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Um bordel congelado na memória

12/07/2003

Tela de Tereza Costa Rego

Tereza Costa Rêgo, uma das mais importantes pintoras pernambucanas, inaugura sua exposição com imagens de um bordel do qual ela só ouviu falar

por DIANA MOURA BARBOSA

   O que um bordel tem a oferecer à geração da liberdade sexual? As pessoas que não lutaram pela conquista, que hoje usufruem, de dispor do seu corpo e de sua sexualidade? A resposta atravessa a exposição Imaginário do Bordel – O Parto do Porto, assinada pela artista plástica Tereza Costa Rêgo, que entra em cartaz no Instituto Cultural Bandepe. A mostra é uma viagem no tempo que pede – a cada quadro, a cada olhar – que o público se posicione diante daquele universo e que tente compreender o que ele tem a ver com o século 21.

   Em primeiro lugar, as imagens retratadas pela artista são todas fantasiosas, inventadas, imaginárias e estranhamente reais – nunca realistas. E o são porque correspondem à idéia que os leigos no assunto constumam chamar de um “bordel”. São sensuais, provocantes, doces, afetivas e, às vezes, melancólicas. Guardam um pouco da tristeza que habita copos bebidos pela metade e cantos empoeirados que nunca são percebidos à noite. É a entrega aparentemente alegre de um amor que nunca se volta para si mesmo, que é sempre do outro, mas de um “outro” que o rejeita.

   Apesar dessa constatação, não é tristeza o que emana das telas de Tereza Costa Rêgo, uma das maiores pintoras pernambucanas e que é mestra em retratar delicadamente as narrativas do feminino. Seus quadros trazem imagens poéticas de prostitutas belas, meigas e de marinheiros embriagados. Por isso mesmo são suaves os vultos que habitam o bordel imaginado por Tereza Costa Rêgo. “Eu não coloquei nas minhas pinturas o lado sórdido do bordel, que é a exploração da mulher. Eu retratei cenas idealizadas, que eu imaginava a partir das histórias que eu ouvia de meus irmãos e de casos contados por alguns amigos. Por isso, esse universo está preso aos anos 40, a um tipo de prostituição que acredito não existir mais hoje em dia”, relata Tereza, que é a mais jovem de seis irmãos, sendo a única mulher da família.

   Isso explica porque as telas da artista acabam por romper apenas sutilmente a linha da castidade. Diante de uma televisão e cinema que exacerbam a exposição da sexualidade, principalmente a feminina, as imagens de O Bordel Imaginário maculam apenas de leve o limite da pureza. Não há choque nas imagens propostas pela pintora. Elas trazem a nostalgia de um bordel nunca experimentado, de um tempo onde os homens tinham vida dupla: uma esposa bela e dama em casa, uma amante liberada no mundo.

   Não é preciso ser um cientista social para perceber que essa dicotomia não existe mais. Hoje, rapazes têm com suas namoradas relações muito mais abertas do que aquelas que funcionam como subtexto da mostra de Tereza. Assim, unindo as duas linhas de tempo, remetendo ao presente as castas prostitutas do bordel imaginário de Tereza Costa Rêgo, seria possível dizer que elas estão em cada mulher contemporânea. Não há mais abismos que separem a honra feminina de sua sexualidade. Essas já não são condições antagônicas.

   Estranhamente, apesar dessa atualidade de sua narrativa, há algo na festividade deslumbrante de vermelhos e na suavidade dos pálidos rosas cor-de-pele que ficou suspenso nos bordéis do passado. É como se a facilidade contemporânea extraísse e aniquilasse da sexualidade uma certa densidade à qual ela não se permite mais. Por esse ângulo estreito, pode-se quase dizer que as mulheres de Tereza são todas as mulheres, só que um pouco mais recatadas.

Exposição O Bordel Imaginário – O Parto do Porto,, no Espaço Cultural Bandepe – Av. Rio Branco, 23, Bairro do Recife

(© Jornal do Commercio-PE)

 

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