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09/07/2003

Deborah Berlinck
Correspondente PARIS
Ele morreu em 1989, no hospital
psiquiátrico Juliano Moreira, no Rio, onde entrou pela primeira vez, em 1939, como
indigente. Era assim que a ficha médica resumia sua vida: idade: 27 anos; cor:
negra; classe: indigente. Quatorze anos depois de sua morte, a herança de Arthur
Bispo do Rosário que em 50 anos de isolamento no hospital psiquiátrico produziu
uma obra considerada sem paralelo na arte brasileira chega a um dos mais
importantes museus da França e do mundo, a Galerie Nacional do Jeu de Paume, em Paris,
numa parceria da Prefeitura do Rio com o Ministério da Cultura da França.
É a primeira vez que um museu francês abre espaço para uma exposição
individual das obras de Bispo. De amanhã ao dia 28 de setembro, 79 peças, todas do Museu
Bispo do Rosário, no Rio, vão ocupar metade do Jeu de Paume. Para organizar a
exposição, o diretor do museu, Daniel Abadie, trouxe de Miami o curador mexicano
Augustin Arteaga, diretor do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba) até
março do ano passado, quando decidiu deixar o país, vítima da crise econômica
argentina.
Não é qualquer um que expõe no Jeu de Paume. O museu acaba de encerrar uma
de suas exposições de maior sucesso: a das obras do pintor surrealista belga René
Magritte, que atraiu mais de 300 mil pessoas em quatro meses. Também não é simples
montar uma exposição no Jeu de Paume. As obras de Bispo ficaram três semanas numa sala
hermética, sem oxigênio, na periferia de Paris, desinfetando, para melhorar sua
preservação o que exigiu uma técnica especial, pois cada objeto tem uma enorme
quantidade de materiais diferentes, de lata a plástico.
Curador conheceu obra de Bispo na Bienal de Veneza
A idéia da exposição partiu do próprio diretor do Jeu de Paume, Daniel
Abadie. Segundo Arteaga, ele tem se interessado por artistas da América Latina e viu pela
primeira vez o trabalho do Bispo em 1995, na Bienal de Veneza. Viu ainda seu trabalho no
segmento Imagens do inconsciente da Mostra do redescobrimento: Brasil +
500. O que mais chamou atenção dos dois foi como Bispo do Rosário sem
formação ou nenhum contato com o mundo artístico conseguiu produzir uma obra
tão universal, original e completa, que incorpora várias correntes da arte
contemporânea: do realismo mágico e poesia concreta latino-americana às grandes
correntes, como ready-mades , novo realismo e arte conceitual.
Emoção e linguagens da arte contemporânea
É um artista que tem uma alta força, uma tal emoção. Ao mesmo
tempo, tem todas as linguagens da arte contemporânea. É muito interessante ver como
alguém que ficou internado por tantos anos numa instituição psiquiátrica conseguiu ter
uma obra criativa tão particular, tão forte. Ele conseguiu ultrapassar os limites da
técnica. Vai de um tipo de trabalho delicado, o bordado, a outro explica Arteaga.
Arteaga conhece bem a obra de Bispo. Ele fez todo um estudo só sobre os
bordados do artista. Artur Bispo do Rosário era sergipano. Foi para o Rio em 1925,
alistou-se na Marinha, trabalhou na Light, foi lutador de boxe, borracheiro e lavador de
bondes. Em 1939, teve um surto e, depois de perambular dois dias pelas ruas do Rio, foi
internado com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide. Com o fio azul arrancado do
uniforme de paciente e lençóis encardidos, bordou, com palavras e imagens, fatos de sua
vida. Ele reciclou o lixo do hospital na sua obra, aproveitando tudo: papelão, sapatos
velhos, canecas, garrafas, embalagens plásticas. A maior expressão de sua obra, que
merecerá destaque no Jeu de Paume, é o Manto da apresentação, um bordado
de um requinte extraordinário que ele pretendia usar em seu encontro com Deus, no dia do
Juízo Final.
Arteaga não quis que vida do artista ofuscasse a obra
É uma exposição que vai ter uma transcendência muito grande. Todo
mundo encontra nele um artista conceituado, de grande porte diz Arteaga.
Arteaga, entretanto, teve uma preocupação, ao montar a exposição: não
ressaltar demais a história da vida de Bispo, por mais interessante que seja, para não
ofuscar o valor artístico de sua obra, como aconteceu com a pintora mexicana Frida Kahlo.
Ela eternizou em suas telas o sofrimento de viver a maior parte de sua vida numa cama,
doente. Seu sofrimento, mais do que sua obra, tem sido o foco de atenção e virou tema de
filme, recentemente.
A biografia do Bispo é muito interessante. Mas é a obra dele que é
mais importante. Sua obra é importante porque é boa, não porque foi feita por um louco
insiste Arteaga.
Como observa o curador, a obra do Bispo, em si, já leva ao personagem. Os
seus bordados, por exemplo, contam sua vida, e ele dedica vários objetos ao boxe, sua
paixão.
(© O Globo On Line)
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