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14/09/2003
Festival em Salvador apresenta filmes de qualidade e convidados importantes LUIZ ZANIN ORICCHIOEm seu 30º aniversário, a Jornada Internacional de Cinema e Vídeo da Bahia, que vai até o dia 18 em Salvador, promete uma edição memorável. Não apenas pela boa seleção de vídeos e filmes que integram as mostras competitivas, como pelos convidados notáveis. Estarão em Salvador o documentarista Jean Rouch, papa francês do cinema direto, e também um dos mais importantes diretores mexicanos, Paul Leduc, autor de filmes como Frida: Natureza Viva e Reed, México Insurgente. Do Brasil, participam Nelson Pereira dos Santos e Sílvio Tendler, entre outros. Tendler, autor de documentários fundamentais da história recente do cinema brasileiro, como Jango e Anos JK, apresenta na Bahia seus mais recentes trabalhos, um sobre Glauber Rocha, outro sobre o geógrafo Milton Santos. Na mostra competitiva, veteranos como Carlos Reichenbach, Hermano Penna e Renato Tapajós apresentam seus filmes mais recentes. Reichenbach traz Equilíbrio e Graça, Tapajós (em parceria com Toni Venturi), No Olho do Furacão, e Hermano Penna, Nhô Caboclo. Outros cineastas apresentam filmes já testados em outros festivais, como o excelente O Resto É Silêncio, de Paulo Halm, e Hansen Bahia, de Joel de Almeida. O primeiro coloca como protagonistas atores surdos-mudos num filme sensível e cheio de senso de humor. O segundo fala do artista plástico alemão, que chegou a Salvador, apaixonou-se de tal forma pela cidade que nunca mais saiu, e incorporou a Bahia à sua alma e ao seu nome artístico. Esses são os conhecidos. Mas, claro, a Jornada, desde a sua criação em 1972, tem sido o lugar ideal para as novidades. É nela que se descobre um vídeo ou um curta-metragem de realizador estreante, de quem ninguém tinha ouvido falar até então e pode se revelar um talento em formação. Também é na Jornada que a produção latino-americana aporta com maior regularidade. A queixa é recorrente: no Brasil não se dá atenção ao que é feito nos vizinhos, ou em Cuba, México ou outros países de língua hispânica. Na Jornada, historicamente, esses filmes têm sua hora e vez. E falando em história, incorporou-se à tradição da Jornada a aura da resistência cultural. Criada na fase aguda da ditadura Médici, transformou-se num dos raros foros de debate daquela época de sufoco. Cresceu e manteve essa vocação constestatória, e por isso mesmo seus melhores anos coincidiram com os piores da vida nacional. Depois, com a abertura, outros espaços de discussão foram abertos e a Jornada perdeu a primazia. Mesmo com essa diminuição de espaço no debate público, a Jornada de Cinema da Bahia manteve sua importância no calendário de festivais brasileiros. Importância, diga-se, nem sempre reconhecida, em especial nos últimos anos, com a proliferação de eventos do gênero, mal disfarçadas linhas auxiliares de apoio às Secretarias de Turismo dos locais-sede. O cinema, como outras atividades, tornou-se uma operação de marketing. Mais do que os filmes, valem mesmo é a presença de estrelas e badalações de ordem extracinematográfica. Nesse sentido, talvez até como virtude compensatória por sua pobreza franciscana, a Jornada imunizou-se de tentações mundanas. Manteve um padrão austero de apresentação e discussão de filmes, debates, lançamentos de livros, encontro de realizadores. Paga o preço por isso, com a cobertura pífia que em geral recebe de jornais e TVs. Mas quem ama o cinema sabe dar-lhe o devido valor. (© O Estado de S. Paulo)
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