Chega às lojas 'Anarkilópolis', um Raulzito inédito |
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01/07/2003
Som Livre lança coletânea do cantor baiano Raul Seixas (1945-1989) com uma canção country jamais lançada em disco, inaugurando a 22.ª parceria do roqueiro; Raul faria hoje 58 anos e seu legado continua rendendo grandes momentos musicais
CASTILHO DE ANDRADE Vinte e dois anos depois de criar o Raul Rock Club, Sylvio Passos vai se tornar, oficialmente, o 22.º parceiro de Raul Seixas. A coletânea Anarkilópolis, que está saindo pela Som Livre, traz a faixa inédita que dá nome ao CD, com a assinatura de Raul, Cláudio Roberto e Sylvio Passos. "Eu tive o privilégio de ser, além de fã e seguidor, amigo pessoal do Raul. É uma coisa que levarei sempre comigo. Assinar uma composição com o Raul, depois de tanto tempo, é uma sensação muito boa", diz Sylvio. A canção Anarkilópolis é um country que deveria ter entrado no disco Metrô 743, da Som Livre, mas não ficou bem acabada e os produtores preferiram não incluí-la no disco. Nela, o que chama a atenção é o refrão 'Eu não sou besta pra tirar onda de herói/ sou vacinado sou caubói/ caubói fora-da-lei' que, três anos depois, seria utilizado na música Cowboy Fora-da-Lei, sucesso do disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bein-Bum, da gravadora Copacabana, com a assinatura de Raul e Cláudio Roberto. O reservado Cláudio foi um dos grandes parceiros de Raul ao lado de Paulo Coelho e hoje vive em um sítio na cidade fluminense de Miguel Pereira. O refrão, na verdade, foi composto pelo próprio Raul Seixas ainda na década de 70. Depois o cantor tentou utilizá-lo algumas vezes porque tinha vontade de fazer um country no estilo de Ready Teady, que ele gravou no disco Raul Rock Seixas. "A música é uma brincadeira gostosa. Na época, tinha saído uma pesquisa popular no SBT e o nome do Raul, ao lado da Xuxa e do Pelé, aparecia com destaque entre os preferidos da população para assumir a Prefeitura de São Paulo. É por isso que ele fala na letra 'Mamãe, não quero ser prefeito'", lembra Sylvio Passos. Sylvio diz que Raul e ele estavam escandalizados com o crescimento da bandidagem e, por isso, desenvolveram a letra de Anarkilópolis. "O país é o Brasil. E a história é uma coisa meio Ali Babá e os 40 Ladrões, meio filme de faroeste", diz. Sylvio Passos diz que a música foi descoberta por acaso nos arquivos da Som Livre. "Eu, para ser franco, nem me lembrava mais dela. Mas acho que foi um belo achado." Outros achados como Anarkilópolis também estão nos arquivos de gravadoras como a Universal e a Sony. "Há muita coisa que ainda não foi aproveitada. Não entendo bem por que o Raul vende muito. Qualquer coisa dele tem mercado garantido", diz Sylvio. O próprio Raul Rock Clube possui um arquivo valioso com gravações inéditas e versões alternativas ou sobras de gravações de Raul Seixas. Sylvio tem planos para criar um selo independente e lançar todo o material com tiragem limitada para fãs e estudiosos. "Tudo isso está comigo, mas não me considero o dono dessas gravações. Sou apenas o guardião delas. O trabalho do Raul pertence ao povo brasileiro. E um dia todo mundo que gosta do Raul terá acesso a isso." Sylvio conta que Raul, às vezes, costumava dar de presente aos amigos uma gravação inédita feita em casa. "O Raul desprezava o comércio musical. Por isso, fazia isso." Graças ao bom relacionamento que mantém com as três filhas - Simone, Scarlett e Vivian - e as ex-mulheres de Raul, como Kika Seixas, Sylvio acredita que não terá problemas para editar as gravações e vídeos de Raul. Quando tinha 18 anos, Sylvio Passos trocou a paixão por ídolos como Jimi Hendrix e Frank Zappa por um músico brasileiro, Raul Seixas. Largou emprego, os planos para cursar faculdade de jornalismo e até a família. Hoje, aos 40 anos, pai de Sylvio, de 4 anos, que já canta músicas do 'tio' Raul, ele acha que foi a melhor coisa que fez na vida. "Minha mãe nunca entendeu bem essa paixão que tive pelo raulseixismo. Mas, para mim, foi uma descoberta que mudou minha vida." Hoje, Sylvio viaja pelo Brasil divulgando o trabalho de Raul e mantém correspondência com os 4 mil fãs do Raul Rock Clube e com outros fãs-clubes. Recebe algum dinheiro dos direitos autorais dos dois livros que escreveu sobre Raul - Raul por Ele Mesmo e Antologia - e dos discos que ajudou a produzir como Documento, Baú do Raul, Raul Rock Vol. II e Let me Sing. Sylvio fez a seleção para a coletânea Anarkilópolis e cuidou de todas as informações precisas que acompanham o encarte. "Se ponho o meu nome, faço questão de que seja um trabalho bem-feito. Do contrário, não entro na história", adverte. A opção foi por músicas menos conhecidas e que tiveram a participação de outros músicos brasileiros, de Gilberto Gil a Wanderléa, de Jackson do Pandeiro a Sérgio Dias. "O Raul tem mais coletâneas do que discos de carreira. Por isso, achei oportuno lançar um disco de canções que tocaram menos no rádio, mas são tão importantes quanto as outras." (© O Estado de S. Paulo) Desfile de jóias do anarquista raro JOTABÊ MEDEIROS A única coisa que prestava mesmo em Anarkilópolis, a tal canção inédita do novo disco de Raulzito, gravada originalmente em 1984, era o refrão. "Eu não sou besta pra tirar onda de herói", que ele aproveitou três anos depois. O resto do country que puxa o novo lançamento é um besteirol, algo bem inferior à verve do cantor baiano em outros momentos. Só tem um versinho que se salva: "Cada um manda no seu nariz/ Por isso que o povo lá é feliz." Há coisas bem melhores do que a "inédita" de Raulzito entre as 14 faixas desse disco Anarkilópolis (lançamento Som Livre, preço médio R$ 30,00), que reúne sua produção crepuscular. Um caso é o xaxado Ê, Meu Pai (1980), dele e de Claudio Roberto, com Jackson do Pandeiro e coro do grupo As Gatas. Delícia também é o xote Quero Mais, cujos vocais são divididos com a musa da Jovem Guarda Wanderléa, pontuado pelo desafio de uma embolada. "Nosso beijo é doce que nem rapadura." Em Mamãe, Eu não Queria, o valente Raul prega contra o alistamento obrigatório ao Exército, semeando a desobediência civil (1984). Do mesmo ano é balada brega Mas I Love You (Pra Ser Feliz), com um coro se equilibrando na guitarrinha de Rick Ferreira. Das parcerias de Raulzito com Marcelo Nova, no fim dos anos 80, comparecem duas faixas (Muita Estrela, Pouca Constelação e Rock'n'Roll). Dos malditos, está o bicho-grilo Sérgio Sampaio, em Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo. E, bom sinal, a qualidade das gravações está acima da média no álbum. Raulzito foi o primeiro artista nacional a ter um disco organizado por um fã-clube, Let Me Sing My Rock-and-Roll (1985). Esse disco é da mesma natureza. A seleção obedece a um critério "subversivo", para justificar os símbolos de anarquismo aqui e ali. É justo. O papel de Raulzito sempre foi esse mesmo, o de puxar o cordão dos visionários. (© O Estado de S. Paulo) Um marco histórico do pop De 1973, 'Krig-há Bandolo!' é definido como um dos dez melhores discos já lançados no País EDMUNDO LEITE Poucas vezes em vida Raul Seixas pôde comemorar seu aniversário como este de 58 anos, que seriam completados hoje. A data, ainda que sem o impacto das efemérides redondas, vem acompanhada do lançamento de música inédita encontrada nos arquivos da gravadora Som Livre, videoclipe no Fantástico, shows-tributos organizados por fãs pelo País e projetos de levar a vida do roqueiro para as telas de cinema ou da TV. Um deles de Paulo Coelho. Tivesse nascido "lá", como sonhava e gostava de dizer referindo-se aos EUA e Inglaterra dos ídolos Elvis e Beatles, talvez já contasse com a própria Anthology, compilação de material histórico do quarteto de Liverpool lançada recentemente em cinco DVDs e livro. Mas num momento de crise da indústria fonográfica e editorial, uma novidade como Anarkilópolis, música inédita que dá título ao disco, não deixa de ser acontecimento de certo peso. Mesmo tratando-se de uma sobra de estúdio. Precursor do rock nacional com cara e atitude, Raul Seixas deixou legado indelével na música brasileira e também, de certo modo, na literatura, nacional e mundial. Isso porque, sua aparição como artista de sucesso, há 30 anos, trouxe também para os holofotes e show biz o então editor de revistas esotéricas Paulo Coelho, parceiro em suas mais bem-sucedidas canções e agora desfruta a imortalidade acadêmica. Quando em 1973, ambos saíram pelas ruas do centro do Rio para promover a música Ouro de Tolo e o álbum Krig-há Bandolo!, Raul e Paulo davam seus primeiros passos rumo à imortalidade, ainda que por caminhos diferentes. Considerado por muitos um dos dez melhores discos já lançados no País, Krig-há Bandolo! é marco da música pop. Com ele, o público começava a conhecer a fórmula que faria sucesso em pelo menos nos três álbuns seguintes (Gita, Novo Aeon e Há Dez Mil Anos atrás) e que marcaria a carreira de ambos: fusão de ritmos, letras elaboradas, refrões de impacto e ironia. De certa forma, esta Anthology à brasileira de Raul começou com o relançamento desses álbuns em caixa de CDs no fim de 2002 pela Universal e de outros dois pela Eldorado, gravadora que o acolheu numa das muitas fases difíceis nos anos 80. E, como no recente episódio em que McCartney inverteu os créditos da parceria com Lennon, aqui não faltam polêmicas sobre a autoria das canções da dupla Seixas/Coelho e fãs indignados com a revelação de que algumas letras foram feitas apenas pelo escritor. Raul tentou mais de uma vez, sem sucesso, retomar a parceria com o "inimigo íntimo", como ambos se declaravam. Mas apesar do fim da parceria, nos anos 70, Raul Seixas conseguiu manter acesa a chama de sua paixão pelo rock com outros parceiros aos longo do anos. Ainda em vida, viu crescer e alimentou o mito em torno de sua imagem até o definhamento (físico) num pequeno apartamento em São Paulo, onde, solitário, deixou a vida para entrar na história. (© O Estado de S. Paulo) Sua parceria com Paulo Coelho pode virar filme Uma das mais ricas e controvertidas parcerias do rock brasileiro poderá virar minissérie para TV, contada por um dos próprios protagonistas. Parceiro de Raul Seixas em sua fase de maior sucesso, o escritor Paulo Coelho planeja escrever um roteiro sobre a história que os dois viveram na década dos 70. Estado - Trinta anos depois do disco de estréia, como você avalia o interesse pelo trabalho de Raul Seixas? Paulo Coelho - Trinta anos? Nossa, parece que foi ontem. O que me surpreende é a atualidade do trabalho. A gente não fazia idéia, não tinha noção da repercussão que as coisas iam ter. Eu me lembro da gente pensando na capa, em que ele está com um medalhão. E na contracapa, uma pichação da letra de Rockxixe. Na época, a pichação era a única manifestação possível. Estado - A idéia de sair em passeata cantando pelas ruas do Rio em 1973 foi sua? Coelho - Ter idéia não basta. O que importa é que ele teve coragem de fazer. Foi um momento histórico. Saiu até no Jornal Nacional. Foi surpreendente. Começou só comigo, com ele e nossas mulheres, e terminou com uma multidão carregando a bandeira da sociedade alternativa. Estado - Muitos fãs de Raul Seixas o criticam, dizendo que se aproveitou dele para fazer sucesso e que mente ao dizer que escreveu sozinho algumas letras. Coelho - Você acredita nisso? Essa coisa dos fãs nunca chegou a mim. E se chegasse, o que fica de concreto é o meu trabalho com o Raul. O resto não importa. Estado - A parceria de vocês sempre foi conturbada. Há uma história sobre a tentativa de reaproximação na década dos 80, por exigência de uma grande gravadora, mas que você saiu frustrado após Raul ser encontrado desmaiado depois de quatro dias trancado no quarto do hotel. Coelho - Aquilo foi uma 'forçada' de barra da gravadora. A nossa parceria já havia acabado. A parceria emocional havia acabado. As coisas acabam. Até as boas. Mas houve, sim, a tentativa. Como eu estava no Rio e não queria ir para São Paulo, e ele não queria ir para o Rio, escolhemos Itatiaia, no meio do caminho. Hoje, olhando com olhos de 55 anos, vejo que não devia ter aceitado a proposta. Estado - Supondo que tivesse dado certo, você acha que sua carreira de escritor não teria acontecido? Coelho - Não acredito. Naquele momento eu já estava decidido a ir atrás dos meus sonhos. O ano de 1985 foi de transição para mim. Já estava decidido a fazer o caminho de Santiago no ano seguinte. Estado - E a história do livro sobre o Raul? Coelho - Foi em 1991. Eu estava gostando muito, estava quase no fim. Dei para minha mulher ler, ela parou, olhou para uma imagem de Nossa Senhora e disse para eu não publicar. Eu perguntei por que e ela disse que recebeu um sinal. E eu acredito em sinais. Então resolvi me desfazer dele. Fui ao restaurante Antiquarius, no Rio de Janeiro, e falei para o meu editor, Paulo Rocco: quer ver meu novo livro? Abra em qualquer página e leia. Ele abriu e disse: genial! Então eu disse para que gravasse bem porque era só aquilo que iria ler. Estado - E o que fez com os originais? Coelho - O livro foi apagado do meu computador, da minha memória. Preservei só um capítulo que eu falava como conheci o Raul. O resto apaguei e joguei os originais fora. Joguei numa lata de lixo no Jardim de Alá (Leblon, zona sul do Rio), perto de onde o Raul morou, porque não queria colocar fogo. Foram meses de trabalho perdido, mas eu adorei ter escrito. Estado - E não pretende retomá-lo? Coelho - Jamais vou reescrever. Não tenho como fazer outro. Pelo menos da maneira como foi feito. Se eu fosse fazer, não seria em forma de livro. Seria uma coisa visual. Uma outra coisa... Um roteiro, uma minissérie. Eventualmente, um filme. (E.L.) (© O Estado de S. Paulo)
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