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27/06/2001
Lampião para acender o forró de
Maciel Melo

Letícia Lins
Em tempos de crise de energia, o pernambucano Maciel Melo saiu na frente:
acendeu o candeeiro, espalhou o gás e começa a tocar fogo em tudo que é arraial ou
terreiro junino do Nordeste. Com o nono disco na praça, Acelerando o coração,
e boas vendas, o forrozeiro tem levantado a poeira com uma composição inédita,
arrancada da iminência do breu na região: o Forró do apagão. É puxar a
sanfona, a zabumba, o pandeiro e o triângulo para o assunto e o pedido de bis do público
vem logo em seguida. Na última apresentação, Maciel Melo teve que interpretar o baião
pelo menos três vezes.
O sucesso nos shows que tem feito é tão grande que
o caboclo sonhador já decidiu: composta há apenas 15 dias, Forró do
apagão será o título e provável carro-chefe do décimo CD de sua carreira. Uma
carreira que começou quando tinha ainda 15 anos, cantando nos bares do sertão do Pajeú,
em Pernambuco. Que prosseguiu no sucesso de composições como Caboclo sonhador
(que estourou na voz de Fagner e Flávio José), Menino do Sertão (com Zé
Ramalho), Ninar meu coração e Que nem vem vem (ambas com Elba
Ramalho). E que tomou fôlego quando o artista passou não só a revelar sua alma de
poeta, mas se profissionalizou na defesa persistente do forró tradicional.
Maciel acha, com um pouco de sonho e exagero, que a crise da energia vai
levar o forró ao que ele era antes, dançado sob a luz do candeeiro. Seja nos arruados do
interior ou nas casas de dança do asfalto. Por isso, no Forró do apagão
pede: Vamos acender o candeeiro/ clarear esse terreiro e alegrar o coração / (...)
/ bota gás na lamparina quero ver o poeirão/ depois que inventaram luz elétrica/ agora
inventaram o apagão/ pode desligar essa moléstia que forró só presta na base do
lampião.
Mais oportuno, impossível. Enquanto o Forró do apagão não
chega às gravadoras, Maciel Melo vai curtindo o seu Coração acelerado. A
produção é independente, não conta com um esquema comercial pesado. Mesmo assim, em
apenas 15 dias, o CD esgotou em Recife as dez mil cópias fabricadas. Ele comemora a
divulgação em rádio e TV.
E não tem jabá não. É tudo resultante do meu trabalho. Com o
sucesso de Acelerando o coração, as gravadoras voltaram a jogar discos
anteriores no mercado diz o compositor.
Raiz a Maciel Melo é o que não falta. O pai era agricultor, pedreiro,
barbeiro, roceiro e, claro, tocava sanfona nos forrós da roça. A mãe ainda hoje tem um
banco de feira em Iguaraci, no sertão do Pajeú, celeiro de poetas populares. Maciel
cresceu em meio a aboios, repentes, violeiros e muita história da caatinga.
Tudo isso faz parte do meu universo: as figuras folclóricas do
sertão, os emboladores de coco, os cegos rebequeiros do meio da feira, os poetas
populares que vendiam seus cordéis cantando, em ruas e praças diz.
Foi inspirado nesse sentimento atávico que ele escreveu Caboclo
sonhador em 1983, quando tentava a vida de artista em São Paulo e sentia falta dos
cheiros, cores e rumores do sertão. Na composição, regravada no novo CD, o cantor
assume: Sou um caboclo sonhador/ meu senhor viu/não queira mudar meu verso/ se é
assim não tem conversa/ e meu regresso para o brejo/diminui a minha reza. Ele
assume seu sonho de caboclo com convicção, até quando é chamado de cafona como já
ocorreu em Recife.
A exemplo dos repentistas, tomou a ofensa como mote e compôs Velho
arvoredo, uma de suas músicas mais conhecidas: podem me chamar de cafona/ eu
gosto é de sanfona é de forró/ minha sandália é corrulepe/ ainda chamo cachete,
califon e caritol. Traduzindo: corrulepe é uma onomatopéia extraída
do barulhinho que a sandália de couro rústico faz quando o sertanejo anda; cachete
é comprimido no sertão; califon é sutiã; e caritol é estado
civil das vitalinas, como são chamadas no sertão as mulheres de uma certa
idade que ainda não se casaram.
No novo CD, esse universo aflora mais uma vez. Até na inspiração de outros
poetas convidados, como o popular Jessier Quirino, que descreve a Paisagem do
interior: Matuto no mei da pista/ menino chorando nu/ rolo de fumo e
beiju/ colchão de palha listrado/ um par de bêbo agarrado/ preto véio
rezador/ jumento, jipe e trator/ lençol voando estendido/ isso é cagado e cuspido/
paisagem do interior. (O Globo)
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