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Síndrome de Prince

01/07/2003

Hanks: cor exata na composição


Para lançar seu quarto e vigoroso álbum solo, Carlinhos Brown se latinizou e agora se chama Carlito Marrón

Ivan Claudio

   Carlito Marrón era um garoto sem caminho e sem destino, que tinha na boca dois caninos clandestinos. Um belo dia, conheceu uma garota de vida subversiva, que fez uma verdadeira guerrilha no seu coração. Seu nome era Merlita Monroe. O enredo com sabor de chanchada da Atlântida, na verdade, é uma adaptação dos versos da faixa-título do álbum Carlinhos Brown é Carlito Marrón, quarto trabalho solo do cantor, compositor e percussionista baiano, tribalista de carteirinha ao lado de Marisa Monte e Arnaldo Antunes e recém-contratado pela BMG espanhola. Depois de um período de baixa popularidade, quando foi recebido com garrafas de plástico pela platéia do Rock in Rio III, teve shows cancelados por falta de público e viu suas vendagens minguarem, Carlinhos Brown – ou Carlito Marrón, como agora prefere ser chamado, tal qual Prince em fases de mudanças de nome – ressurge num disco vigoroso. Vigor latino, no qual seu liquidificador sonoro acerta contas com os flertes rumbeiros da música brasileira. “Este poderia ser o meu primeiro disco”, afirma Brown. “Venho de um momento em que o processo de relatinização no Brasil tinha certa força. O instrumento que tocava era timbales, o mesmo de Tito Puentes”, conta o artista, que recheou o novo trabalho de rumbas miscigenadas, ritmos espanholados e fez dueto com Rosário Flores, popular cantora espanhola que viveu a toureira no filme Fale com ela, de Pedro Almodóvar.

   Parece um disco tribalista? Sim. Seguindo à risca o lema do antimovimento que prega a liberdade de poder ser o que quiser, Carlito Marrón aparece na capa do disco vestindo camisa no estilo caubói, chapéu de feltro e usando os eternos óculos escuros. Um visual diferente, mas com o mesmo espírito exibido no DVD Tribalistas, quando lançou a moda dos óculos de ponta-cabeça. Sobre o projeto paralelo, hoje na casa das 900 mil cópias vendidas e no topo da lista das músicas mais executadas desde o verão passado – primeiro com Já sei namorar e depois com Velha infância – Marrón diz que o grupo funciona como um quarto artista, um ente virtual resultado da soma de “Arnaldo, Carlinhos e Zé” (uma brincadeira com Marisa Monte). “Foi uma coisa espontânea, que achamos que não ia acontecer. Rolou a mesma química de sempre.” Embora envolvido com o lançamento do novo trabalho, segundo o artista já nas listas dos mais vendidos na França e na Espanha, ele acredita que em breve o trio se reunirá ao vivo. “Vai chegar a hora natural de os Tribalistas se encontrarem no palco. Estou ansioso por este momento.”

   Ansiedade, contudo, parece não ser comum na personalidade do baiano, famoso pela verborragia que o faz passear com sabedoria inata por assuntos insuspeitos. Uma herança de ex-vendedor de picolé, como costuma proclamar. Ao falar, por exemplo, da descoberta de uma ancestralidade berbere, do norte da África, Marrón vai da música usada na capoeira, passa pelo cuscuz, identifica similitudes no raï argelino e chega, enfim, aos gestos cotidianos de seus antepassados, observados na infância. A mistura, acredite, tem a ver com a relatinização a que ele se refere e que preparou o parto de Carlito Marrón, herói de muito caráter, na vanguarda de um Brasil miscigenado e festeiro. Cabeça em ebulição, ninguém segura o pensamento do baiano. “Relatinizar é reencontrar essa África do norte, que parece com a Espanha, que parece com tudo isso, com esse tom menor que tem no chorinho e no samba-canção”, explica.

   Tal efervescência se materializa nas ótimas idéias sonoras de Carlinhos Brown é Carlito Marrón. Dividindo os vocais com Bebel Gilberto no samba chicano Ifá de Copacabana, lembrança do guitarrista mexicano Santana, de Oye, como va, Marrón/Brown cria o refrão: “Late jazz/conga es cuba libre/babá.” Na falsa flamenca I wanna Lu, ele vem com versos tão surrealistas quanto as imagens do filme O cão andaluz, de Luis Buñuel. “Ela é grife undertop/ela é de loção/Y solo tu/Mi Ana Lu/Faz o dia/Mi sertão azul.” Perguntado sobre como esta garota pode ser “de loção”, ele lembra a protagonista da belíssima canção Beatriz – do sogro Chico Buarque em parceria com Edu Lobo –, moça que, aos olhos do poeta, poderia ser de louça. Coisas de Carlito Marrón, que os gringos andam apropriadamente chamando de sound designer.

(© Revista Isto É)

 

Com relação a este tema, saiba mais:

Carlinhos Brown se reinventa "à espanhola" (20.06.2003)

Carlinhos Brown: Mito e Verdade (10.02.2001)

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