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26/09/2003
Feira de livros contará com 400 editoras e deve receber um público estimado em 25 mil pessoas. Além de lançamentos, o evento vai estimular a inclusão social pela leitura por SCHNEIDER CARPEGGIANI A programação oficial da IV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que nesta edição presta homenagem a Ariano Suassuna, foi anunciada ontem. Sua solenidade de abertura está marcada para o próximo dia 3, às 10h, no Auditório Tabocas, do Centro de Convenções. Para a cerimônia, foi confirmado o Presidente Luís Inácio Lula da Silva. No dia seguinte, o evento irá abrir para o público, no Pavilhão do Centro. De acordo com as estimativas dos organizadores, 25 mil pessoas devem passar, entre os dias 4 e 12 de outubro, pela Bienal 10 mil a mais em relação à sua edição anterior, realizada em 2001. Para alcançar esse número, a feira terá uma estrutura de 11 mil metros quadrados, que irá dividir o Pavilhão entre estandes de vendas, administração, praça de alimentação, auditório para debates e a participação de 400 editoras brasileiras. No Espaço Pedagógico Cultural, a programação ficará por conta das oficinas literárias, recitais, shows, apresentações folclóricas de dança e de teatro e lançamentos de livros. Outras três salas funcionarão simultaneamente com palestras e oficinas. O auditório intitulado Casa Grande & Senzala será o coração da Bienal para os maiores debates, com a capacidade para mais de 100 pessoas sentadas. De acordo com a Companhia de Eventos, responsável pela Bienal, com a curadoria da Era Sagitário, esta quarta edição prevê a movimentação de R$ 8,5 milhões e a criação de 2500 empregos temporários. Foi criado um convênio com a companhia aérea TAM para divulgação da programação da Bienal nos vôos que chegarem ao Recife, entre os dias 1 e 12, com direito a sorteio de livros entre os passageiros. Além de ter um elevado alcance social, a Bienal vem estimular a economia estadual e consolidar Pernambuco como pólo das mais significativas mobilizações literárias do País, afirma Rogério Robalinho, que faz parte da coordenação do evento. A Bienal do Recife é hoje terceira maior feira em área fechada de livros do Brasil. Só perde para as realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. INCLUSÃO SOCIAL Um dos motes da feira será incentivar o hábito de leitura nas camadas sociais mais baixas. Para isso, a partir da próxima semana serão montados na Região Metropolitana do Recife estandes para que as pessoas possam doar livros infantis. Os postos também serão montados na própria área do pavilhão. Uma outra novidade desta edição será um crédito que o Banco do Nordeste estará promovendo durante a Bienal, voltado aos livreiros. Esse crédito irá funcionar em relação a todos os estágios de uma livraria, desde sua montagem, ampliação, capital de giro, marketing até o treinamento de pessoal. MAIS DO MESMO Se por um lado a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco impressiona pelos números e objetivos, ela frustra na sua lista de convidados. Os nomes dos autores convocados não só não fazem um apanhado do que está se fazendo de novo na produção literária brasileira, como também apenas repetem medalhões que vez por outra participam de seminários ou fazem noites de autógrafos no Recife. Figurões como Carlos Heitor Cony ou Jaguar não são mais novidades para o público local. Até o mês de agosto, a curadoria da Bienal estava nas mãos do Instituto Maximiano Campos (IMC), coordenado por Antônio Campos, que entregou suas funções, alegando problemas de agenda e impossibilidade de manter a linha cultural previamente pensada para o evento. Nas primeiras especulações feitas, foram cogitados nomes como José Saramago, Isabel Allende e Umberto Eco. Umberto Eco confirmou sua vinda, mas desmarcou devido a compromissos com a feira de Frankfurt, que ocorre na mesma temporada da Bienal de Pernambuco, o que prejudicou a vinda de diversos nomes estrangeiros, afirmou Pablo Magalhães, coordenador-executivo da Bienal. De estrangeiros teremos apenas a portuguesa Margarida Rebelo Pinto e o norte-americano Gregg Narber. O problema, no entanto não está na convocação de gringos, mas na falta de novidade entre os nacionais nesse quesito, o maior destaque é mesmo Ana Maria Machado, que recentemente entrou na Academia Brasileira de Letras. De acordo com a organização do evento, outros nomes podem ser confirmados até o dia da abertura. Entre eles o de Chico Buarque. A programação completa da Bienal está no site www.bienallivro-pe.com. (© Jornal do Commercio-PE) Festa no IMC para a literatura Em noite dedicada à arte, Instituto Maximiano Campos realiza lançamento coletivo de autores pernambucanos por SCHNEIDER CARPEGGIANI Como costuma fazer, desde que foi inaugurado em julho do ano passado, o Instituto Maximiano Campos (IMC), realiza em sua sede em Casa Forte o lançamento coletivo de autores pernambucanos, no melhor estilo de todos autografando ao mesmo tempo agora, hoje à noite. Um dos destaques ficará por conta de duas obras inéditas do Maximiano Campos que empresta seu nome à fundação. Do Amor e Outras Loucuras mostra a produção do Maximiano poeta, com prefácio de Lucila Nogueira. Já Os Cossacos traz uma novela escrita pelo autor em 1968, que permaneceu engavetada até agora. Esse texto vem ancorado por um estudo de 15 páginas feito por Raimundo Carrero. Os títulos saem com o selo da editora pernambucana Bagaço. Outro destaque da coletiva do IMC é Dois Caminhos e uma Oração, a primeira antologia com distribuição nacional de Alberto da Cunha Melo. O livro chega com selo da recém-inaugurada editora Girafa. Já Lucila Nogueira, apresenta o novo estágio que a sua poesia percorre com Desespero Blue. Ainda dentro da programação do IMC de hoje, Deborah Brennand e Lourdes Sarmento lançam novas edições, respectivamente, dos seus livros Letras Verdes e Guardiã do Tempo. No território de inéditos, Laura Areias vem com seu romance Os Homens Bons e Lenilde Freitas com os poemas de Grãos na Eira. A noite contará com performance poética armorial da atriz Cira Ramos e da bailarina Cecília Brennand, que irá dançar versos de Alberto da Cunha Melo, Orismar Rodrigues e Maximiano Campos. O escritor Ariano Suassuna também está entre os homenageados. (© Jornal do Commercio-PE, 25.09.2003) Inéditos de Maximiano Campos revelam sua
angústia e compaixão A dimensão do humano e seu embate com o divino são o cerne e a perturbação que movem a escrita do ficcionista e poeta Maximiano Campos, como atestam a novela Os Cassacos e a reunião de poemas Do Amor e Outras Loucuras, escritos adormecidos em gaveta que ganham agora vida autônoma, nos lançamentos do IMC em conjunto com a Edições Bagaço. Ao analisar Os Cassacos, o romancista Raimundo Carrero enquadra Maximiano Campos entre os escritores táticos, que se revelam pela rapidez das sentenças, pela clareza do instinto criador, pela limpeza de suas idéias, não submetidas a vagarosos e estratégicos esquemas. Destaca também seu humanismo, a compaixão pelos personagens, mais ainda o compromisso pelo desespero humano de um Nordeste cheio de mães enlutadas. Todo o seu empenho está na solidariedade com o humano alcançando o divino, com personagens da qualidade de João da Cachorra ou Major Deodoro, com Baixinha ou com Amaro Navieiro. E, sobretudo, com Filipe, escreve Carrero. O painel traçado com imagens de Agreste e Sertão abre ferida, fala de angústia, mas também provoca o riso e abre uma janela à esperança e à solidariedade. Do Amor e Outra Louras reúne 50 poemas de Maximiano Campos. Quinze são inéditos, os demais pertencem aos livros Perfis, A Recusa do Mágico e O Lavrador do Tempo. A expressão poética de Maximiano Campos é analisada por Lucila Nogueira e se revela em versos como o de O destino: Um poema sem disfarces,/ para que a palavra não esconda/ mas clareie e ilumine/ o recordar ferido de tantas belezas. A solidão, a evocação do passado e do Recife, o sonho que faz-se pedra, a luta contra o tempo, grande palhaço de Deus, a noite e seus fantasmas são desafios enfrentados pelo poeta-guerreiro. (M.P.) (© Jornal do Commercio-PE, 25.09.2003) A beleza oculta em Alberto da Cunha Melo Qual o lugar que Alberto da Cunha Melo ocupa no mundo intelectual brasileiro? Exceto por uma participação ou outra em coletâneas de distribuição nacional, aqui e ali, o seu nome permanece em oculto. Uma espécie de segredo que - por resistência, por modéstia ou por falta de habilidade do autor em manipular as pedras do tabuleiro do mercado editorial - não encontra saída dos limites do Estado. De certa forma, um caminho seguido também por sua geração, a de 65, que, com um ou outro momento de exceção, continua anônima para o resto do Brasil. No caso de Alberto, pelo menos, a injustiça começa a ser corrigida agora, com a publicação da coletânea Dois Caminhos e uma Oração. O livro é um dos primeiros projetos da Editora Girafa, coordenada por Pedro Paulo de Sena Madureira, ex-Siciliano, em parceria com o Instituto Maximiano Campos. Como todo bom cartão de visitas que se preze, o livro chega cercado por comentários fortes que demarcam a importância, mesmo que reconhecida de forma tardia, de Alberto. A coletânea traz análises do ensaísta Alfredo Bosi, do poeta Bruno Tolentino e do crítico Mário Hélio. E esses três são tratados na orelha do livro como alguns dos exigentes e poucos conhecedores da poesia do pernambucano - ou seja: o tempo todo é martelado o susto diante do quase total desconhecimento que o País viveu até agora em relação a Alberto. Ao procurar revelar Alberto, Bosi, ressaltou: O Nordeste nos dá, mais uma vez, depois do paraibano Augusto dos Anjos, do alagoano Jorge de Lima e dos pernambucanos Carlos Pena Filho e João Cabral, a sua lição de dor que se faz beleza e arranca de si forças para construir uma poesia como a de Alberto da Cunha Melo, cujo nome secreto é resistência. Não é pouco, mas é merecido. Mesmo se os poemas presentes na coletânea tivessem sido embalados sem apresentações - ou sem as notas de autor, que Alberto faz questão de deixar impressas em todos os seus livros - eles já falariam por si só. Dois Caminhos e uma Oração agrupa as obras Meditação sob os Lajedos (2002), Yacala (1999) e Oração pelo Poema (1969). A coletânea é o autor em três momentos distintos para iniciantes. Em Meditação sob os Lajedos, Alberto escreve sobre impasses e limites e cita o Kafka de O Castelo como epígrafe Que aldeia é esta em que me perdi. A referência ao livro do tcheco no qual a personagem, por mais que tente, que o cerque, nunca consegue entrar no castelo que dá título à obra pode ser sentida em trechos como Poema nenhum, nunca mais/ será um acontecimento:/ escrevemos cada vez mais/ para um mundo cada vez menos. Amargo, o autor questiona aqui o valor da obra literária (mais ou menos como o personagem kafkiano, isolado e perdido diante da sua impossibilidade de entrar no castelo), como se ela precisasse ter ou fazer sentido. Mas no território das palavras todo questionamento é possível, não? Já Yacala conta uma só história, com um clima de tragédia grega e passagens sombrias ou como escreveu Bruno Tolentino imperdível filme de horror, todo ele rodado com a cumplicidade e os riscos da mais drástica beleza. De 1969, Oração pelo Poema traz um espécie de acerto de contas com Deus, amparado pela possibilidade de transcendência do texto - Senhor, dá-me a palavra brisa/ irmã das fontes, dá me agora/ qualquer palavra que suavize/ a minha vida, para sempre. (© Jornal do Commercio-PE, 25.09.2003) Sedução estética é a força que rege poemas de Lucila Desespero Blue, novo livro da poeta, tem noite de autógrafos hoje, no Instituto Maximiano Campos, e marca uma fase mais solta em sua obra Pelas cores de Pedro Almodóvar e de Frida Kahlo, pela velhice safada de Bukowski, pelo suicídio de Sylvia Plath, pela solidão de Eleonor Rigby, aquela da música dos Beatles. Esses são alguns dos passeios poéticos que Lucila Nogueira faz em seu Desespero Blue, que tem noite de autógrafos hoje, no Instituto Maximiano Campos. O livro amarra a transição para uma fase literária mais solta (nas suas palavras), que ela começou a tramar em Refletores. Lucila gosta de dizer que Desespero Blue é bem menos histérico do que Refletores, porém ele continuar batendo nas mesmas teclas do antecessor angústia amorosas, vida noturna e cultura pop. A falta de amarras da autora pode ser exemplificada por versos que revelam a busca por uma sinceridade indispensável: Cansou da delicadeza e bateu o telefone/ porque tudo enfim já fora tanto e demasiado/ uma vida de visões como uma endecha errante/ uma rainha louca sobre a página em branco. O melhor de Desespero Blue, no entanto, está no exercício de colagens que Lucila faz de versos alheios, em um processo de ladroagem poética: disse Bukowski/ ver o touro vencer o matador é o melhor/ disse Bukowski/ os recitais de poesia e os concertos de rock são o pior/ disse Bukowski/ a vida gira sobre um eixo apodrecido/ somos todos uns pássaros agonizantes/ e a maioria dos poetas são mesmos cisnes. Em outro bom exemplo dessa ladroagem, ela reconstrói a raiva e a sexualidade latente presentes em Sylvia Plath: Disse Sylvia/ estes poemas não têm vida: triste diagnóstico/ estou chapada e enjoada depois do último sonífero/ e você pifou como um rádio velho/ eu podia sentar numa rocha e me pentear/ a gente podia se ver na outra vida/ mas nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar. Desespero Blue termina com Sentimento Súbito, um poema longo e formalmente livre do resto no livro, no qual Lucila volta a ressaltar sua independência de protocolos e regras, também mesmo que Desespero Blue soe como um cerebral exercício de sedução estética. (S.C.) (© Jornal do Commercio-PE, 25.09.2003)
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