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25/06/2001 O meu dedo aponta a lua, mas a lua não é o meu dedo Rosemberg Cariry Na semana do XI Cine Ceará, o cineasta Rosemberg Cariry escreve para o Vida & Arte sobre cinema regionalista e cinema universal e mostra porque, nos diversos espaços geográficos brasileiros, busca-se uma arte que resgate a nossa própria alma.Um cinema do mundo. Sempre que inicio o processo de produção de um filme no Ceará e anuncio que vou contar uma história que se passa no sertão os jornalistas locais questionam: por que mais um filme regional? Surpreso, eu me interrogo: onde está o regional, se eu trabalho uma história com arquétipos e mitos milenares comuns a muitos povos? O filme Corisco e Dadá, por exemplo, participou de dezenas de festivais internacionais em todo o mundo e nunca, em nenhum momento, ouvi ninguém falar que era um filme regional. Falava-se que era um filme de amor tendo como pano de fundo o banditismo social ou no máximo que era um filme brasileiro sobre as revoltas camponesas. Apenas no Ceará um filme cearense é tratado de regional. O que é isso, uma crise de identidade? Uma imposição, repetida até a náusea, por imposição dos intelectuais do Sudeste? Um complexo de inferioridade? O sertão é o mundo. Por acaso eu prefiro os sertões do Ceará, mas meu filmes podiam muito bem ser rodados no Saara africano, no oeste norte-americano ou nas estepes russas. Somos cidadãos do mundo, mas antes somos latino-americanos, brasileiros e cearenses. Ser cearense e brasileiro é ser herdeiro de algumas das principais vertentes culturais do mundo e trazer no corpo e na alma as dores, as alegrias e os sonhos de mil povos. ``Eu sou trezentos e cinqüenta'', já dizia Mário de Andrade. Ser cearense e brasileiro é ser universal. Nascidos do encontro e desencontro de mundos, inauguramos um novo processo civilizatório: antropofágico, mestiço, tropical, singular e plural. Não existe possibilidades de sermos regionais, estamos condenados a ser universais. Brasil: um cinema em crise. O cinema brasileiro, sem mercado, sem aparato tecnológico e sem o apoio da mídia, vive de ciclos. O último ciclo, chamado de "renascimento do cinema brasileiro'', foi novamente surpreendido pela crise (política, cultural e moral que ataca o país), pelo culto ao mercado, pelo conformismo, pela falta de rumos definidos, pela dependência das leis de incentivo etc. Muitos tentaram fazer um cinema segundo o modelo norte-americano e fracassaram, porque o produto híbrido não conseguiu sensibilizar nem o público interno e nem o externo. O resultado foi um cinema de simulacro. Chega um momento em que o ``dominador'' já não paga pela corrupção dos espíritos, pois faz com que os ``dominados'' acreditem na defesa da ``dominação'' como sendo a afirmação dos seus próprios valores. Quando isto acontece, estamos diante da perca total de identidade. Para nós só existe uma saída: buscarmos a nós mesmos até a raiz da alma e vivermos um tempo de enfrentamentos. Uma das poucas vantagens do chamado processo de globalização é que, ao impor um discurso hegemônico e investir contra o que é preconceituosamente chamado de ``regional'', ele provoca a reação. À medida que aumentam as formas de controle das chamadas ``indústrias de consciências'' e a hegemonia dos produtos culturais e audiovisuais norte-americanos, crescem também, na mesma proporção, as possibilidades de subversão, de contestação, de transgressão, de afirmação de artes e culturas diferenciadas. Em todo o mundo, como reação às tendências do mercado, busca-se a originalidade, a profundidade, a radicalidade, as novas posturas políticas, as novas estéticas e as novas éticas. Se a cultura de mercado, fácil, rasteira, sem odor e sem inquietações, representa o espectro nefasto da globalização, as sociedade que sofrem com esse processo brutal de dominação, terminam por gerar vacinas contra a doença e estabelecem novos paradigmas. No Brasil, esta reação, pouco a pouco, já se inicia nas artes: na música, no teatro, na dança, na literatura, no cinema... Nos diversos espaços geográficos brasileiros, onde as culturas são diferenciadas, busca-se um tempo de dignidade e uma arte que resgate os arquétipos da nossa herança de humanidade, da nossa cultura plural. Estamos, novamente, buscando o reencontro com o homem brasileiro/universal: o herói de mil faces. Estamos em busca da nossa própria alma. Um cinema cearense: um cinema brasileiro: um cinema do mundo. Para realizar um cinema que trabalhe a universalidade no particular e a diversidade no singular, não precisamos de grandes somas de dinheiro e nem de grandes aparatos tecnológicos. Poderemos realizá-lo com câmeras de 35mm, de l6mm, ou com câmeras de vídeo digitais. Usaremos as novas tecnologias sem achar que isso nos salvará, da mesma forma que não devemos ter medo de usar as velhas câmeras e sermos, por isso, considerados ultrapassados. Hoje, qualquer velha câmera, leva uma enorme vantagem técnica em comparação com as câmeras que Chaplim, Vertov, ou Fritz Lang, usaram para realizar as suas obras-primas. O importante não é a última câmera lançada em Hollywood, o importante é termos alguma coisa realmente essencial para dizer. Precisamos evitar os grandes aparatos e maquinarias pesadas. Podemos usar as luzes ambientes e as trevas, as lanternas e os faróis de carros, os pedaços de espelhos que refletem o sol e as réstias de luz que entram pela janela. A luz de graça e a lua da graça. Hoje a grande sensibilidade dos negativos e dos suportes magnéticos ou digitais permitem filmar com pouquíssima luz. A única luz que não pode faltar é a luz do espírito. A realização de um cinema, como expressão cultural de um povo, passa pela organização e pelo planejamento de um novo modelo de produção. A grande questão que se coloca é: como realizar filmes, culturalmente significativos e tecnicamente bem realizados, com poucos recursos? A outra questão, não menos importante, é: como conquistar o nosso próprio mercado e fazer os nossos filmes circularem entre os povos? Se conseguirmos fazer com que esse filmes se paguem, o que não será difícil por causa do baixo custo, poderemos romper com os círculos de dependência. A independência é um bem precioso que não deve nunca ser posto na mesa de negociações. A estética de um filme depende, além da técnica, de uma posição ética e de uma postura política diante da vida. Não existe cinema desideologizado. Todo cinema propõe uma visão de mundo. Os norte-americanos sabem bem disso: sabem que onde chega o seu cinema chega também os seus produtos e a sua ideologia conservadora. Precisamos ter a nossa própria visão de mundo e afirmarmos o inalienável direito que possui todo povo de realizar a sua própria arte e a sua própria imagem. O móvel do cinema de resistência é a paixão pelas culturas populares do Brasil e pelas culturas de outros povos do mundo, é a busca da essencialidade, da necessidade vital de criar alguma coisa de nova, de elaborar um discurso e uma estética que reflitam as dores, as inquietudes, as misérias, os desejos e as utopias, ainda possíveis, nesse tempo de trevas. Cinema é trevas... mas também é luz. E quando a luz se acende percebe-se que todo o regional é apenas a projeção do universal. O filme é o dedo que aponta o mundo. (O Povo)
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