Notícias
Villela rege teatro da liberdade no sertão de Mossoró

14/09/2003

"Uma festa folclórica está se desdobrando em teatro", diz o diretor   Robson Carvalho/Divulgação


Diretor mineiro cria espetáculo com 86 artistas locais em arena para 5,6 mil espectadores

BETH NÉSPOLI

  MOSSORÓ - Passa um pouco das 20 horas. Céu estrelado, Lua quase cheia. Um vento morno sopra na imensa arena (21 metros de diâmetro) a céu aberto onde o diretor mineiro Gabriel Villela ensaia o Auto da Liberdade, um grande espetáculo popular com estréia prevista para o dia 26. No elenco, 61 atores e 25 bailarinos, todos da cidade. O espetáculo será apresentado numa arena a céu aberto, com arquibancadas inspiradas no teatro grego, construída especialmente para a ocasião, com capacidade para 5,8 mil pessoas e equipada com a mais moderna tecnologia de som e iluminação. Tudo sob o comando de Villela, e sua equipe técnica, à convite da prefeitura local.

   Entre os jovens que aguardam o início do ensaio, está Luciana Lima, de 19 anos. "Nunca fui a São Paulo, mas conheço muito de ouvir meu pai falar", comenta. "Ele diz que os paulistas chamam todos os nordestinos de baianos. E pensam que Mossoró é um sitiozinho qualquer, com casas iluminadas por lamparinas." Exageros à parte, o Brasil não conhece mesmo o Brasil. Neste momento, certamente, Mossoró abriga um movimento teatral intenso e original de desdobramentos imprevisíveis.

   Há cerca de 50 anos, todos os anos, a cidade realiza um cortejo, envolvendo cerca de 8 mil pessoas, sempre no dia 30 de setembro, o Auto da Liberdade, no qual o povo celebra quatro momentos históricos - motim da mulheres; primeiro voto feminino; a libertação dos escravos e a resistência a Lampião.

   O motim teria ocorrido no dia 4 de setembro de 1875, quando cerca de 300 mulheres, batendo panelas, reagiram contra o alistamento militar obrigatório de seus filhos e rasgaram convocações em praça pública.

   Professora e 'juíza de futebol', Celina Guimarães teria sido a primeira mulher do Brasil a receber autorização judicial para votar, em 1927. No mesmo ano, Mossoró teria posto Lampião e seu bando para correr. E a libertação dos escravos ocorreu no dia 30 de setembro de 1883, cinco anos antes da Lei Áurea. Essas quatro lutas são relembradas nesse cortejo coral, com ajuda de figurinos e adereços, cantos e coreografias. Há alguma polêmica em torno da veracidade desses fatos. Mas uma coisa é certa. Tais histórias já impregnaram o imaginário coletivo de Mossoró. E o poder público decidiu investir no potencial de representação desse imaginário.

   Há cinco anos, o diretor Amir Haddad foi chamado para dirigir o Auto da Liberdade. Depois dele, foi a vez de Fernando Bicudo. Ambos dirigiram o espetáculo por dois anos seguidos. Agora é a vez de Villela. "Aqui uma festa folclórica está se desdobrando em teatro", observa Gabriel Villela. Na verdade, cortejo e teatro já se tornaram duas coisas distintas. O cortejo ocorre no dia 30. O Auto da Liberdade será apresentado, com duas sessões diárias, entre os dias 26 e 29, sempre com entrada grátis.

   "A cena aqui está em plena ebulição. A cabeça do cortejo sofre uma espécie de metástase e deriva em teatro. Tentei me colocar a serviço dessa transformação, incorporando à minha concepção essa idéia de passagem do ditirambo para o teatro, da intuição para a organização, do dionisíaco para o apolíneo", diz Villela.

   Começa o ensaio. Está lá o coro grego - na interpretação intensa e verdadeira dos atores. Num dado momento, quando o tema explorado é a libertação dos escravos, os corpos desenham na arena uma embarcação movida a remos. Nas vozes alternadas de dois coros, um feminino e outro masculino, ecoa pela arena os versos do poema Navio Negreiro, de Castro Alves. O resultado é impactante e comovente. "Eles não tem dificuldade com movimentos coletivos, por conta de suas quadrilhas", observa Villela.

   "É preciso a trincheira das escolas/Do emprego, da lei e da verdade/A trincheira que dá cidadania/E os cartuchos da pólvora da igualdade/Para poder escrever dia após dia/Mossoró, guardiã da liberdade" - são alguns dos versos do Auto da Liberdade, escrito pelo dramaturgo Crispiniano Neto, aproveitados por Villela em adaptação livre. Os versos ganham a voz de Tony Silva, narradora do espetáculo, atriz local de grande talento e carisma. Ela tem 44 anos, integrou elencos de importantes companhias locais como Grupo Terra, Escarcéu, Nocaute e já foi premiada em outros estados do Nordeste.

   Os adereços e figurinos - 90 máscaras, 325 cintos feitos de barrigueiras de cavalo, 85 saias - estão sendo feitos em Mossoró e inspiram-se na cultura local - areias coloridas nas máscaras, saias feitas com toalhas rendadas, bilros coloridos nas blusas. Na mesa de trabalho de Villela, vários livros de teatro espalhados. "Perdi a conta das fotocópias feitas", diz. Não há dúvida de que a superprodução do Auto da Liberdade provoca efeitos sobre a cena local, sempre no fio da navalha entre sufocá-la ou enriquecê-la. Por enquanto, uma coisa é certa - a cidade tem um belo espetáculo a oferecer ao Nordeste no fim do mês.

(© O Estado de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


Google
Web Nordesteweb