Notícias
Uma crítica definitiva sobre Manuel Bandeira

14/09/2003

Ivan Junqueira produziu uma obra original a respeito de Bandeira partindo de uma idéia simples   Fernando Rabelo/Divulgação


'Testamento de Pasárgada', de 1981, de Ivan Junqueira, tem segunda edição

JOSÉ NÊUMANNE

  Nos últimos tempos, o vezo estruturalista confinou a crítica literária a guetos onde o prazer da leitura virou um pecado capital, a qualidade do texto passou a ser um anátema e a vaidade do comentarista anula o esforço que o autor fizer para seduzir o leitor, a ponto de a crítica se tornar um fim em si e a obra literária, apenas um pretexto. Escrever mal e, às vezes, em vernáculo capenga deixou de ser alvo de crítica e passou a ser objeto de veneração: temos assistido a torneios sobre quem é pior e, por isso, mais endeusado: o escritor da moda ou o crítico da ocasião. Ou, então, o que não dá para saber se menos ruim é o livro-mercadoria nas gôndolas das lojas de conveniência e na colunata das magras editorias especializadas na imprensa ou sua fortuna crítica. Nessa adoração do mercado cabe um capítulo especial sobre as antologias feitas de afogadilho, muitas vezes tumultuando mais que esclarecendo ou informando.

   Nesse ambiente em que falta clareza e sobra oportunismo, nada poderia ser mais salutar que uma dose de crítica bem escrita a respeito de um autor de gênio indiscutível, de preferência dando exemplos didáticos da abordagem com a reprodução das obras mais significativas deste. Se tem sido difícil publicar originais que reúnam essas qualidades, por que não reeditar algum exemplo bem-acabado desse antídoto para o veneno da obscuridade oportunista?

   Felicíssima foi, portanto, a decisão tomada pela Academia Brasileira de Letras de co-editar com a Editora Nova Fronteira a antologia publicada originalmente há 22 anos pela mesma casa editorial do poeta pernambucano Manuel Bandeira organizada e comentada por seu colega carioca Ivan Junqueira. Testamento de Pasárgada (352 págs., R$ 42) é um livro capital da crítica literária e uma antologia singular que deveria há muito ter sido adotada como livro-texto em escolas públicas, se nossa burocracia na educação não estivesse mais empenhada em inocular a produção literária nacional com a própria mediocridade.

   Mais que uma rima - Como quase todo bom livro, este partiu de uma idéia simples. O acadêmico Ivan Junqueira resolveu fazer uma antologia da poesia de Bandeira, mas se recusou à rotina simplificadora da organização cronológica. Ele elegeu os temas favoritos ("O Menino Doente", "O Amor e As Mulheres", "Silêncio e Solidão da Noite", "O Beco", "A Face Oculta", "A Vida Que Poderia Ter Sido", etc.) e os reuniu às "Influências e Confluências", às técnicas formais ("Ritmo Dissoluto", "Libertinagem e Verso Livre", "A Música da Poesia", etc.) e à própria biografia de Bandeira para apresentar didaticamente ao leitor a obra daquele que foi considerado o "maior dos poetas menores" do Brasil. A simples enumeração desses títulos já dá ao leitor uma noção da amplitude da obra, modesta só na aparência, e também da integração existente entre o crítico, assumindo o papel de leitor, e o autor, que não é dissecado como uma ave empalhada, mas como um organismo vivo e palpitante - a obra sobrevivendo ao passamento do artista.

   Tradutor de T. S. Eliot, crítico de escola, poeta dos melhores, Junqueira descobre em Bandeira um irmão de opa mais velho e ilustre. É claro que quem procurar vai achar algum pêlo no ovo posto em pé, mas, pode crer, leitor atento, isso será mais motivado pela inveja incontida que por algum excesso de rigor crítico. Junqueira compreende Bandeira e isso é muito mais que uma rima e menos fácil de achar na crítica do que se acha e seria desejável. Na seleção da temática em que ele reparte a obra do colega sem, contudo, esquartejá-la, na escolha dos poemas para ilustrar o método e também nos pequenos estudos críticos com que os introduz, perpassa uma profunda empatia, uma gostosa cumplicidade e ainda um respeito imenso pela cultura, pela habilidade e pela simplicidade do mestre e tema. Mas esse respeito não é reverencial nem muito menos religioso: apenas a inevitável vênia agradecendo pela revelação da beleza e da sabedoria.

   Junqueira mostra, sem pompa, que o magro Bandeira era um falso simples: a simplicidade aparente de seus poemas era fruto de um conhecimento profundo da arte poética. Bandeira faz isso sem ser pedante e, o que é melhor ainda, Junqueira assume essa humildade ao se dispor a comentar e apresentar aquele que foi um dos maiores poetas brasileiros do século 20, senão o maior, reconhecendo e expondo seus méritos. Como reconheceu outro grande crítico, o mestre Wilson Martins, à época do lançamento, "Ivan Junqueira escreveu, um pouco sem querer, o melhor ensaio global de interpretação e análise até agora existente sobre o grande 'poeta menor' e propôs os parâmetros definitivos dentro dos quais sua obra deverá ser julgada e compreendida daqui para o futuro".

   Manuel Bandeira, sempre avesso à pompa e à circunstância (Paulo Autran conta, em seu espetáculo teatral Quadrante, uma deliciosa anedota, em que o poeta aplaudiu a exclamação pomposa feita pelo amigo Mário de Andrade, mas negou ter imaginado o poema declamado da forma como este o fez), sorri, agradece e diz até logo.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do 'Jornal da Tarde'

(© O Estado de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


Google
Web Nordesteweb