do cantor e compositor baiano Gilberto Gil. Atração do Arraiá do Marina Park. Participações: Forrozão Cortafogo e Língua de Cobra. Amanhã no Marina Park Hotel (avenida Presidente Castelo Branco, 400 - Moura Brasil), a partir das 22 horas. Preços: R$ 25,00 (individual, a partir de hoje) e R$ 280,00 (mesas de 4 lugares). Informações pelos tels.: 254.4666 e 268.1010.

Veja sites do GILBERTO GIL e outros na seção MÚSICA, subseção ELES

Veja site do filme EU, TU, ELES na seção CINEMA & TEATRO

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