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27/06/2001
Luz sobre os grotões da fome no Brasil

Geografia da fome, de Josué de Castro.
Editora Record, 318 páginas. R$ 36
Marco Morel
Diante do relançamento de
Geografia da fome, de Josué de Castro, surgem indagações. Qual o sentido de
retomar um livro mais que cinqüentenário, vindo do período nacional-popular e
desenvolvimentista que anda tão na moda criticar? Para que publicar uma obra que denuncia
a penúria alimentar já que ninguém abertamente defende tal degradação da espécie
humana? Até que ponto, enfim, é oportuna esta reedição: não seria anacronismo a mera
repetição de discursos corretamente exemplares para condenar a fome?
Geografia da fome é um
livro matriz. Em seu ramo de saber corresponde a Vidas Secas de Graciliano
Ramos na literatura e à série Retirantes de Portinari na pintura, tendo em
comum com tais obras, além da temática e do período, a expressão criativa de uma
lúcida contestação às sociedades contemporâneas crítica que, oriunda de um
lugar regional, teve alcance universal. Assim como Darwin, inglês de
Shrewsbury, escrevera sobre a origem das espécies no século XIX, Josué de Castro,
cientista, médico e geógrafo pernambucano do século XX, embaixador na ONU, enveredou
com coragem e competência para destrinchar as origens das carências alimentares. E o
resultado foi uma obra pioneira, com rigor metodológico e originalidade, aliando
ecologia, nutrição, consumo, hábitos alimentares e relações socioeconômicas que
compõem a ardilosa teia da fome.
Longe da denúncia verborrágica, o
livro é uma realização de envergadura: comprova que não bastam generosas intenções
diante dos grandes desafios e aponta, assim, um paradigma para o desempenho do intelectual
universitário. Suas páginas prendem a leitura: traduzido em 25 idiomas é ao mesmo tempo
simples, fluente, consistente e erudito. Enxuto. O colorido dos exemplos equilibra a
solidez dos argumentos unificados num eixo definido. Tinha tudo para ser um permanente
best-seller ao ser lançado em 1946 pela recém-criada editora O Cruzeiro, braço dos
Diários Associados em plena fase de expansão da indústria cultural.
Obra que, como assinala o geógrafo
seguidor da mesma linhagem, Milton Santos, foi divisora de águas no debate do tema no
nível internacional, influenciando a posição e as formulações de políticas das
grandes potências diante de uma evidência escamoteada: a pobreza e a miséria em escala
mundial. Agora a 14 edição sai com o selo da Civilização Brasileira ganhando a
amplitude da distribuição do grupo Record. Verdade que em 1996 o governo federal fez
rápida homenagem aos 50 anos da publicação, mas parou por aí. Tal obra poderia ser
distribuída (como instrumento de formação de efetiva cidadania) para escolas e
bibliotecas, cujos acervos, como sabemos, ainda deixam muitos na fome.
O próprio estilo permite uso didático: mapas não mostram belezas ou
acidentes naturais, mas desnaturalizam as carências nutricionais, assinalando que não
eram resultantes apenas de efeito climático ou determinismo alimentar, como
predominantemente se acreditava. O autor realizou com precisão macabro mapa do Brasil
apontando em que locais as populações estavam necessitadas de vitamina C, ferro,
vitamina B, iodo, etc., correspondendo às respectivas doenças ou deficiências
orgânicas. Concluiu que a alimentação do brasileiro era imprópria em todo o
território nacional. Traçou mesmo uma tipologia: as regiões de fome endêmica
(permanente em determinados grupos humanos), epidêmica (que aumentava ou aparecia em
dadas circunstâncias, como as secas por exemplo) e de subnutrição, que não são
propriamente áreas de fome.
É instigante o campo político e intelectual deste trabalho redigido no
imediato pós-guerra: imprensado pela polarização da guerra fria, mais do que propor um
terceiromundismo, terceira via ou nacionalismo caricatural, superou toda ordem
de determinismo, fosse econômico, biológico ou cultural, integrando tais abordagens na
interpretação que levou a cabo, na qual não faltam referências a Spinoza e Freud para
dimensionar os apetites em todas as suas dimensões, inclusive sexual, como força motriz.
Numa postura sempre sóbria mas com toque antropofágico, critica a idolatria
das estatísticas pelos economistas, cita Stefan Zweig, José Américo de Almeida (que
cunhou a famosa frase: Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é
não ter o que comer na terra de Canaã) e muitos autores das áreas médica e
geográfica para esclarecer aspectos como o dos corpos dos flagelados alterados pela fome.
Uma das fontes que paira sobre o livro é a grande seca de 1877 que assolou
principalmente o Ceará, acontecimento traumático e ainda não devidamente dimensionado
na história do Brasil cuja mortalidade e desfilar de misérias causou grande impacto
político, cultural e intelectual. Os pais de Josué de Castro estavam entre os milhares
que fugiram da calamidade, tendo suas vidas irremediavelmente transformadas. E tal
vivência ajuda a explicar por que o volume em questão não se presta a luxuosas (e
lucrativas) badalações em torno de imagens da pobreza e da fome.
Não passa despercebida a crítica que o autor fez a premissas dos fundadores
da Sudene (que identificavam uma das causas da pobreza no crescimento populacional,
recomendando enviar contingentes de pobres para regiões mais prósperas), embora tenha
considerado positivo o surgimento de um órgão que buscasse tratar do desenvolvimento do
Nordeste. Aliás, por esta recente edição, não ficamos sabendo quando se fixou o texto
definitivo do livro, com indícios de que foi parcialmente alterado até 1959, com notas
que tratavam da temática que (infelizmente) não se esgotava, a da fome.
Josué de Castro publicou 22 livros em vida, mas Geografia da
fome teve sua trajetória vinculada à do autor, um dos primeiros a ter os direitos
políticos cassados pelo golpe civil-militar de 1964. Verdade que o tomo, escrito antes
destes eventos, transpira um clima otimista de confiança no progresso nacional e na
aurora social da Humanidade. No exílio, Josué publicou o límpido e emocionante romance
Homens e caranguejos (também acaba de ser reeditado pela Civilização
Brasileira).
O autor faleceu em Paris, deprimido, sem voltar ao Brasil, com pedidos de
visto negados pelo Itamaraty. Na mesma semana morreu outro poeta, o chileno Pablo Neruda:
a ditadura encabeçada por Pinochet acabara de chegar ao poder em 1973. Tempos difíceis,
quando se dizia que não havia luz no fim do túnel. Mas alguma iluminação veio depois.
Na Campanha contra a Fome nos anos 90, Betinho alardeava Josué de Castro como guru, da
mesma maneira que o movimento poético e musical mangue beat através de Chico Science.
Sem esquecer que Chico Buarque anunciou a novidade no Brejo da Cruz: a
criançada se alimentar de luz. Aí resume-se a oportunidade destas reedições: a
miséria não acabou, a indústria farmacêutica lucra bastante com as doenças, os
alimentos transgênicos são discutidos e no fim do túnel desponta um apagão que tem
provocado uma incontornável fome. (O Globo)
MARCO MOREL é doutor em História pela Université de Paris I e professor do
Departamento de História da Uerj
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