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01/08/2003
SILVANA ARANTES A mulher espera na calçada o ônibus que não vem. Usa cabelos presos, saia comprida, blusa sem decote. O homem atravessa a rua, cola a boca ao seu ouvido e sussura: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão". Ele veste uma camisa do Ibis, o time de futebol que fez da derrota sua marca distintiva. Trata-se de Cláudio Assis, 42, pernambucano, diretor de "Amarelo Manga", longa em que essa cena acontece. Ela é a atriz Dira Paes, que interpreta no filme a personagem Kika Canibal. Multiplamente premiado (nos festivais de Brasília, do Ceará e de Berlim, na Alemanha), "Amarelo Manga" -estréia na direção de Assis- será lançado nos cinemas de São Paulo, do Rio e de Recife no próximo dia 15. Se "Amarelo Manga" se encaixasse num escaninho da produção cinematográfica brasileira atual, seria o do "árido movie", produção que vem do Recife, apostando na fórmula de falar do mundo a partir de sua aldeia. Mas o filme tem características incomuns em número suficiente para ser visto como um corpo estranho no panorama geral. Foi filmado com R$ 450 mil, numa época em que o mais barato dos longas-metragens brasileiros custa pelo menos o dobro desse valor, e a média dos orçamentos fica em R$ 3 milhões. A penúria é uma contingência -foi o único dinheiro conseguido, em seis anos de tentativa-, mas também uma atitude em relação ao uso de dinheiro público no cinema nacional (através das leis que autorizam dedução do Imposto de Renda em benefício de projetos culturais). "Num país que não tem escola, não tem saúde, não tem nada, você não pode ficar dando R$ 8 milhões, R$ 10 milhões para um burguesinho falar de suas crises existenciais e passear pelo Brasil. Se é dinheiro do povo, tem que ter respeito", afirma Assis, notório por falar tudo o que lhe vem à cabeça. Inteiramente ambientado na periferia recifense, "Amarelo Manga" enfoca personagens miseráveis -o que é uma tendência da safra mais recente-, mas o faz com uma particularidade: a pobreza não conduz os personagens marginalizados ao crime nem justifica qualquer violência. O filme tampouco pretende que o espectador se apiede dos miseráveis. "[Os pobres] Não são coitados. "Amarelo Manga" mostra que pobre também é ruim. A burguesia não quer matar o pobre? O pobre também, se tiver vez, se deixarem, vai acabar com o rico. É uma luta, uma guerra. O filme não é para ter pena de ninguém. Tem que ter é respeito. O que essas pessoas estão dizendo é para prestarmos atenção nelas, que elas existem. Têm desejos, vontades, querem amar, viver, comer, ter prazer", afirma o diretor. O ponto de vista de "Amarelo Manga" tem o elogio de outros cineastas, como Luiz Fernando Carvalho ("Lavoura Arcaica"), que assistiu à consagradora sessão do longa no Festival de Brasília do ano passado. "Estamos diante de uma nova dramaturgia cinematográfica. É uma escritura que revela novos mundos e, principalmente, novos mundos não-saturados por clichês. É mais um filme sobre os desvalidos do que um filme sobre os nordestinos, especificamente. A dramaturgia é tão forte que transcende o aspecto regional", diz Carvalho. Os personagens de "Amarelo Manga" gravitam em torno do decadente Texas Hotel, onde Dunga (Matheus Nachtergaele) é um cozinheiro apaixonado pelo açougueiro Wellington (Chico Diaz) que, semanalmente, leva uma peça de boi à espelunca. Assis não poupa o público de ver um animal ser abatido e sangrado. "Não é para chocar. O que me levou a fazer dessa maneira foi simplesmente a vontade de contar a vida com sinceridade, ser o mais comum possível. O cara é açougueiro, mata boi, é o trabalho dele", diz. Wellington tem uma mulher fervorosamente evangélica (Paes) e uma amante (Magdale Alves), que é amiga de Dunga. Pelo Texas, circulam, entre outros esquecidos da sorte, um padre que descrê da igreja (Jones Melo), um necrófilo (Jonas Bloch) que suborna Rabecão (Everaldo Pontes), funcionário do Instituto Médico Legal. Ambos frequentam o Bar Avenida, propriedade de Lygia (Leona Cavalli), mulher cansada da eterna repetição dos dias de muito trabalho e pouco prazer. Além do enunciado sobre o pudor e a perversão, dois outros resumirão a vida e o destino dos personagens de "Amarelo Manga": "Só se ama errado" -reflexão de Lygia- e "O ser humano é estômago e sexo", um dos muitos lúcidos devaneios do padre. (© Folha de S. Paulo) Cineasta se expõe em quatro questões DA REPORTAGEM LOCAL Folha - Nordestino, desbocado, defensor da idéia de que há um cinema brasileiro certo e um errado. Você quer ser o novo Glauber Rocha? Cláudio Assis - Não. Não quero ser ninguém
senão eu mesmo. Quero ser reconhecido pelo meu pensamento e pelo que quero fazer. Folha - Você diz que "Amarelo Manga"
denuncia o machismo, mas o filme se serve da nudez das atrizes. Não é incoerente? Folha - Quando cita a luta de classes, você se situa
como um pobre que tolera os burgueses ou como um burguês que compreende os pobres? Folha - Neste mês, você participou, junto com outros
11 cineastas, de um encontro em Brasília com o ministro José Dirceu (Casa Civil). Foi
passar o pires? (© Folha de S. Paulo) Filme une diretor "caótico" e ator "raro" Cláudio Assis e Matheus Nachtergaele falam de seus vínculos com o cinema e com "Amarelo Manga" DA REPORTAGEM LOCAL O amigo está morto. O amor pretendido,
inalcançável. O futuro parece ter a cara da solidão. "Naquela cena, foi uma das únicas vezes na minha vida em que deixei eu mesmo chorar, não o personagem", diz Nachtergaele. A permissão para se emocionar diante da câmera veio da forma como Nachtergaele encarou Dunga. "É um dos meus trabalhos mais honestos", diz o homem que tem seu nome no elenco de 11 longas-metragens brasileiros concluídos nos últimos seis anos. Não quaisquer longas. Depois de despontar como o inflexível guerrilheiro Jonas em "O que É Isso, Companheiro?" (Bruno Barreto, 1997), ele trabalhou com Walter Salles em "Central do Brasil" (1998) e "O Primeiro Dia" (1999), foi o João Grilo em "O Auto da Compadecida" (Guel Arraes, 2000) e o Sandro Cenoura em "Cidade de Deus" (Fernando Meirelles e Katia Lund, 2002). "Tive a sorte grande de ter feito filmes bastante vistos. Os bons trabalhos têm um carisma, uma vocação apreensível. Quando os projetos chegam para mim, alguns se destacam, como se eles tivessem uma alma especial. Ou como se o desejo das pessoas envolvidas no projeto fosse genuíno. Acho que tenho um bom faro para sentir o carisma do projeto." Em "Amarelo Manga", percebeu que
"certo grau de caricatura era importante, mas que também havia no [diretor] Cláudio
[Assis] e no filme uma busca de sinceridade muito grande. Era importante que um depoimento
pessoal estivesse cravado no Dunga". Em nome dessa sinceridade, tentou "dar ao Cláudio a caricatura imaginada no roteiro e, ao mesmo tempo, encontrar brechas". Para que as brechas? "Para exibir um certo desespero meu com relação ao amor, uma certa desconfiança minha na ética das relações amorosas. Tentei deixar alguns pedaços sujos meus aparecerem." Ao presenciar essa manobra, o diretor de fotografia Walter Carvalho pasmou. "Vi com meus olhos e através da câmera, perto dele, essa entrega, essa transformação, essa oferenda que o corpo daquele menino faz diante da câmera", diz Carvalho, para quem observar atores é a mais cotidiana das tarefas. Outro dos nomes constantes na produção brasileira atual, Carvalho é o fotógrafo de filmes tão díspares como "Carandiru", de Hector Babenco, e "Filme de Amor", a mais recente experimentação cinematográfica de Júlio Bressane. O espaço entre esses dois pólos é preenchido por uma extensa lista que inclui "Pequeno Dicionário Amoroso" (Sandra Werneck, 1997), "Abril Despedaçado" (Walter Salles, 2001) "Lavoura Arcaica" (Luiz Fernando Carvalho, 2001) e "Madame Satã" (Karim Aïnouz, 2002). Como diretor, Carvalho realizou o documentário "Janela da Alma" (2001), em parceria com João Jardim, e, neste momento, dirige, junto com Sandra Werneck, o longa "Cazuza - Preciso Dizer que te Amo", baseado na vida do cantor e compositor. É, portanto, uma voz autorizada a que diz: "Matheus Nachtergaele é um ser complexo. Ele não finge como os bons atores. Ele não veste o figurino da sequência tal e fala corretamente o seu texto. Ele faz o contrário. Ele se despe, fica puro diante da câmera e, a partir daí, é dominado pela sua própria imaginação. Um ator raro, de uma espécie em extinção". É também com o conhecimento de quem já
fotografou novelas na TV Globo que Carvalho estabelece a comparação: "Para ver o
contrário disso [a atuação de Nachtergaele], basta ligar a TV na novela. Os meninos
são bonitos, têm os dentes todos perfeitos, os olhos são azuis, a pele é clara, limpa
e doce, mas falta gente ali dentro". Das novelas, Nachtergaele até hoje manteve distância. "Por falta de tempo e também por medo da obra aberta, dessa ganância por ibope, de ficar muito tempo mergulhado numa coisa que você pode não estar gostando." Com essa escolha, acabou realizando a proeza de se tornar um ator popular trabalhando em cinema e teatro e aparecendo na TV apenas em minisséries, como "Hilda Furacão" ou "Os Maias". Agora, prepara-se para "entrar nesse grande abismo das novelas, pelas mãos carinhosas de João Emanuel Carneiro", que desenvolve especialmente para Nachtergaele um papel em futura trama das 19h na TV Globo. Os dois tornaram-se amigos quando participaram de "Central do Brasil", que tem roteiro escrito por Carneiro. Da convivência com Cláudio Assis durante as cinco semanas de filmagens de "Amarelo Manga", Nachtergaele guarda uma lembrança saudosa. "Apesar de algo caótico que o Cláudio carrega, ou talvez por isso, a equipe estava toda contaminada, em estado de arte. É um elogio que faço ao processo dele." O elogio se torna mais eloquente se considerarmos que essa marca "caótica" na personalidade de Assis já lhe valeu desconfianças alheias sobre sua capacidade de realizar um bom filme. Nascido em Caruaru, interior de Pernambucano, Assis se mudou para Recife aos 17 anos de idade. "De certa forma, o Cláudio é um personagem desse filme. Um cara que saiu do interior para o litoral em busca de algo e, no Recife, conviveu com aquele universo [da periferia], morou num hotel semelhante", diz Carvalho. Em Recife, Assis iniciou dois cursos
universitários (economia e comunicação social) e abandonou ambos antes de concluí-los,
por se sentir "totalmente incompatível" com a estrutura da universidade.
"Eu queria fazer coisas, e os professores não deixavam. Eram tapados,
reacionários." Quando prossegue no raciocínio sobre o ensino daquela época, Assis
faz um volteio de pensamento que é típico nele: "Isso é fruto da própria
estrutura. Coitados, eles não têm culpa. E têm também. A gente é burro quando
quer". Com a universidade deixada para trás, Assis meteu-se no cinema. "Político não quero ser jamais na minha vida. Acho que o cinema é uma forma de dizer alguma coisa. Você prende as pessoas numa sala escura, para ouvir o que você tem a dizer. Por isso não dá pra ficar falando só bobagem." Trabalhou primeiro como assistente das produções que encontrou e, em seguida, dirigiu quatro curtas: "Padre Henrique - Um Crime Político" (1987), "Soneto do Desmantelo Blue" (1993), "Viva o Cinema" (1996) e "Texas Hotel" (1999), este uma preparação para o longa "Amarelo Manga". Apresentado no Festival de Brasília, "Texas Hotel" originou o (até aqui) mais rumoroso episódio na vida do cineasta. Indignado com um comentário depreciativo ao filme, Assis saiu nos tapas com o autor das críticas. Muita gente presenciou a pancadaria, mas o nome preciso do contendor evaporou-se nas memórias. Uns citam um cineasta, outros lembram de outro. Estariam ambos no júri daquele ano. Assis certamente recorda o tal nome, mas finge não lembrar. "O cara falou mal [do filme] porque estava irritado com outras coisas. Veio dar em mim, e eu dei nele. Daí adoraram. Coisa de Cláudio Assis, que diz palavrão no palco, que faz um filme daquele... Mas é péssimo que se lembrem de mim por isso. Não é bom para mim, para o cinema, para ninguém." Em "Amarelo Manga", o cineasta
escolheu ser visto como o homem que sussurra ao ouvido de Dira Paes. "Outro momento
em que eu poderia aparecer é como o cabeleireiro, que pinta tudo de amarelo. Mas não
levo jeito para cabeleireiro. Aí o [roteirista] Hilton Lacerda acabou ficando com esse
papel." (© Folha de S. Paulo) CRÍTICA Cláudio Assis busca a poesia do sórdido JOSÉ GERALDO COUTO "Amarelo Manga" é um filme de uma vitalidade à flor da tela. Sua característica mais marcante é a sensualidade -no sentido mais amplo da palavra, que implica a abertura dos sentidos para tudo o que é vivo. Nos ambientes sórdidos do filme -um hotel caindo aos pedaços, um bar mal frequentado, um açougue, ruas de periferia-, o drama e a comédia humana fervilham sob formas variadas, assim como no lodo do mangue prolifera uma infinidade de seres vivos. A narrativa de "Amarelo Manga" entrelaça inúmeros personagens, todos marginalizados de uma maneira ou de outra, e concede a cada um deles o tempo e a atenção necessários para que se revelem em sua humanidade. A cada momento uma história ganha o primeiro plano. Há, por exemplo, o açougueiro (Chico Diaz) colhido em flagrante adultério pela mulher religiosa (Dira Paes) que concebe uma vingança sangrenta. Ou a soliltária dona de botequim (Leona Cavalli) assediada por um homem estranho, provável traficante (Jonas Bloch), que cruza a cidade num velho Mercedes amarelo. Se o vigor é o que mais chama a atenção em "Amarelo Manga", isso se sustenta graças a um equilíbrio entre contrários. Em primeiro lugar, entre ficção e documentário: os bairros de Recife por onde transitam os personagens não são mero pano de fundo para a ação. Seus ambientes e tipos sociais tomam conta da tela. É quase possível sentir o cheiro de cada esquina. Há um equilíbrio tenso entre o estático (o Texas Hotel, o bar da Lygia) e o móvel (as ruas por onde roda a Mercedes ou perambula a mulher traída). O mais sutil desses jogos de opostos, e o mais profundo e vital, talvez seja o das cores. As predominantes são o vermelho sangue e o amarelo manga. O sangue dos bois abatidos "chama" o sangue da vingança de Kika. O amarelo do púbis de Lígia conduz o Mercedes amarelo do perseguidor. "Amarelo Manga" é também uma história de transfiguração dos papéis do macho e da fêmea -um dos personagens centrais do filme é um travesti (Matheus Nachtergaele). No calor da ação, as mulheres viram machos, os homens se emasculam. Depurados e inseridos numa narrativa mais complexa, os excessos escatológicos que prejudicavam o curta-metragem "Texas Hotel" -uma espécie de rascunho de "Amarelo Manga"- ganham sentido no longa. Alguns dos achados estilísticos do curta, como a câmera que esquadrinha (e acentua) a solidão dos personagens, enxergando-os a partir do teto, estão presentes de novo. Não há como separar o poético do sórdido. Ao entrar para ver "Amarelo Manga", compra-se o pacote todo. É pegar ou largar. Amarelo Manga (© Folha de S. Paulo)
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