O
diretor Guel Arraes volta ao cinema, buscando o equilíbrio entre "divertir e
inquietar" o espectador
SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL
O ponteiro se aproxima das 11h e o último
dos 110 espectadores toma seu assento na sala. Terça-feira, dia 5.
A platéia (unicamente de jornalistas, raras
vezes tão numerosos em sessões desse tipo) irá assistir ao longa "Lisbela e o
Prisioneiro", com calculada antecedência à sua estréia comercial, prevista para o
dia 22, em 200 cinemas do país.
A poucos metros dali, num hotel na zona sul
paulistana, o diretor espera o fim da projeção, para entrevistar-se com os espectadores.
Enquanto aguarda, lê. As páginas (soltas e fotocopiadas) que tem nas mãos são de
autoria de Umberto Eco: "É indubitável que, se um romance diverte, obtém o
consenso do público. Ora, durante certo período, pensou-se que o consenso fosse um sinal
negativo. Se um romance encontra consenso, o encontra porque não diz nada de novo e dá
ao público aquilo que ele já esperava.
"Creio, porém, que não seja a mesma
coisa dizer: "Se um romance dá ao leitor aquilo que ele esperava, encontra
consenso" e "se um romance encontra consenso, é porque dá ao leitor aquilo que
ele esperava". A segunda afirmação nem sempre é verdadeira".
Dilema
As palavras do escritor italiano delineiam o
dilema que persegue o cineasta e homem de televisão Guel Arraes, 49. Leva seu nome o
núcleo de produção da TV Globo hoje responsável pelos programas "Casseta &
Planeta - Urgente", "Os Normais", "A Grande Família" e por
quatro quadros no "Fantástico" -"Homem Objeto", "Brasil
Total" e os de Denise Fraga e Chico Anysio.
São também de Arraes os filmes "O
Auto da Compadecida" (2000) e "Caramuru - A Invenção do Brasil" (2001),
ambos exibidos antes na TV que no cinema. Esse hibridismo colou na imagem pública do
diretor um rótulo elogioso -o de ser autor de uma televisão cinematográfica- e também
o seu reverso -o de produzir cinema televisivo.
Do ponto de vista de Arraes, a questão é
uma só: "Há anos que [o cineasta e roteirista] Jorge [Furtado], [a atriz] Regina
Casé, [os humoristas do] Casseta & Planeta -um grupo grande da televisão, que é
quase um pequeno movimento artístico-, há anos a gente vive nessa tensão que é
conquistar o público e inquietá-lo. Às vezes o inquietamos demais, e ele nos abandona.
Às vezes o conquistamos demais, e a crítica nos abandona", disse à Folha.
Arraes gosta de tratar cinema e TV
indistintamente. "Tem uma hora em que eles ficam iguais." E afirma que a
popularidade da TV brasileira é o ponto de apoio às pretensões do país de desenvolver
uma indústria cinematográfica.
"Temos um produto audiovisual que o
público ama ver. Então temos um potencial enorme de público [para o cinema brasileiro].
Sem essa televisão, não seria muito realista pensar que o Brasil deve ter um grande
cinema. É um país pobre. Nenhum país com pouco dinheiro tem uma cinematografia pujante.
É a televisão que dá o termômetro do que se pode esperar."
Estratégia
Em "Lisbela e o Prisioneiro",
Arraes ajustou a fórmula divertir/inquietar de maneira a não correr risco de afastar o
público esperado.
O roteiro do filme foi feito por ele, em
parceria com o cineasta Jorge Furtado ("O Homem que Copiava") e com o ator Pedro
Cardoso.
""O Homem que Copiava"
[lançado em junho passado] e "Lisbela e o Prisioneiro" são duas estratégias
parecidas, com pesos diferentes", afirma Arraes.
"Digo ao Jorge que não sei se ele fez
o filme mais popular do mundo de vanguarda, ou se ele fez o filme de vanguarda mais
popular do mundo. "Lisbela e o Prisioneiro" tem uma proporção inversa de
divertimento para alguma pitada de inquietação."
As pitadas de inquietação estariam
"mais na linguagem do que no conteúdo das idéias".
Adaptada do texto teatral homônimo de Osman
Lins, "Lisbela e o Prisioneiro" é uma comédia romântica com os elementos
típicos do gênero: Lisbela (Débora Falabella) está comprometida com um noivo pedante
(Bruno Garcia) quando se apaixona pelo sedutor Leléu (Selton Mello).
Os amantes terão de superar a oposição do
pai da moça (André Matos), a perseguição de um bandido (Marco Nanini) e os ciúmes de
uma antiga paixão do herói (Virginia Cavendish).
Arraes entrecortou a história numa
narrativa que mescla cenas em tempos imaginários e em ordem cronológica e um desfecho
que oferece três possibilidades sucessivas.
A ação transcorre no Nordeste brasileiro.
Aí, o diretor procurou introduzir uma "novidadezinha".
"Se há um lugar mitológico no cinema
brasileiro é o Nordeste. E um Nordeste muito preciso [o do sertão ressecado]. Nosso
universo é suburbano, vagamente nos anos 60, porque tenta um idílio ainda possível
entre uma cultura local e a industrialização."
13h30 da terça, dia 5. Arraes se dirige à
sala onde o esperam 110 jornalistas. Dispensou o almoço. Contentou-se com frutas. No
elevador, comenta: "Em São Paulo, fico meio nervoso. O pessoal costuma ser
severo".
Começa a entrevista. Uma sucessão de
perguntas amenas. Como se diria no falar nordestino de "Lisbela", fica a
impressão de que o pessoal gostou "bem muito" do filme. Na saída da sala, a
pergunta do diretor: "Os críticos estavam aí?". Não, Guel. Não estavam.
(© Folha de S. Paulo,
11.08.2003)
Pesquisa orienta lançamento
DA REPORTAGEM LOCAL
O inédito "Lisbela e o
Prisioneiro" foi visto por cem pessoas, no Rio e em São Paulo, em maio e junho deste
ano.
Eram espectadores requisitados pela empresa
MCI - Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional para participar de uma pesquisa
que avaliou em minúcias sua reação ao filme.
Os métodos de pesquisa e análise que foram
usados têm origem no mercado de Hollywood, onde a prática de "testar" filmes
antes da estréia é corrente.
"Acho que está na hora de a gente
começar a se profissionalizar nesse sentido. Já que o cinema é um investimento tão
grande, não se pode ser irresponsável. Você tem de saber que produto tem na mão, para
lançá-lo bem", diz Paula Lavigne, produtora de "Lisbela e o Prisioneiro".
A pesquisa busca identificar o público-alvo
do filme e também aspectos que podem ser mais mais atraentes em sua divulgação, como
cenas para o trailer.
A produção do longa consumiu R$ 4,5
milhões e se beneficiou das leis de renúncia fiscal, através das quais o patrocinador
destina parte do Imposto de Renda devido para o projeto cultural. Esse valor não inclui o
que será gasto na campanha de lançamento.
Os resultados da pesquisa demonstraram a
aprovação de "Lisbela e o Prisioneiro" tanto pelo público habituado a ver
filmes brasileiros quanto pelo espectador fiel dos norte-americanos.
"Essa pesquisa nos deu a segurança da
importância que o cinema brasileiro tem neste momento. Tivemos confiança para investir
no lançamento, porque o público está aquecido", diz Lavigne. (SA)
(© Folha de S. Paulo,
11.08.2003) |