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Dá de tudo na palmeira de Erasto

12/07/2003

JOSÉ TELES

   Para os desavisados, ou leigos, ele é o “irmão de Naná”. Para os que conhecem sua trajetória musical, Erasto Vasconcelos é um dos pioneiros da percussão moderna. Ele irá dar uma prova do seu talento submestimado no Teatro Maurício de Nassau, Bairro do Recife, no show Jornal das Palmeiras. “É um jornal musicado. Eu conto histórias dos seres que habitam nossas casas e jardins. A aranha, formiga, barata, lagartixa, passarinho, as músicas vão ligando umas às outras. Parece uma coisa infantil, mas, na realidade, representam a cadeia da vida”, explica o percussionista, que faz show solo (o único convidado é o violoncelista João “Cello” Carlos, que toca no encerramento).

   “Fui o primeiro que fez uma apresentação de percussão solo no Brasil, no Parque Laje, no Rio, em 1970”, lembra Erasto, que deixou o Recife em 1969 para só voltar em 1982. Ele chegou no Rio numa época em que a cidade, apesar da ditadura, fervilhava culturalmente. Naná (que pouco meses depois sairia do Brasil acompanhando o saxofonista Gato Barbieri) já era o mais requisitado percussionista do País, o que facilitou para que Erasto fosse acolhido pelos maiores nomes da MPB da época: “Mal fui chegando e já conhecendo Milton Nascimento, Maurício Maestro, Danilo Caymmi, a turma do Clube da Esquina, morei uns dois anos com Lô e Márcio Borges, numa casa em Stª Tereza, toquei com muita gente”, diz.

   Entre essa “muita gente” estão Ney Matogrosso (tocou no primeiro show solo do ex-Secos & Molhados), Caetano Veloso, Gilberto Gil, de uma peça do Opinião (com a atriz Vilma Luck, o cantor/compositor João do Vale e o pernambucano Paulo Guimarães, talentoso, mas precocemente falecido): “Do Rio, subi para Salvador, fiquei um tempo com o Bendegó, morei na casa de José Agripino de Paula (Nota - influenciador dos tropicalistas e autor da epopéia PanAmérica), toquei no show Brincadeira, de Caetano e Gil, um tributo a Smétak”.

   Erasto cita nomes, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ter estado no palco com tantos astros da música popular, e não apenas brasileira. Em 73, de volta ao Rio, ele trabalhou com os novatos Alceu Valença, Fagner, Geraldo Azevedo (com quem fez, por seis meses, o show Canto, Violão, Percussão, Por Que Não?). No ano seguinte, foi para Nova Iorque, onde Naná estava morando. Logo estaria tocando num grupo de Ornette Coleman, um dos criadores do free jazz, íntimo de uma turma que incluía o guitarrista Vernon Reid, que se tornou famoso com o Living Colour (Erasto participou da gravação de um álbum com Reid e outros cobras da cena alternativa nova-iorquina, que guarda como relíquia).

   “Um dia bateram na minha porta. Eram três caras querendo aulas de percussão. Eles entraram, tocamos durante umas duas horas, me pagaram e foram embora”. Erasto conta que não reconheceu os “alunos”. Um deles era Stan Getz, um dos mais importantes saxofonistas da história do jazz: “Dias depois me telefonaram, pedindo que eu fosse à rua 59, conversar com Stan Getz. Fui lá e Stan disse que me queria no show dele. Perguntei quando seria o ensaio. Respondeu que o ensaio já havia acontecido na minha casa, foi a aula”.

   Com problemas de saúde, Erasto voltou para o Brasil em 1982: “Me reestabeleci e me reeduquei culturalmente. Depois de tanto tempo fora, eu já estava falando com sotaque carioca, baiano e pernambucano”, brinca. Embora não apareça com freqüência nos palcos, Erasto jamais parou de fazer música. Tem quatro discos gravados e inéditos: Família, só voz e violão, Nau Catarineta, premiado pela Universidade de Columbia, nos EUA, Estrela Brilhante, com participação da Coração Tribal, da extinta banda Tusch e Paulo Rafael, e Planta da Casa, o mesmo Jornal da Palmeira, que apresenta no Maurício de Nassau, um show que talvez faça com que as pessoas deixem de tratá-lo como o “irmão de Naná”, o que não incomoda Erasto: “Para mim é natural, ele sempre me deu o maior apoio, tenho tanto orgulho dele quanto de outro irmão meu, Jurandir, que é um grande joalheiro”.

(© Jornal do Commercio-PE)

 

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