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16/07/2003

Ao
longo de três décadas, Carlos Castello Branco norteou o jornalismo político no país
com sua coluna no 'JB'
Murilo Melo Filho
Especial para o JB*
Quando nasceu em Teresina, em 25 de junho de
1920 - e já lá se vão 73 anos - o piauiense Carlos Castello Branco não podia
evidentemente imaginar que seria depois mais um personagem no extenso fabulário da nossa
comum geração de jovens nordestinos nômades, que emigravam de suas terras secas, lá no
Nordeste, para virem batalhar por um lugar ao sol, na selva das grandes cidades.
Carlos Castello Branco não
podia também supor que iria pertencer a uma geração atormentada e aflita, que, mal
abria os olhos para a vida, e já se defrontava com revoluções, golpes, deposições,
renúncia, suicídio, impeachment e doenças de presidentes, uma Grande Guerra e 21
anos de governos militares.
Castello foi uma testemunha
viva e um observador privilegiado dessa perigosa escalada de agudas, de graves e de
sucessivas crises políticas.
Tive a sorte e a felicidade
de ser seu companheiro e contemporâneo durante mais de 40 anos, como jornalista
político, quando assistimos à época áurea da democracia brasileira, com a Câmara e o
Senado aqui no Rio, ao longo da década de 50, engolfados em debates de incomparáveis
tribunos, através do exercício diário de grandes talentos da oratória parlamentar.
Anos depois, Castello se elegeria para a nossa Adacemia Brasileira de Letras.
Castello era uma referência
importante em todo esse cenário, honrado com a presença de inesquecíveis jornalistas, e
já exercia aí, em todos nós, uma liderança espontânea e autêntica, de poucas
palavras, mas de uma enorme importância moral. Discreto, de olhos pequenos, mas vivos,
tinha um sorriso calmo, no qual não mostrava os dentes.
Não alimentava ódios, nem
os inspirava. Nunca herdava as brigas entre os seus amigos. Tampouco cultivava inimizades,
que não tinham espaço na galáxia ou no espectro dos seus julgamentos.
Políticos e jornalistas
chamavam-no carinhosamente de Castellinho. Bastava olhá-lo para entender-se o diminutivo:
uma pessoa de formato baixo e ágil, trocando passinhos miúdos, que se deslocava com
surpreendente velocidade.
Mal chegado a Belo
Horizonte, ele era um piauiense cauteloso e reservado que em nada fazia prever o repórter
desenvolto e o colunista ousado de logo depois.
Começou no Estado de
Minas, dos Diários Associados. E formou-se em direito. Porém, mais cedo do
que imaginava, optou pelo jornalismo. Foi chefe da sucursal do Jornal do Brasil em
Brasília, onde afinal explodiu todo o seu maravilhoso engenho jornalístico, na Coluna
do Castello, diariamente, de 1960 até 1992.
Dissecava aí todos os dias,
num estilo muito próprio, o complicado estamento brasileiro. A classe política de
Brasília era uma viciada em lê-lo todas as manhãs, como se buscasse um farol para
iluminá-la pelo resto do dia. Com seu alto senso de responsabilidade, exerceu um
influente papel na real-politik daquela Corte.
Não raro, pautava os
assuntos políticos, com temas meio pragmáticos, algo a ver com a tematização do
alemão Spengler, em sua A decadência do Ocidente; do francês Pascal, em seus Pensamentos;
e do italiano Machiavelli, em seu O príncipe.
Era um profissional, que
aceitava as amenidades do convívio humano, mas não permitia que elas interferissem na
retidão de seus comentários e de suas opiniões.
Fez sempre um jornalismo de
alto nível, na sublimação de um trabalho sério e eficiente, de princípios sólidos,
com uma postura ao mesmo tempo intransigente e compreensiva.
Castello enfrentou o
arbítrio do regime militar, tendo sido preso quatro vezes, quase sempre em
circunstâncias hilariantes para os cruéis policiais e ridículos carcereiros.
Naqueles tempos difíceis,
em que a prática parlamentar havia sido virtualmente extinta e abolida, Castello manteve
íntegra a chama do seu espaço, com coragem, equilíbrio, mordacidade, coerência e
altivez.
Costumava dizer que não era
um panfletário, nem um emocional. Muito menos um radical de direita ou de esquerda, pois
esse maniqueísmo não tinha raízes nem ancorava no universo de suas preocupações.
Era também um impaciente,
com aversão à burrice, à impontualidade, aos palavrões e aos dogmáticos. Não tinha
tempo de escrever cartas, porque já lhe bastava escrever a sua coluna diária. A ninguém
chamava de excelência. No fundo, era um bergsoniano, mas também um socrático,
espirituoso e irônico, cheio de verve e de graça.
Não raro, exagerava na sua
mudez machadiana - meio casmurra - que usava como estratégia para obter o máximo dos
entrevistados. Mesmo quando não estava na conversa, parecia prestar muita atenção ao
interlocutor.
Recolhia confissões e
confidências, prometendo nada dizer. Realmente nada dizia, mas, no dia seguinte,
publicava tudo. Sua lealdade era apenas com a informação, com o jornalismo e com mais
ninguém.
Em sua máquina
datilográfica, despejava de um jato só, como numa caudalosa cachoeira, os seus
excelentes artigos, que, depois, pouco tinham a ser corrigidos.
Na recordação de sua
imagem e desta ausência de dez anos - ele morreu em 1º de junho de 1993 - Castello
continua mais presente do que nunca na lembrança de todos nós, que continuamos
batalhando no jornalismo político do qual ele foi ícone e guru.
*Jornalista e membro da ABL
(© JB Online)
| Mestre do colunismo
político |
| Abaixo,
parentes, amigos e companheiros de trabalho de Carlos Castello Branco lembram a
importância do jornalista para a imprensa brasileira: ''Ele produziu colunas antológicas, principalmente na época em
que tudo era proibido. Falava coisas incríveis nas entrelinhas. Sempre foi tímido, mas
nunca perdeu aquela vibração natural de repórter diante de um furo e com um bom texto.
Aprendi a amar ainda mais o jornalismo com ele. Como a importância de cultivar fontes e
amigos. Ele ouvia muito, falava pouco e registrava coisas que passavam despercebidas por
outros.''
Lucídio Castello Branco
Jornalista
''Castellinho foi o príncipe dos
jornalistas contemporâneos com a sua memória e análise perfeita dos acontecimentos
políticos. Ninguém o superou. E como jornalista, se tornou acadêmico e tudo o que
escreveu ainda hoje serve de diretriz em muitos acontecimentos políticos.''
Antonio Carlos Magalhães
Senador
''Castellinho foi o maior repórter
político do Brasil. Um conjunto de circunstâncias favoráveis montou para minha
geração o cenário perfeito: capital no Rio, a eloqüência parlamentar, os anos
dourados. Minha geração, da qual Castello é o expoente, forjou o modelo de cobertura
política com as características da isenção, da independência, da interpretação que
valoriza o registro dos fatos e da projeção, que ajuda o leitor a entender sua
importância e significação. Este modelo alterou-se na adaptação a Brasília e
necessita de um novo Castello para ajudar o Congresso a recuperar sua respeitabilidade.''
Villas-Bôas Corrêa
Repórter político do JB
''Castellinho era um homem de poucas
palavras. Mas, escrevendo, não há dúvidas de que ele foi o melhor colunista da
imprensa. Sabia dosar as informações. Quando o governo invadiu a UnB, com o AI5, ele
criticou os militares em sua coluna pela atitude. No dia seguinte, alguns deles bateram em
sua porta e, quando ele a abriu, soube que seria preso. Ficou incomunicável por um longo
tempo. Nesse período, a coluna saiu com outro nome.''
Abdias Silva
Jornalista
''Castello teve papel importante na
retomada do Sindicato dos Jornalistas, em Brasília. Em 1976, Hélio Doyle, Carlos Marchi
e eu, três jovens, o convencemos a encabeçar nossa chapa para o sindicato. O nome dele
foi o que nos garantiu o respaldo da turma mais antiga. Depois da vitória, dissemos que
ele não precisaria se ocupar demais com o cargo, apenas presidir reuniões. Mesmo assim,
sua participação foi intensa.''
Armando Rollenberg
Diretor da Secretaria de Comunicação Social do Senado Federal
''Convivi com Castello durante 14 anos,
desde que cheguei a Brasília para chefiar a sucursal do JB. Já o conhecia do Rio,
pois moramos no mesmo edifício, no Leblon. Eu ainda acabava o curso científico. Ele já
era jornalista de prestígio. Castellinho encarava a vida e o seu ofício de maior
'clínico-geral' da política brasileira da mesma maneira: objetiva, isenta. Era
aparentemente cético e desapaixonado. Chegava à redação para escrever a mais
importante coluna política do país por volta das 7h30. Lia todos os jornais. Não
telefonava para ninguém. Ligavam para ele. As fontes a ele vinham, fossem presidentes da
República, ministros, ou líderes políticos. Para se informar ou para tentar usar a
coluna como canal confiável para explicações ou satisfações à opinião pública.
Castello contava que, no período entre o AI-5 e o início do governo Geisel, resistiu,
com M.F. do Nascimento Brito, numa luta diária, às tentativas dos militares de
'enquadrar' sua coluna. Segundo ele, conseguiu manter-se 'como o canal possível entre os
fatos e a opinião pública'. Castellinho acabava de escrever a coluna por volta das 11h.
Levou algum tempo para trocar a máquina de escrever pelo computador. Dedicava-se, então,
a fazer palavras cruzadas. Era o seu exercício diário, além de caminhar à tarde. Uma
vez perguntei-lhe se rezava. Respondeu-me que sim. Sua 'oração' era, ao acordar, ler uma
página de Machado de Assis.''
Luiz Orlando Carneiro
Repórter e colunista do JB
(© JB Online) |
(© Folha de S. Paulo)
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