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Dança pernambucana ganha fôlego novo

23/07/2003

1ª Mostra Nacional de Dança

Começa, no Teatro Santa Isabel, a 1ª Mostra Nacional de Dança, que reúne grupos pernambucanos e de outros Estados

JOANA AQUINO

   Os largos e perfeitos saltos dos bailarinos pernambucanos não estão limitados ao palco. Além do anual festival de dança do Recife, realizado pela Prefeitura, uma boa notícia chega aos profissionais e admiradores dos passos sincronizados. A cidade ganha mais um evento de porte, com apresentações de companhia locais e nacionais. Uma verdadeira maratona de pequenas coreografias toma conta do Teatro Santa Isabel, de hoje a domingo, e do Teatro Camará, sábado e domingo. É a Mostra Nacional de Dança, que tem apoio da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco, a Apacepe.

   “O Recife ganha com a produção de dois eventos. Só espero que a Prefeitura cumpra com a realização do festival de dança da cidade”, afirma Paulo de Castro, realizador do evento e presidente da Apacepe. “Serão grandes companhias mostrando seus trabalhos por amor à arte. Estamos fazendo a mostra com pouca verba, R$ 40 mil”, revela.

   Sem caráter de competição, mais de 50 companhias participam do evento, que faz uma homenagem ao professor e coreógrafo Airton Tenório. Ele foi um dos fundadores da Cia. dos Homens, o primeiro grupo profissional de dança contemporânea da cidade. Até há pouco, era um dos professores da Cia. Deborah Colker, uma das mais respeitadas do Brasil. O momento deve ser de emoção, já que os antigos alunos de Airton vão subir no palco, hoje, para homenageá-lo.

   E a noite de estréia é mesmo o grande chamariz da mostra. Além da local Cia. dos Homens, o Recife está bem representado com o Daruê Malungo, que traz um grupo de percussionistas sob pernas de pau, a Cia. Pernambucana de Sapateado, que exercita a técnica norte-americana com ritmos regionais como o forró, e o Balé Popular do Recife, que já está tarimbado nos encerramentos das principais noites dos festivais. Desta vez, os talentosos bailarinos trazem trechos de Nordeste, a Dança do Brasil.

   Também sobem ao palco a Gotham Cia. de Dança, de Minas Gerais, que promete causar frisson com o dançarino do ventre Netto, um dos poucos brasileiros neste estilo. A noite segue com a dupla Rogério Mendonza e Sarah Palhares (RJ), um dos destaques na dança de salão do País. Eles prometem trazer a melhor de suas coreografias, intitulada Bailadora. Já a Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul (RS), vem com duas coreografias: Barbapapas, do premiado Mário Nascimento, e Instar, de Ney Moraes, solo com a pernambucana Giovana Targino.

   Uma das duplas mais conceituadas, atualmente, do balé clássico nacional, Fernanda Manoel e Welton Nascimbene, de SP, também dão uma mostra de seu trabalho hoje. “Apresentamos a mesma coreografia, um trecho de Dom Quixote, no Festival de Garanhuns. O público pernambucano é muito especial e caloroso. Todas as nossas apresentações lotam”, diz Welton.

   O resto da programação segue estável e com um bom nível. Destaque para Priscilla Yokoi e Guilherme de Oliveira (SP), a Vórtice Cia. de Dança (MG), e a Carolemos Dançarte (PE). “Estou muito feliz, porque estamos trabalhando com um novo grupo. Alguns bailarinos dos nossos melhores bailarinos, como Ricardo Almeida e Ivaldo Mendonça, seguiram carreira fora”, explica a coreógrafa Carol Lemos. O grupo apresenta trecho de La Fille Mal Gardée.

NA RUA – A mostra também promove apresentações populares, com entrada franca, no Teatro Camará, em Camaragibe. As apresentações acontecem sábado e domingo, também às 19h. Vinte companhias se apresentam no local.

(© Jornal do Commercio-PE)


Prefeitura trabalha para realizar o 8º Festival até setembro

JANAÍNA LIMA

   Vai ter festival ou não vai ter festival? A pergunta mais ouvida nas academias da cidade é essa. Embora todos festejem a realização da Mostra Nacional de Dança, que estréia hoje, muita gente ainda torce para que a tradição do Festival de Dança do Recife não seja quebrada e que a oitava edição aconteça de fato este ano.

   Por enquanto, vale a pena manter as esperanças. A Prefeitura do Recife ainda não tem todo o dinheiro necessário para a mostra, mas corre atrás dos patrocinadores (empresas estatais e privadas). “A negociação está bem encaminhada. Visitamos várias empresas e, até meados de agosto, teremos as respostas dos apoios e patrocínios”, anuncia Jucy Monteiro, produtora executiva e de captação de recursos da PCR. O mínimo para realizar o evento é o mesmo gasto em 2002, R$ 200 mil.

   Se a programação informada pela produtora for cumprida, o festival ocorre até o fim de setembro, menos de dois meses antes da mostra de teatro, que ocorre em novembro.

   Um coisa é certa, pelo menos: o festival de dança terá que, obrigatoriamente, ganhar uma nova cara. Dar um passo a frente, até para não repetir o mesmo formato da nova Mostra Nacional de Dança, que une grupos locais e de outros Estados, como sempre fez o festival.

   Teremos então espaço para um evento mais seletivo, com espetáculos inteiros e mais espaço para o experimentalismo. A cidade ganharia com dois eventos em vez de um, isso é indiscutível.

(© Jornal do Commercio-PE)

‘Retirantes’ da dança no rumo da fama

 

Falta de apoio leva bailarinos pernambucanos a deixar o Estado para integrar grandes companhias nacionais e do exterior

GEISA AGRICIO
Especial para o JC

   Pernambuco é conhecido como nascedouro de grandes talentos culturais: música, teatro, artes plásticas... esferas da arte que exportaram profissionais que, de certa forma, foram obrigados a partir para terras mais ‘férteis’ em busca de reconhecimento. Entretanto, pouco se sabe que nas últimas duas décadas a dança pernambucana evoluiu consideravelmente e se tornou uma fonte de excelentes bailarinos, aptos a integrar grandes companhias do Brasil ou mesmo de fora do País, apesar de não oferecer estrutura para o desenvolvimento desses talentos locais.

   Os ‘retirantes’ da dança pernambucana ampliam suas carreiras nos mais importantes grupos do País e conquistam espaço pelo potencial técnico, ainda que bruto, e pelo diferencial de suas raízes culturais. A dança pernambucana tornou-se referência nos mais variados estilos pelos artistas projetados do clássico ao moderno, do erudito ao popular.

   Muitos são os casos de pernambucanos bem-projetados no cenário nacional de dança. Andréa Anhaia dança na companhia mineira Primeiro Ato, Jorge Garcia e Tutto Gomes estão no Balé da Cidade de São Paulo, Henrique Lima faz parte do elenco do balé Cisne Negro(SP), Luiz Roberto Silva é maitre do Balé de Diadema (SP) e Deilson Melo integra a companhia Deborah Colker. Outros nomes despontam no exterior: Gustavo Oliveira dança numa companhia de Lisboa e atualmente está em temporada na Itália, Marcelo Athaíde e Michele Pereira trabalham na França, Robert Brant atua na Alemanha, Carlos Lacerda é solista de um grupo inglês e Marcelo Pereira prepara-se para retornar a Nova Iorque.

   Alguns talentos foram descobertos por grandes coreógrafos. Flávio Salamank, destaque do Stúdio de Danças de Ruth Rosembaun, foi convidado por Priscila Yokoi, uma das principais bailarinas clássicas do País, para uma audição em São Paulo. A proposta surgiu durante a edição de 2002 do Festival Nacional de Dança do Recife e pouco tempo depois veio o convite para um estágio na Alemanha. Hoje, o pernambucano é solista da companhia do Teatro de Karlsruhe.

   Andréa Anhaia conquistou espaço pela persistência. Apesar de Suely Machado, diretora do Primeiro Ato ter vindo ao Recife, em 2001, para selecionar um novo integrante numa audição somente para homens, Andréa insistiu em participar. “Depois que a vi dançando não consegui mais prestar atenção em nenhum dos meninos, ela preenchia tudo que eu buscava com sua diferencial formação popular”, afirma a diretora.

   Dielson Melo, com apenas 18 anos, foi descoberto por Deborah Colker em sua passagem pelo Recife em 2002. O jovem conheceu a coreógrafa carioca em uma aula numa sexta-feira e na segunda já estava de partida para o Rio de Janeiro. Hoje, já faz parte do elenco principal da companhia que é uma das maiores referências da dança nacional, e tem turnês previstas nos EUA, França, Inglaterra e Alemanha.

   “Vi no Dielson, duas qualidades fundamentais que são características dos pernambucanos: o talento aliado ao potencial físico e a energia que dedica ao que acredita”, conta Deborah Colker que acredita na qualidade da dança pernambucana e espera que com o tempo receba o mesmo crédito de outras esferas da arte, como a música.

   AVENTUREIROS – Além da sorte de ser descoberto por profissionais de primeiro escalão, bailarinos partiram para experiências fora do Estado em busca de uma formação profissional mais aprofundada, independentemente de existir uma oportunidade objetiva. Alguns fizeram biscates para se sustentar e tentar dançar ao mesmo tempo, outros estudavam enquanto faziam parte de grupos estilizados de ritmos brasileiros.

   Cristiana Cavalcanti, que atualmente vive no Rio de Janeiro, e Maria Paula, diretora e coreógrafa do Grupo Grial, tiveram experiência profissional na Europa graças às turnês do Balé Popular do Recife em meados da década de 80 e acharam conveniente ficar por lá. Maria Paula apaixonou-se pelo iluminador durante a temporada na França e optou por seguir carreira na França. Luiz Roberto Silva, do Balé de Diadema, viveu como clandestino nos EUA, depois de uma turnê com o balé do Teatro Castro Alves (BA).

   Apesar das dificuldades que possam surgir, uma oportunidade de trabalhar fora do Estado é sempre vista como a única saída para a consagração profissional. Todos sonham em integrar companhias consagradas ou estudar no exterior, e aqueles que conseguem, dificilmente voltam.

(© Jornal do Commercio-PE)


O esforço para ficar na terra natal é grande, mas esbarra na falta de apoio

   Marcelo Pereira, da companhia Jennifer Muller The Works e do Metropolitan Opera Ballet de Nova Iorque, voltou ao Recife há três anos, chegou a fundar uma companhia própria, a Zen Companhia de Dança, mas pela falta de incentivos pretende voltar para seus compromissos nos EUA, em outubro. O bailarino, que em 1985 partiu para a profissionalização em São Paulo, no Balé Estagium, já passou pela Alemanha, Islândia, Itália, Canadá, Suíça e Japão e mesmo encerrando as atividades na cidade abre caminho para novos talentos, levando consigo Fábio Costa e Ana Elizabeth, integrantes do Zen.

   “É impossível se profissionalizar e atingir um bom nível de trabalho, isso sem falar no retorno financeiro, em Pernambuco. Não há apoio das instituições governamentais para o desenvolvimento da dança no Estado. Não existe uma única companhia ou escola profissional subsidiada e não há como permear um mercado tão restrito com artistas despreparados, por isso nossa única opção é sair” explica Tutto Gomes, que agora está satisfeito com os projetos do Balé da Cidade de São Paulo ao lado de Ohat Naharin, diretor do Batfhiva de Israel um dos maiores coréografos do mundo.

   Tutto, diz ainda, que assim como ele, todos os bailarinos que vivem histórias parecidas com a sua desejariam atuar em Pernambuco. Desejo que vai além do respeito ao desenvolvimento dos trabalhos feitos no Estado, mas também pela ânsia de poder viver em sua terra natal. Os bailarinos, entretanto, para atingir uma repercussão nacional sentem a necessidade de passar por experiências em companhias profissionais, que não se encontram no Brasil. Os que já estão consagrados anseiam uma oportunidade consolidada para que possam transmitir o know-how adquirido para novos talentos.

   Algumas cidades possuem escolas ou companhias municipais que proporcionam estruturas de profissionalização para jovens que pretendem seguir carreira. Além das famosas companhias como o Balé da Cidade de São Paulo, Balé Municipal do Rio de Janeiro, ou o Balé do Teatro Castro Alves, de Salvador, cidades com menor reconhecimento nacional de produção artística obtém instituição estatal como João Pessoa, Fortaleza ou Manaus.

   Além disso, os grupos que surgem espontaneamente no Estado, ainda sem condições de oferecer estrutura profissional, mesmo executando um trabalho que conquiste destaque nacional não contam com investimentos da iniciativa privada ou mesmo abertura de mercado. A inexistência de uma conjuntura que permita estabilidade para os bailarinos será ainda determinante para a saída dos talentos pernambucanos.

(© Jornal do Commercio-PE)

 

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