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Nas telas, o Nordeste pop de Guel Arraes

14/09/2003

Selton faz o aventureiro Leléu no filme, que é inspirado em peça de Osman Lins


   São Paulo - Um Nordeste pop, aquele que vem estampado em pára-choque de caminhão, brega mas não debochado, diferente do Nordeste suburbano que se apresenta na maioria dos filmes nacionais - é com tal colorido que o diretor Guel Arraes identifica seu longa Lisbela e o Prisioneiro, que está em exibição no País. "Trata-se de uma história melodramática, na qual eu tentei quebrar o preconceito contra o kitsch", comenta o cineasta. "Busquei o melhor do mau gosto."

   Inspirado na peça de Osman Lins, Lisbela e o Prisioneiro é uma comédia romântica que conta a história do malandro e aventureiro Leléu (Selton Mello) e da mocinha sonhadora Lisbela (Débora Falabella), apaixonada por filmes americanos. Ela está noiva e de casamento marcado quando Leléu chega à cidade. O casal se encanta, mas sofre pressões da família e do meio social, além de suas próprias dúvidas e hesitações. "É o bastante para o surgimento da versão nordestina de alguns personagens da comédia universal, como os valentões, os sabidos, a fogueteira, etc.", comenta Guel Arraes, que há dez anos está às voltas com o texto de Lisbela.

   Em 1993, ele fez uma adaptação para a televisão e, desde 2001, percorreu diversos teatros do País, encenando o mesmo texto. "As duas primeiras montagens (especial e peça) tiveram uma ótima resposta do público, o que me convenceu a levar a história para o cinema." Trabalhar com a prosódia e o humor nordestino no especial de televisão, aliás, estimulou o diretor a filmar um de seus maiores sucessos, o Auto da Compadecida, inspirado na obra de Ariano Suassuna. "Costumo dizer que, com esses dois trabalhos, virei pernambucano de novo."

   Tom de farsa - Ao apostar no melodramático e no mau gosto, mas sempre preocupado em não cair em exageros, Guel Arraes pediu interpretações especiais de seu elenco. Débora Falabella, por exemplo, no papel de Lisbela, precisou de um tempo de adaptação. "Primeiro, foi o sotaque. O Guel não queria que eu fizesse um nordestino exagerado", conta. Também a atriz Virginia Cavendish necessitou de um período de adaptação pois trocou de personagem - durante os dois anos em que participou da montagem para o teatro, ela viveu o personagem principal. No cinema, porém, Virginia interpretou Inaura, uma mulher casada e sedutora que tenta atrair o herói.

   "Como o universo era o mesmo, não foi tão difícil, mas, ao mesmo tempo, foram fundamentais as reuniões que tive com Guel e o Marco Nanini (que interpreta o valentão e matador Frederico Evandro), pois o personagem no cinema ficou completamente diferente do que foi na peça." Apesar de enaltecer o texto de Osman Lins, Guel Arraes afirma que menos da metade do original inspirou a versão cinematográfica. "Na adaptação para a TV, o tom geral era mais de farsa com algum romance. No cinema, a história virou uma comédia romântica com toques de farsa." (Ubiratan Brasil)

(© estadao.com.br)

Por uma vida menos ordinária

O diretor Guel Arraes volta ao cinema, buscando o equilíbrio entre "divertir e inquietar" o espectador

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

   O ponteiro se aproxima das 11h e o último dos 110 espectadores toma seu assento na sala. Terça-feira, dia 5.

   A platéia (unicamente de jornalistas, raras vezes tão numerosos em sessões desse tipo) irá assistir ao longa "Lisbela e o Prisioneiro", com calculada antecedência à sua estréia comercial, prevista para o dia 22, em 200 cinemas do país.

   A poucos metros dali, num hotel na zona sul paulistana, o diretor espera o fim da projeção, para entrevistar-se com os espectadores. Enquanto aguarda, lê. As páginas (soltas e fotocopiadas) que tem nas mãos são de autoria de Umberto Eco: "É indubitável que, se um romance diverte, obtém o consenso do público. Ora, durante certo período, pensou-se que o consenso fosse um sinal negativo. Se um romance encontra consenso, o encontra porque não diz nada de novo e dá ao público aquilo que ele já esperava.

   "Creio, porém, que não seja a mesma coisa dizer: "Se um romance dá ao leitor aquilo que ele esperava, encontra consenso" e "se um romance encontra consenso, é porque dá ao leitor aquilo que ele esperava". A segunda afirmação nem sempre é verdadeira".

Dilema

   As palavras do escritor italiano delineiam o dilema que persegue o cineasta e homem de televisão Guel Arraes, 49. Leva seu nome o núcleo de produção da TV Globo hoje responsável pelos programas "Casseta & Planeta - Urgente", "Os Normais", "A Grande Família" e por quatro quadros no "Fantástico" -"Homem Objeto", "Brasil Total" e os de Denise Fraga e Chico Anysio.

   São também de Arraes os filmes "O Auto da Compadecida" (2000) e "Caramuru - A Invenção do Brasil" (2001), ambos exibidos antes na TV que no cinema. Esse hibridismo colou na imagem pública do diretor um rótulo elogioso -o de ser autor de uma televisão cinematográfica- e também o seu reverso -o de produzir cinema televisivo.

   Do ponto de vista de Arraes, a questão é uma só: "Há anos que [o cineasta e roteirista] Jorge [Furtado], [a atriz] Regina Casé, [os humoristas do] Casseta & Planeta -um grupo grande da televisão, que é quase um pequeno movimento artístico-, há anos a gente vive nessa tensão que é conquistar o público e inquietá-lo. Às vezes o inquietamos demais, e ele nos abandona. Às vezes o conquistamos demais, e a crítica nos abandona", disse à Folha.

   Arraes gosta de tratar cinema e TV indistintamente. "Tem uma hora em que eles ficam iguais." E afirma que a popularidade da TV brasileira é o ponto de apoio às pretensões do país de desenvolver uma indústria cinematográfica.

   "Temos um produto audiovisual que o público ama ver. Então temos um potencial enorme de público [para o cinema brasileiro]. Sem essa televisão, não seria muito realista pensar que o Brasil deve ter um grande cinema. É um país pobre. Nenhum país com pouco dinheiro tem uma cinematografia pujante. É a televisão que dá o termômetro do que se pode esperar."

Estratégia

   Em "Lisbela e o Prisioneiro", Arraes ajustou a fórmula divertir/inquietar de maneira a não correr risco de afastar o público esperado.

   O roteiro do filme foi feito por ele, em parceria com o cineasta Jorge Furtado ("O Homem que Copiava") e com o ator Pedro Cardoso.

   ""O Homem que Copiava" [lançado em junho passado] e "Lisbela e o Prisioneiro" são duas estratégias parecidas, com pesos diferentes", afirma Arraes.

   "Digo ao Jorge que não sei se ele fez o filme mais popular do mundo de vanguarda, ou se ele fez o filme de vanguarda mais popular do mundo. "Lisbela e o Prisioneiro" tem uma proporção inversa de divertimento para alguma pitada de inquietação."

   As pitadas de inquietação estariam "mais na linguagem do que no conteúdo das idéias".

   Adaptada do texto teatral homônimo de Osman Lins, "Lisbela e o Prisioneiro" é uma comédia romântica com os elementos típicos do gênero: Lisbela (Débora Falabella) está comprometida com um noivo pedante (Bruno Garcia) quando se apaixona pelo sedutor Leléu (Selton Mello).

   Os amantes terão de superar a oposição do pai da moça (André Matos), a perseguição de um bandido (Marco Nanini) e os ciúmes de uma antiga paixão do herói (Virginia Cavendish).

   Arraes entrecortou a história numa narrativa que mescla cenas em tempos imaginários e em ordem cronológica e um desfecho que oferece três possibilidades sucessivas.

   A ação transcorre no Nordeste brasileiro. Aí, o diretor procurou introduzir uma "novidadezinha".

   "Se há um lugar mitológico no cinema brasileiro é o Nordeste. E um Nordeste muito preciso [o do sertão ressecado]. Nosso universo é suburbano, vagamente nos anos 60, porque tenta um idílio ainda possível entre uma cultura local e a industrialização."

   13h30 da terça, dia 5. Arraes se dirige à sala onde o esperam 110 jornalistas. Dispensou o almoço. Contentou-se com frutas. No elevador, comenta: "Em São Paulo, fico meio nervoso. O pessoal costuma ser severo".

   Começa a entrevista. Uma sucessão de perguntas amenas. Como se diria no falar nordestino de "Lisbela", fica a impressão de que o pessoal gostou "bem muito" do filme. Na saída da sala, a pergunta do diretor: "Os críticos estavam aí?". Não, Guel. Não estavam.

(© Folha de S. Paulo, 11.08.2003)


Pesquisa orienta lançamento

DA REPORTAGEM LOCAL

   O inédito "Lisbela e o Prisioneiro" foi visto por cem pessoas, no Rio e em São Paulo, em maio e junho deste ano.

   Eram espectadores requisitados pela empresa MCI - Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional para participar de uma pesquisa que avaliou em minúcias sua reação ao filme.

   Os métodos de pesquisa e análise que foram usados têm origem no mercado de Hollywood, onde a prática de "testar" filmes antes da estréia é corrente.

   "Acho que está na hora de a gente começar a se profissionalizar nesse sentido. Já que o cinema é um investimento tão grande, não se pode ser irresponsável. Você tem de saber que produto tem na mão, para lançá-lo bem", diz Paula Lavigne, produtora de "Lisbela e o Prisioneiro".

   A pesquisa busca identificar o público-alvo do filme e também aspectos que podem ser mais mais atraentes em sua divulgação, como cenas para o trailer.

   A produção do longa consumiu R$ 4,5 milhões e se beneficiou das leis de renúncia fiscal, através das quais o patrocinador destina parte do Imposto de Renda devido para o projeto cultural. Esse valor não inclui o que será gasto na campanha de lançamento.

   Os resultados da pesquisa demonstraram a aprovação de "Lisbela e o Prisioneiro" tanto pelo público habituado a ver filmes brasileiros quanto pelo espectador fiel dos norte-americanos.

   "Essa pesquisa nos deu a segurança da importância que o cinema brasileiro tem neste momento. Tivemos confiança para investir no lançamento, porque o público está aquecido", diz Lavigne. (SA)

(© Folha de S. Paulo, 11.08.2003)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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