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Neta de Lampião prepara filme sobre cangaço

01/08/2003

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião
 

Vera Ferreira resgata fotos inéditas e diz que quer combater "absurdos" ditos sobre o cangaço e seus avôs, Lampião e Maria Bonita

   São Paulo - Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita, está preparando roteiro de longa-metragem sobre a vida de seus avós. O projeto, que será dirigido por Wolney Oliveira, autor de Milagre em Juazeiro, apresentará 24 fotos inéditas de Lampião e bando, realizadas nos anos 30, pelo mascate Benjamin Abrahão Butto e pertencentes ao acervo da Aba Filmes, do Ceará. Ricardo Albuquerque, neto de Adhemar Albuquerque, fundador da Aba Filmes, está recuperando - em parceria com a Secretaria de Cultura do Ceará - acervo de 85 negativos deixados pelo mascate fotógrafo. O libanês Abrahão, ousado aventureiro, muniu-se de salvo conduto oferecido pelo padre Cícero e esteve com Lampião e seu bando, em 1936. Realizou na ocasião, além de 82 retratos, o filme documental O Rei do Cangaço.

   "Os negativos das fotos feitas por Benjamin Abrahão", conta Albuquerque, "estão totalmente degradados. Mas conseguimos digitalizar novas matrizes a partir de cópias esparsas. Estamos recuperando, com tecnologia avançada, o que sobrou das 82 chapas resultantes de sua incursão ao sertão. Infelizmente, 32 estão irremediavelmente perdidas. Mas 50 estão salvas e 24 delas são inéditas." Todo esse material será integrado ao acervo do Memorial Chico Albuquerque, dedicado ao grande fotógrafo cearense (still de Orson Welles no episódio Jangadeiros, do longa inacabado It´s All True).

   Ricardo Albuquerque somará forças com Vera Ferreira e Wolney Oliveira para dar maior difusão e visibilidade ao material. Há seis anos a neta de Lampião prepara o roteiro do longa-metragem, que terá nas fotos de Benjamin Abrahão uma de suas fontes. "Nosso filme somará documentário e ficção e será fiel aos fatos históricos", promete. Vera garante estar "cansada dos absurdos que se somam nos filmes brasileiros dedicados ao tema do cangaço". Co-autora do livro De Virgulino a Lampião (com Amaury Correia Araújo), ela questiona as pesquisas de Frederico Pernambucano de Mello, base do longa Baile Perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas/1997). "Tenho dezenas de depoimentos de cangaceiros e cangaceiras que estiveram com meu avô no sertão. Todos testemunham que bebiam cachaça (ou cerveja, ou lambidinha) e não uísque White Horse, como apregoa Frederico." E mais: "Ninguém se perfumava com a fragrância francesa Fleur d´ Amour, nem Lampião carregava máquina de escrever", protesta. "Com essas idéias, Frederico transforma meus avós em figuras aburguesadas, esquecendo que, 80 anos atrás, no sertão do Nordeste, as coisas eram muito difíceis, em especial para quem vivia fugindo da polícia. Se eles beberam White Horse e se perfumaram com Fleur d´Amour no dia em que foram filmados por Abrahão, isto constitui algo excepcional. O mascate levou o uísque e o perfume para aquela ocasião específica. No dia-a-dia, a vida era dura para meus avós e os cangaceiros. Nunca foi um baile perfumado."

   O filme de Wolney e Vera terá o livro De Virgulino a Lampião como base. "Queremos mostrar que Lampião, Maria Bonita e os cangaceiros que estiveram com ele não brotaram do nada. Meu avó nasceu Virgulino, depois virou Lampião. E não foi ele quem inventou o cangaço." Eles trabalham com nome provisório (De Virgulino a Lampião) e aguardam apoios financeiros, via leis de incentivo, na Bucanero Produções, empresa com sede em Fortaleza, no Ceará. Interessados devem contatar a produção pelo e-mail bucanero@fortalnet.com.br ou pelo tel: (0--85) 219-1457. (Maria do Rosário Caetano)

(© estadao.com.br)


Missa lembra os 65 anos da morte de Lampião

   São Paulo (28.07.2003) - A mesma dificuldade que recentemente enfrentou o governo americano, tendo que mostrar as fotografias dos filhos de Sadam Hussein mortos para comprovar seu desaparecimento, a polícia alagoana teve em 28 de julho de 1938 - há exatos 65 anos - para provar a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938), mais célebre bandido brasileiro. Mortos às margens do riacho de Angico, na fazenda do mesmo nome em Poço Redondo (SE), Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros tiveram as cabeças cortadas para provar aos sertanejos incrédulos sua morte.

   É que Lampião, amigo pessoal do Padre Cícero Romão Batista, gozava da fama de ter o "corpo fechado", no qual não entrava punhal nem balas de fuzil ou revólver. Não era à toa a fama. O pernambucano Lampião enfrentava há 20 anos - em alguns casos com retumbantes vitórias - as polícias militares e os civis contratados, chamados de cachimbos, de sete Estados nordestinos, conseguindo escapar de um esforço concentrado para matá-lo ou capturá-lo.

   As cabeças acabaram expostas em Maceió e outras capitais nordestinas. Só não foram levadas para o Rio, capital federal da época, porque houve uma resistência de intelectuais e de jornais, inclusive o Estado, contra a idéia de uma exposição, considerada um acinte à civilidade e inteligência dos brasileiros.

   De qualquer maneira, o assassinato de Lampião e parte do bando pela volante (grupo de policiais que perseguiam os bandoleiros na caatinga) do então tenente da PM alagoana João Bezerra causou um grande impacto no País e até no Exterior. O bandoleiro havia sido notícia em prestigiados veículos de imprensa como o The New York Times e o Paris Soleil. O "corpo fechado´, entrentanto, não resistiu aos tiros de fuzil e às balas das três metralhadores Hotchkiss levadas pelos soldados da volante.

   A morte do bandoleiro levou, menos de dois anos depois, à extinção do chamado cangaço independente - que não obedecia a nenhum coronel - Em 5 de maio de 1940, a volante do tenente José Rufino, o homem que mais matou cangaceiros, eliminava José Cristino da Silva Cleto, o Corisco, lugar-tenente de Lampião, que queria fazê-lo seu sucessor no comando do bando.

Missa

   O epílogo desse grande drama sertanejo será lembrado hoje com uma missa na grota de Angico, ao lado das pedras sobre as quais os cangaceiros armavam suas tordas (barracas) e onde há duas cruzes que lembram o combate. Entre os militares, foi morto na ocasião do último combate o soldado Adrião Pedro da Silva e ficou ferido o comandante João Bezerra. A filha de Lampião, Expedita Ferreira, que vive em Aracaju, e a neta, Vera Ferreira, participarão do ato, assim como o principal biógrafo de Lampião, Antonio Amaury Côrrea de Araújo. No fim de semana houve um seminário para lembrar a trajetória do bandoleiro e a história do cangaço. (Moacir Assunção)

(© estadao.com.br)

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