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06/08/2003
Quatro filmes do diretor baiano são exibidos em retrospectiva em cartaz no Cinema da Fundação, entre eles o premiado O Rei do Cagaço KLEBER MENDONÇA FILHO De Asa Branca, meu nome é Stelinha, é
Inocência O Superoutro (1989) cantado em Tropicália 2 de Gil e Caetano é o média-metragem do cineasta baiano Edgard Navarro, nunca exibido no Recife. Se levarmos em consideração que Salvador fica a menos de mil quilômetros e o filme é um dos melhores e mais radicais já feitos no Brasil, a lacuna chega a ser incompreensível. Superoutro e mais três filmes do baiano Edgard Navarro serão exibidos hoje à noite como parte de um dos programas (Curtas Extremos) do Olhar Brasil, mostra de curtas e longas que acontece desde sexta no Cinema da Fundação. O quarteto de Navarro é complementado por O Rei do Cagaço (polêmico vencedor do Festival de Super-8 do Recife), Porta de Fogo (o mais acadêmico, sobre o guerrilheiro Carlos Lamarca) e Lin e Katazan (a mais poética ilustração sobre as tensões sociais). É chance rara de ver um tipo diferente de cinema, seja brasileiro ou de fora, na semana em que o longa Amarelo Manga tem pré-estréia no Recife. O longa pernambucano de Cláudio Assis também é repleto de Lins, Catazans e superoutros. Navarro é um confesso admirador do filme. O ineditismo do pós-tropicalista Superoutro e da obra de Navarro em si talvez veja explicação na dificuldade de rotular essa obra. Francamente anárquica, sempre carinhosa para com os personagens e carregada de uma acidez que não aparenta ser fruto de uma intelectualidade raivosa, a visão de mundo de Navarro está situada um pouco à esquerda do que pode ser visto como radical. SEM O N PROVOCADOR Em conversa essa semana num dos intervalos da mostra, o respeitado multiartista Jomard Muniz de Brito lembrou com muito humor que quando O Rei do Cagaço foi premiado no Festival de Cinema Super8 do Recife, em 1978, os jornais locais readaptaram o título do filme para O Rei do Cangaço. Eis um filme que provoca mesmo fora do projetor. Não são comédias, mas são frequentemente engraçados, não são violentos, mas podem ser vistos como agressivos. Na verdade, o público frequentemente reage com ira ou mesmo revolta durante a sessão. Navarro, que está no Recife e irá conversar com o público após a sessão, é figura humana sensível, um autor de mão e cabeça cheias. Trabalha na pós-produção do seu longa - Eu Me Lembro -, seu primeiro filme desde Superoutro, que foi originalmente rodado em Super8, passado para digital três anos atrás e ampliado para 35mm. Ele diz que não é possível contar com a unanimidade do público. Acontece de pessoas abandonarem a projeção por acharem algo insuportável, ou que o filme deveria pegar mais leve, mas isso faz parte. Obviamente, fico feliz ao ver que meus filmes encontram eco em algumas pessoas, e eles encontram. Sinceramente, não sou um bom diretor de cinema. Sou um poeta, o cinema é apenas uma maneira de me expressar. O outro cineasta homenageado pelo Cinema da Fundação na mostra Olhar Brasil é Allan Sieber, que já tem uma quase dezena de filmes realizados de forma barata e independente desde que o seu controvertido Deus é Pai. (© Jornal do Commercio-Pe)
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