Notícias

‘Angústia’, uma mórbida paixão que leva ao estilhaçamento da realidade

09/07/2003

Graciliano Ramos

Luiz Ruffato

   Ainda hoje a obra de Graciliano Ramos (1892-1953) é enquadrada, parece-me que equivocadamente, como caudatária do Regionalismo de 30, juntando ao seu os nomes de Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, entre outros. Os romances, contos e memórias de Graciliano constituem um todo coeso e inseparável de sua formação intelectual, pouco simpática às conquistas do modernismo e às inovações técnicas das diversas vanguardas. E, se separarmos o seu livro de estréia, “Caetés” (1933), ainda bastante próximo de certa tradição naturalista, veremos como torna-se impossível conformar a sua obra em qualquer rótulo, o que deixa-nos entrever a grandeza do escritor.

   A trajetória de Graciliano, no romance, inicia-se efetivamente com a obra-prima “São Bernardo” (1934), e termina quatro anos depois com “Vidas Secas”, outra obra-prima, passando por “Angústia” (1936), talvez o mais complexo de seus livros e por isso mesmo o menos lembrado. Se em “São Bernardo” acompanhamos a derrocada do ex-guia de cegos e agora latifundiário Paulo Honório, homem bruto e insensível que destrói tudo à sua volta, até mesmo o amor de Madalena, e em “Vidas Secas” tomamos parte da narrativa sobre uma família de retirantes que percorre um sertão quase mítico rumo ao nada, o que o autor nos oferece em “Angústia”?

   Grosso modo, poderíamos dizer que essa obra aprofunda a técnica empregada em “São Bernardo”: trata-se de um romance confessional, narrado na primeira pessoa, cujo personagem central também é um fracassado, alguém fora de seu lugar. Mas, o que em “São Bernardo” vislumbramos como possibilidade de recomposição do “real”, ainda que distorcido por um caráter doentio, em “Angústia” trata-se do total estilhaçamento da “realidade”. O que parecia tocar o expressionismo, na narrativa egoísta e paranóica de Paulo Honório, afunda-se em total descolamento do exterior em “Angústia”.

   A motivação do protagonista, Luís da Silva, um Luís que perdeu boa parte dos sobrenomes do avô e do pai, é tentar sobreviver à sua própria mediocridade, ao seu fracasso. E de episódio em episódio vai deparando com a dificuldade de situar-se no mundo, um mundo que foge cada vez mais de seu campo de atuação, ampliando seu ressentimento e aumentando a violência que subsiste recalcada dentro dele.

   Se possível fosse resumir “Angústia”, diríamos que a “ação” se passa em Maceió, no começo da década de 30, e a trama, simplificada, seria: Luís da Silva, um homem torturado e inabilitado para a vida, apaixona-se pela vizinha, Marina, e, com o intuito de se casar com ela, entrega-lhe suas economias para o enxoval. Surge então um adversário, Julião Tavares, em tudo o seu contrário, ousado, destemido, endinheirado, que seduz Marina e a abandona. Luís da Silva então passa a alimentar o plano de assassiná-lo... Fosse isso somente e “Angústia” não teria a importância que tem. Mas, como o que importa no bom romance não é o que se conta, mas o como se conta...

   “Angústia” é um livro narrado em pelo menos três planos diferentes, que se iluminam e ajudam a construir a personalidade mórbida de Luís da Silva. Um primeiro, o da “realidade” percebida pelo narrador; outro, o da memória, que provoca nele um estranhamento que o faz enxergar, num terceiro plano, a “realidade” envolta em brumas, deformada por humilhações e rancores, sufocada num ambiente de miséria.

   Graciliano Ramos, um escritor conhecido por sua casmurrice, coloca em xeque, com sua obra, vários preconceitos. Filiado ao Partido Comunista — suas prisões resultaram de sua sempre explícita militância — nunca aceitou submeter seus livros aos dogmas stalinistas. Alagoano, e descrevendo o homem nordestino, nunca se deixou limitar pelas imposições do “regionalismo”. Romancista consagrado, não se permitiu seduzir pela facilidade do ofício e, após uma curta carreira — de “Caetés”, o primeiro romance, a “Vidas Secas”, o último, foram apenas cinco anos — buscou outras formas de expressão: as memórias, em “Infância” (1945) e “Memórias do cárcere” (1953); os contos, em “Dois dedos” (1945), “Insônia” (1945) e “Histórias Incompletas” (1946); a literatura infantil, em “Histórias de Alexandre” (1944), e o relato de viagem, em “Viagem” (1954).

LUIZ RUFFATO é escritor, autor de “Eles eram muitos cavalos”

(© O Globo Online)

 

Com relação a este tema, saiba mais:

Reedição lembra 50 anos sem Graciliano

Os 50 anos da morte de Graciliano Ramos

Mostra revela face austera de Graciliano

 

© NordesteWeb.Com 1998-2003

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia