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Fagner e Baleiro, juntos em disco e no futebol

26/09/2003

Um é cearense, o outro, maranhense: afinidades musicais sobrepondo todas as diferenças   J.F.Diório/AE

Dupla protagoniza o inusitado CD 'Raimundo Fagner & Zeca Baleiro'

ADRIANA DEL RÉ

  Os cantores e compositores Zeca Baleiro e Raimundo Fagner são de gerações diferentes. Baleiro, maranhense, faz a linha mais cabeça enquanto o cearense Fagner ganhou fama como artista popular. Dois universos distantes encontraram pontos em comum que acabaram por uni-los. O amor pela música e pelo futebol, por exemplo. Veio então o início de uma amizade, seguido pelas partidas de futebol, pelas composições em parceria, pela pequena turnê juntos por algumas cidades brasileiras e, agora, pelo lançamento do CD Raimundo Fagner & Zeca Baleiro (gravadora Indie Records).

   "O disco nunca foi um projeto, mas acabou virando. Era uma parceria sem pretensão", diz Fagner. "As músicas se impuseram, de forma espontânea", completa Baleiro. A gravação e mixagem foram feitas num estúdio de Fortaleza e Rio, entre os meses de junho e agosto. Àquela altura, nenhuma gravadora ainda estava diretamente envolvida no projeto. "A Indie entrou nos 40 minutos do segundo tempo", brinca o músico maranhense, numa menção puramente futebolística.

   O futebol, aliás, costuma pautar as conversas e o entusiasmo dos dois. É este também o tema de abertura do disco, idealizado pela dupla, junto com Fausto Nilo, antigo parceiro de Fagner. Logo na primeira faixa, Canhoteiro, Fagner e Baleiro cantam alegre a história do jogador maranhense, que jogou no Ceará na década 60, foi para o São Paulo e ainda vive no imaginário de quem conhece bem futebol. Os dois nunca o viram jogar, mas sabem de sua fama de craque. "A gente achou que tinha de colocar uma música que falasse de futebol. Não há nada parecido no meu trabalho", diz Baleiro. "O Fagner teve uma única experiência com isso, que foi a trilha sonora para o filme do Zico, mas foi à parte."

   Raimundo Fagner & Zeca Baleiro poderia ser uma compilação de antigos sucessos de ambos. Mas não é. Segundo os dois músicos, a parceria deles foi tão produtiva que não sobrou espaço para outras composições que não fossem inéditas.

   Há canções de amor, homenagem aos clássicos do brega, samba-choro, entre outros gêneros, de autoria dos dois ou parcerias com outros nomes. Com exceção das inéditas, há uma versão curiosa de uma canção tradicional do século 16, adaptada por Fausto Nilo e que foi transformada na triste Três Irmãos. "Abrimos os shows com essa música. Demos vários retoques nela até chegar a essa versão. Causou estranhamento, mas é bom", conta Zeca Baleiro.

   E Fagner emenda: "É uma música bem forte, tem impacto mesmo."

   Para a dupla, existe sim uma afinidade musical entre eles e esse novo álbum é a prova disso. A começar pelas raízes nordestinas. Até alguns anos atrás, Raimundo Fagner só conhecia Baleiro de ouvir falar. Em 2000, ele decidiu conhecer o trabalho daquele compositor maranhense que tanto falavam e foi a um show dele, no Canecão, no Rio. Um mês depois, Baleiro se apresentou em Fortaleza e lá foi Fagner. Daquela vez, foi conversar pessoalmente com ele e iniciaram uma amizade.

   Com Baleiro, a influência de Fagner vem da adolescência. "Lembro da primeira vez que ouvi Bob Dylan, Luiz Gonzaga, aquilo me pegou em cheio. E assim foi com Fagner", recorda. "Lembro quando ouvi Último Pau-de-Arara, a primeira música dele a tocar na rádio e foi um espanto. Temos muitas distantes, mas as afinidades musicais são tamanhas." A partir de final do outubro, os dois pretendem iniciar um turnê, mais bem estruturada do que aquela experimental, que fizeram por cidades como Salvador, Brasília, Aracaju e São Luís. Desta vez, o eixo Rio-São Paulo estará no roteiro.

(© O Estado de S. Paulo)


Encontro trouxe de volta o talento dos dois autores

O lançamento traz um Fagner superior ao que vem fazendo e o melhor trabalho de Zeca

MAURO DIAS

  Raimundo Fagner e Zeca Baleiro são artistas talentosos e sempre muito atentos ao que consideram, digamos, sensibilidade do mercado. Um olho na arte, um olho no nicho da indústria cultural onde possam florescer. A semelhança está mais nessa atenção do que no fato de serem nordestinos, do Ceará, o primeiro, do Maranhão, o segundo.

   Juntaram-se para produzir, compor e cantar num disco de duo. Podia ser um desastre. Mas Raimundo Fagner & Zeca Baleiro (MZA), não sendo obra-prima, resultou no melhor disco de Raimundo, em muitos anos e, longe, longe, no melhor de todos os de Zeca.

   Fagner chegou à cena abençoado por Nara Leão e Elis Regina, avalizado, ainda, pela turma do velho e influentíssimo Pasquim. Sérgio Ricardo havia criado e lançado, pela editora do Pasquim, um projeto chamado Disco de Bolso. Naquele tempo, discos tinham música nos dois lados. Num lado do Disco de Bolso, um artista famoso apresentava música nova e no outro lado, um artista novo mostrava o talento. No primeiro Disco de Bolso estreou João Bosco, com Tom Jobim apresentando Águas de Março. No segundo e último Disco de Bolso, de 1972, Caetano cantava num lado e Fagner mostrava Mucuripe.

   Gravou um belíssimo disco, Manera, Fru-Fru, Manera, um segundo razoável, um terceiro mais ou menos e no ângulo descendente fez carreira. Chegou a dizer que venderia mais discos do que Roberto Carlos, que marcava 1 milhão de exemplares por cada novo título.

   O aval a Zeca Baleiro foi circunstancialmente mais modesto. Veio de pessoas importantes, mas não muito conhecidas, como as cantora Ceumar e Rita Ribeiro e o compositor, seu parceiro, Chico César. Venceu festivais de música pelo Brasil com a belíssima canção Dindinha (gravada por Ceumar, cujo disco de estréia ele produziu), mas nunca fez um disco própria à altura do talento inegável.

   O encontro melhorou os dois. Como compositores, cantores - Fagner mais contido, Zeca mais à vontade -, idealizadores de climas sonoros. Voltaram a aparecer a ousadia e a criatividade, e emerge das faixas uma certa despreocupação com modismos. Compuseram juntos 8 das 11 faixas - belas canções. Duas são deles com outros parceiros. A restante é uma adaptação de canção tradicional francesa do século 16, por Fausto Nilo. Que o bom resultado possa repetir-se em solos de ambos. Bom para a música.

(© O Estado de S. Paulo)

Química sonora que deu muito certo
Disco feito a quatro mãos revela um Zeca Baleiro mais fluente que o habitual e um Fagner com o frescor dos primeiros tempos

Tárik de Souza

   Dois cantores/autores nordestinos de gerações diferentes, com trajetórias apartadas, unem vozes num projeto comum. O cearense Raimundo Fagner, 53, e o maranhense Zeca Baleiro, 37, dividem 11 faixas do CD da Indie Records que leva o nome de ambos, mas foi produzido (pela dupla) de forma independente no estúdio de Fagner, em Fortaleza. Para a imprensa o disco vem com o single Palavras e silêncios e o respectivo videoclipe, dirigido por Marcos Hermes, em faixa interativa, além de um CD com entrevista onde os dois contam como se desenvolveu a parceria.

   Zeca Baleiro já ouvia Fagner e tinha seus discos. Este foi apresentado àquele através de um amigo comum, o parceiro Sérgio Natureza. ''As primeiras vezes que escutei o Zeca no rádio senti uma afinidade'', lembra Fagner. Quanto às discrepâncias, a dupla prefere o humor. Ambos adeptos e praticantes do futebol, Zeca esvazia a bola de Ronaldinho por não considerá-lo o ''fenômeno'' entronizado pelo parceiro. ''Mas ele teve de engolir'', rebate Fagner, que se distingue de Zeca também no gramado. ''Sou artilheiro e ele armador'', ri. É possível que as funções complementares tenham facilitado a afinidade demonstrada no CD, onde em alguns momentos ''não se sabe onde começa a voz de um e termina a do outro'', constatam.

   O resultado da química (''é uma coisa obscura, não se sabe como acontece'', define Zeca) é um disco homogêneo em que Fagner parece de volta ao frescor dos primeiros tempos de carreira e Zeca menos conceitual que no trajeto solo, mais fluente. A bola já começa a rolar de pé em pé na faixa de abertura, Canhoteiro, homenagem a oito mãos (mais Fausto Nilo e Celso Borges) ao craque maranhense que foi revelado no América do Ceará, jogou pelo São Paulo e chegou à seleção nos 50. ''Ele foi o Garricha da ponta esquerda'', exagera Fagner. A irradiação radiofônica de um irretocável gol de falta do artilheiro prefacia o ótimo samba cheio de convenientes negaças melódicas e recheio de cuíca.

   Balada de agosto nasceu de uma remodelação: era música (de Fagner) para um poema de Cecília Meireles que a familia da poeta vetou. ''O Zeca fez outra letra tão boa que me fez esquecer do poema e da família'', ironiza Fagner. A balada é espaçosa, crivada de violões, mas não tem nada demais. Curiosa é Três irmãos, adaptação, com calço de pandeiro no ritmo do coco, do habitual parceiro de Fagner Fausto Nilo, de uma canção medieval francesa do século 16, sobre o assassinato de três crianças transposta para um bairro de periferia de uma cidade brasileira qualquer. ''Tem que ser dita alguma coisa sobre essa carnificina urbana que a gente vive hoje'', receita Fagner.

   Já a bela Um real de amor (Fagner/ Brandão), numa levada de regional com clarinete e violão 7 cordas, tem outras peculiaridades. ''É um samba choro em tom menor, nostálgico, meio Nelson Cavaquinho'', classifica Zeca. Híbrido, Hotel à beira-mar (Fagner/ Zeca), banhado por cordas, oscila entre o samba canção e o fado e cita Mucuripe, cenário de um dos primeiros sucessos de Fagner. Azulejo (Fagner/ Zeca/ Sérgio Natureza), por sua vez, é ambientada no Maranhão de Zeca e do poeta Ferreira Gullar evocado na letra.

   Mais citações ainda colorem Serenata sem estrelas, ''uma melodia em tom menor feita por Fagner ao piano'', descreve Zeca, que cita na letra Orestes Barbosa, Mario Lago e Cândido das Neves. O disco também tem sua assumida (e um tanto caricata) porção brega, Cantor de bolero, com direito a trumpetes mariachi e um órgão pilotado pelo próprio Zeca. Sereno, sem pretensões revolucionárias, o encontro de Raimundo Fagner e Zeca Baleiro soma talentos e depura egos.

(© JB Online)

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