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Na quitanda da baiana

26/09/2003

Brasileirinho, de Maria Bethânia

Maria Bethânia dá novos passos independentes com lançamento simultâneo de disco e selo

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

   A cantora Maria Bethânia, 57, consolida sua carreira independente, inaugurando agora o selo Quitanda, que passa a dirigir com a banqueira Kati Almeida Braga, dona da gravadora Biscoito Fino.

   O lançamento número um de sua quitanda ("não é supermercado") é "Brasileirinho", álbum inédito da própria Bethânia. O número dois é a reedição de "Vozes da Purificação", da baiana Edith do Prato, 87, que saíra em 2002 em tiragem limitada.

   Segundo Bethânia, "Brasileirinho" deveria ser um "brinde" de apresentação, com quatro ou cinco músicas -mas ela se empolgou e gravou um disco inteiro.

   E já está em estúdio gravando seu próximo CD pela Biscoito Fino, só com músicas de Vinicius de Moraes (1913-80). Se sair antes do Natal, como ela deseja, será seu terceiro disco em 2003.

   "Brasileirinho" foi feito de maneira muito simples", define Bethânia. "Se a Biscoito Fino já tem uma coisa muito nítida de ir só no que acredita e aposta, agora na Quitanda piorou", brinca.

   Ela compara o trabalho independente com mais de 35 anos passados em grandes gravadoras.

   "Acabou meu contrato, a BMG não mostrou nenhum interesse em renovar. Estava infelicíssima lá, sem incentivo nenhum. Pensava em não fazer mais nada, nunca mais", afirma.

   De lá para cá: "Agora é uma coisa assim que o professor não vai ver, não vai me encher o saco, não preciso de nota".

   Para Bethânia, as diferenças de trabalhar deste modo aparecem no resultado artístico. "A sonoridade já é diferente. É um disco com três músicos, foi uma alegria para mim voltar a cantar com trio. Eu não fazia isso desde 71."

   Os quatro gravaram as músicas ao vivo, juntos, "sentados no estúdio", hábito que nas práticas industriais recentes foi substituído pelas gravações separadas de cada instrumento ou cada segmento de canção.

   "Tudo ficou tão solitário. Este disco veio de novo com um sabor de CPC, pobrinho", identifica a cantora, referindo-se aos universitários Centros Populares de Cultura dos anos 60, de que ela foi próxima no início de sua carreira, à época do show "Opinião" e de "Carcará" (65).

   O repertório, temático, era inicialmente fechado em referências aos índios -o selo e o disco se chamariam "Tupi", mas o nome já pertencia à Rádio Tupi.

   "Depois abrimos para o Brasil inteiro, com ajuda fundamental de Chico César na escolha do repertório", conta.

   Com canções dedicadas aos santos Antônio, Jorge e João, "Brasileirinho" avança pela religiosidade, a exemplo de "Cânticos, Preces, Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu", que Bethânia lançou no início do ano.

   Afirma que não é proposital. "Não sou uma cantora religiosa, sou uma cantora popular brasileira. É uma coisa do Nordeste, de onde venho. Não sei se por aqui há fé, não. Há alguma devoção? Bolsa de valores?", provoca.

   Promete que sua Quitanda não será efêmera, como costuma ser regra entre artistas que fundam seus próprios selos. "Vai durar muito. Muita gente tem muita vontade de fazer algo com total liberdade, com garantia de qualidade", expõe.

   Diz que não há nada definido por ora, mas que gostaria de gravar um disco de poesia falada por Ferreira Gullar. "Quero misturar teatro, música, poesia. É para isso que quero." "Na Quitanda pode tudo", completa Kati.

   Segundo a cantora, o selo não terá um elenco definido ("não pode ter, nem eu sou do elenco"). Mas se coloca à disposição para viabilizar o lançamento de discos que já estejam prontos.

   É o caso do CD de dona Edith do Prato, sua conterrânea de Santo Amaro da Purificação. Foi produzido por J. Velloso, sobrinho de Bethânia, que já co-produziu álbuns de Batatinha e Riachão, sambistas baianos históricos como dona Edith.

   Usando prato e faca como instrumentos de ritmo, dona Edith havia aparecido primeiramente em "Araçá Azul" (73), de Caetano Veloso. Ela conta como começou a fazer música e comenta a demora em ter um disco seu: "Era brincadeira de menina, eu com três amiguinhas. Comecei a tocar numa cuia. Tomei aquela impressão boa, peguei prato de louça e aí fui embora. Foi pena que o disco chegou muito tarde."

   Semelhanças à parte, Bethânia afasta a comparação entre Edith e Clementina de Jesus (1901-87). "Dona Clementina era de um arco maior, mais completo. Ia do blues ao ponto de candomblé. Dona Edith é mais centrada no Recôncavo Baiano", diz, ressaltando que Edith é fã "mirabolante" de Clara Nunes (1943-83). (O jornalista Pedro Alexandre Sanches viajou a convite da gravadora Biscoito Fino)

(© Folha de S. Paulo)


CRÍTICA

"Brasileirinho" troca a Bahia pelos brasis

DO ENVIADO AO RIO

   Tratado por Maria Bethânia como um disco "pequeno", "Brasileirinho" ostenta a virtude de abdicar da centralidade baiana, para querer representar todo o Brasil, todos os brasis.

   "Brasileirinho" cresce ao se espalhar pelo Brasil indígena ("Senhor da Floresta"), pela negritude ex-escrava ("Yáyá Massemba", o ex-tropicalista Capinan de volta à composição), pelo aboio interiorano de Luiz Gonzaga ("Boiadeiro", inesperada e nada sutil na voz de Bethânia).

   Nos poemas declamados, entram as letras mineiras de Guimarães Rosa, as letras paulistas de Mário de Andrade. Nos encontros vocais com as cariocas Miúcha ("Cabocla Jurema") e Nana Caymmi ("Sussuarana"), explodem duelos de delicadeza, retratos melancólicos do Brasil migratório, instável, provisório.

   O choro carioca do grupo Tira Poeira contamina "Padroeiro do Brasil"; os experimentos mineiros do Uakti colaboram com "Salve as Folhas", em que Bethânia espanta ao usar registro inédito de voz. A Bahia sincrética transborda de "Santo Antônio" (do sobrinho J. Velloso) e de "São João Xangô Menino" (do irmão Caetano Veloso e do "irmão" Gilberto Gil).

   A Bethânia independente não chega a divergir do rótulo industrial de antes. Mas reconquista o prazer de parcerias retomadas ou inéditas, o despojamento roubado de alguma cantora em início de carreira. Se havia exigência de gravadora ou acomodamento da própria artista, não se pode saber. Mas "Brasileirinho" se solidifica ao começar a romper hábitos musicais arraigados. (PEDRO ALEXANDRE SANCHES)

Brasileirinho
Artista: Maria Bethânia
Lançamento: Quitanda
Quanto: R$ 30, em média

(© Folha de S. Paulo)

A quitanda sortida de Bethânia
Cantora lança seu próprio selo e apresenta seus primeiros produtos – o “disco-release” Brasileirinho e Vozes da Purificação, com Dona Edith do Prato

JOSÉ TELES

   Rio - Maria Bethânia fez, segunda-feira, o lançamento do seu selo, Quitanda, (em parceria com Katy de Almeida Braga, da Biscoito Fino), numa requintada festa, para convidados, na sede da gravadora Biscoito Fino, em Botafogo, Rio. Foi uma espécie de VMB para gente grande, tamanha a quantidade de personalidades que prestigiaram o evento. Estiveram por lá desde a grande dama do teatro nacional, Bibi Ferreira, ao poeta-maior Ferreira Gullar, socialites e, naturalmente, muitos nomes da música popular – Lenine, Hermínio Bello de Carvalho, Joyce, Leila Pinheiro, Miúcha, Nana Caymmi, Francis Hime, para citar apenas alguns dos mais conhecidos.

   A cantora apresentou os dois primeiros lançamentos da Quitanda. Brasileirinho, dela, e Vozes da Purificação, da lendária sambista do recôncavo baiano Dona Edith do Prato. O nome Quitanda ela tomou emprestado de uma frase da arquiteta Lina Bo Bardi (criadora do Masp), que costumava dizer que todos deviam ter sua quitanda. “É um nome que acho sonoro, e dá uma idéia de diversidade”, disse Maria Bethânia, que revela ter pensado em outro nome para o selo: Tupy. Mas aí descobriu que alguém já o havia registrado.

   Estritamente falando, o lançamento do Quitanda foi mesmo o CD de dona Edith do Prato, já que Bethânia definiu Brasileirinho como um disco-release: “É um trabalho que mostra a direção que o selo irá tomar. É também o jeito que eu senti e sinto o Brasil”, definiu durante entrevista coletiva. Com efeito, Brasileirinho dá uma panorâmica na música brasileira, centrada na religiosidade,com um repertório que, não tivesse exatamente esse o propósito, exageraria no ecletismo: vai de pontos de candomblé, a ancestral Senhor da floresta, sucesso de Augusto Calheiros, nos anos 30, passa pelos Doces Bárbaros (São João Xangô menino), Luiz Gonzaga, tem citações de Mário de Andrade (declamado por Ferreira Gullar), Guimarães Rosa.

   “A princípio nem seria um disco com tantas músicas, a idéia era um CD com quatro faixas, para divulgação do selo mesmo. Mas as pessoas foram me indicando canções e acabei com Brasileirinho, que não considero um disco de carreira”, esclareceu, ressaltando que este CD não deverá tornar-se show: “Talvez cante algumas músicas no palco, mas ele é apenas um projeto especial”. Brasileirinho também é farto em participações especiais: Nana Caymmi, Denise Stoklos, Ferreira Gullar, o grupo Uakti, Miúcha.

   A cantora assinou, ano passado, contrato com a Biscoito Fino por cinco anos, com direito a três discos de carreira, e mais os projetos especiais que lhe vierem à cabeça. “Eu estava infelicíssima na BMG, sem contrato, e não via interesse deles em renovação. Quando Katy (de Almeida Braga), me fez esta proposta senti que estava respirando outro ar”, comenta Maria Bethânia.

   A Biscoito Fino não atirou no escuro. Logo em seguida à coletiva, Bethânia recebeu das mãos de Bibi Ferreira, um Disco de Ouro, a que fez jus com o CD (duplo) Maricotinha ao Vivo, sua estréia na nova gravadora (que já vendeu 120 mil cópias, é o recordista da gravadora).

   Disco de carreira ela adiantou que já começou a gravar. Trata-se de uma homenagem a Vinicius de Moraes: “Selecionei músicas que me lembram dele. Algumas pouco conhecidas, como por exemplo, Bom dia tristeza, que ele fez com Adoniran Barbosa, outra com Ary Barroso. Não foi feito com a intenção de ser parte das comemorações dos 90 anos de Vinicius, apenas coincidiu. Para mim, antes de tudo, é uma declaração de amor alucinada a Vinicius, que me faz muita falta, faz falta ao Brasil, faz falta ao mundo”. O disco com canções de Vinicius ainda não tem data prevista para lançamento, provavelmente acontecerá no início do ano que vem.

(© Jornal do Commercio-PE)


A lendária Dona Edith estréia aos 87 anos

   Projetos especiais, Maria Bethânia tampouco revelou quais serão os próximos. Mostrava-se bastante satisfeita em ter presenteado Dona Edith do Prato com um disco, o primeiro da carreira da cantora de 87 anos. A sambista baiana ficou conhecida com sua participação no polêmico álbum Araçá Azul, que Caetano Veloso lançou em 1973. A técnica de acompanhamento com faca e prato remonta aos primeiros sambistas, não foi inventada por ela. Dona Edith, no entanto foi quem ajudou a difundi-la. Mas sua importância não está no seu instrumento peculiar e sim por memória viva de quase um século de samba-de-roda do recôncavo. Humilde, ela conta que somente agora estréia em disco porque tinha medo: “Não tinha coragem de ir pra um estúdio. Desta vez fui convencida por Jota (Velloso, sobrinho de Bethânia e produtor do CD)”.

   Ao lhe perguntaram desde quando conhecia Dona Edith do Prato, Maria Bethânia respondeu que já nasceu escutando-a bater a faca no prato: “Muitas das músicas que estão em Brasileirinho aprendi menina na casa dela”. Já Dona Edith começou a fazer samba com faca e prato igualmente menina: “Tinha uns oito anos, onde tinha um samba eu procurava ir. Sou assim até hoje”. Passos e voz firme, ela continua fazendo apresentações pelo Brasil: “Já viajei muito com Caetano. Teve uma vez até que prenderam minha faca no aeroporto de Vitória (ES). Depois vieram me entregar, eu não quis mais. Caetano me deu outra”, conta.

   Juntamente com os CDs de Batatinha e Riachão (ambos também produzido por Jota Velloso), este Vozes da Purificação preserva um tipo de samba restrito ao recôncavo–, sendo a maioria do repertório do disco é de domínio público. Uma das exceções é How beautiful, de Moreno Veloso, que se funde a Minha senhora, um samba-de-roda cuja primeira estrofe virou um samba homônimo composto por Gilberto Gil e Torquato Neto, em 1965.

   O disco foi inteiramente gravado na Bahia, com músicos baianos e tem participação do grupo vocal Vozes da Purificação (formada por senhoras de Santo Amaro da Purificação, cidade de Dona Edith do Prato e da família Veloso, de Caetano e Maria Bethânia.

(© Jornal do Commercio-PE)

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