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Com o pedal na estrada

14/09/2003

Wagner Moura, o faz-tudo do cinema nacional, vive na tela a história verídica de Cícero Ferreira Dias


Família de retirantes nordestinos percorre o País de bicicleta cantando músicas de Roberto Carlos, em aventura carola de Vicente Amorim

KLEBER MENDONÇA FILHO

   A julgar pela família de alegres deslocados de O Caminho das Nuvens (Brasil, 2003), filme de Vicente Amorim, o Brasil é um País inóspito para o seu próprio povo. Acompanhamos a história real de uma família nordestina que perambulou pelo Brasil de bicicleta à procura de dias melhores, de um lugar melhor. Não deixa de ser notável, no entanto, o interesse do filme de transformar saga tão claramente triste e cheia de injustiça numa grande aventura sem fim ou conclusão, seja ela dramática, humana ou política. Esta fábula carola tem lançamento nacional hoje (ver Roteiro, no Em Cartaz, páginas 4 e 5).

   O nosso cinema tem uma certa tradição de filmar deslocamentos guiados pela fome, fé ou insatisfação política. O jangadeiro Jacaré foi do Ceará ao Rio em É Tudo Verdade (It´s All True, 1942), de Orson Welles, exigir seus direitos. O Pagador de Promessas (1961), de Anselmo Duarte, Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues, também parecem nos trazer para o mesmo tipo de inadequação móvel vista em O Caminho das Nuvens.

   Aliás, mesmo tipo de inadequação vírgula. O filme realmente é um road-movie (filme de estrada) sobre brasileiros à procura de vidas melhores. No entanto, Amorim parece mais interessado em fazer disso uma alegre aventura familiar, algo que ele faz com certa competência no filmar, fechando no rosto dos atores e abrindo para as paisagens.

   Na primeira hora, a metade potencialmente promissora de qualquer filme, ele constrói algum charme e identificação com seus personagens ao estabelecer Wagner Moura (sempre competente e que também viajou pelo País no nosso mais recente “road-movie” alegrinho, Deus é Brasileiro) como Romão, pai de família à frente de um clã composto pela esposa Rose (Cláudia Abreu, firme) e cinco filhos, o mais velho sendo Ravi Ramos Lacerda, que fez Abril Despedaçado, de Walter Salles. As crianças estão ótimas no filme.

   Como a Família Von Trapp de A Noviça Rebelde, eles têm inclinação para o canto e fazem apresentações relâmpago na estrada entoando alguns dos maiores sucessos de Roberto Carlos, As curvas da Estrada de Santos sendo a mais destacada. São doces essas cenas sem que resultem em algo terrivelmente piegas. Ganham trocados que serão gastos em comida e câmaras de ar para as bicicletas. Como no igualmente subsidiado pela Petrobras Deus É Brasileiro, descansam em sofisticados postos BR, mas desta vez utilizam os postos como cidadãos marginalizados, dormem pelas beiras.

   Geograficamente, estão desnorteados. Saem da Paraíba rumo à meca do turismo religioso no Nordeste, Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, onde veneram a sua estátua. Ao passarem fome lá, percebem que talvez a meta agora seja uma outra estátua, num outro ponto turístico brasileiro, este até mais alto e imponente: o Cristo Redentor do Corcovado, que vara as nuvens, imagem fetiche do filme e que está também no título e cartaz.

   Seria O Caminho das Nuvens simplesmente o que é, a já referida aventura familiar com ecos de um deslumbre percebido no outro trabalho de Amorim, o documentário 2000 Nordestes? Ou uma parábola irônica para com os valores conformistas de todo um povo, a sua fé que parece crescer maior e maior a cada nova dificuldade, em enfoque que deixaria Glauber Rocha apoplético de raiva?

   Se for o caso a primeira opção, a conclusão, quando o filme já se revela exausto e com a língua de fora na sua viagem narrativa, é um horror, sendo o Corcovado o ponto final de uma viagem religiosa que os leva para perto de Deus, mas sem muito mais no sentido de uma vida digna, marcada por teto, chão, comida e educação para as crianças. Os embasbacantes planos digitais de nuvens que encerram o filme talvez nos digam que Amorim está mesmo falando sério, sendo a sua mensagem dolorosamente carola. O brasileiro, afinal de contas, não vive de algodões no céu azul.

   Se for o caso a segunda opção, temos em mãos uma obra realmente crítica, que tece comentário dos mais duros sobre um povo que realmente existe nesse País, e que nele está perdido, à deriva. Nessa dúvida talvez exista um filme de interesse.

(© Jornal do Commercio-PE)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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