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26/09/2003
Eleuda de Carvalho Ante o espanto da ''burguesia
ignara'' (como disse Antônio Sales, o mentor da idéia), a cidadezinha de Fortaleza
sacudiu-se do habitual marasmo, mal alumiado por amarelos lampiões, na noite de 30 de
maio de 1892. Da sacada do número 105 da rua Formosa, atual Barão do Rio Branco, Sales e
sua turma lançaram a Padaria Espiritual numa ''manifestação onça'', como dizia a
gíria da época. Noitada comandada por Moacir Jurema, nome de forno do Sales, posto que
toda a rapaziada tinha um apelido, se possível, jocoso. Adolfo Caminha (o Félix
Guanabarino) recitou um poema de Álvaro Martins, o Policarpo Estouro, a pedido do
próprio. Mais uma garoa de poemas e a parte musical, com a valsa ''Pão Duro'', do
padeiro violinista Henrique Jorge (o Sarasate Mirim), e a polca ''Padaria Espiritual'', do
flautista Nascimento. Sânzio de Azevedo - A Padaria
Espiritual, criada em 1892, foi reorganizada em 1894, quando estava já desaparecendo. Uns
tinham viajado, uns outros tinham morrido, pelo menos o Paulo Kandalaskaia, o Joaquim
Vitoriano (assassinado na Praça do Ferreira). Sales resolveu arregimentar os que ainda
havia e juntar novos elementos, como José Carlos Júnior, Artur Teófilo, José Carvalho,
Antônio Bezerra e Rodolfo Teófilo. Na verdade, figuras importantes que ele convidou pra
refazer a Padaria. Estas figuras não foram ''lembradas'' na primeira fornada, digamos
assim, porque já tinha muita gente, né? Foram vinte da primeira vez, 19 e depois mais o
Antônio de Castro. Na segunda, mais 14. Destes, Rodolfo Teófilo é o mais destacado,
porque já tinha uma obra feita. Em 1894, ele já tinha publicado alguns livros de
caráter científico e o romance A Fome é de 1890, até anterior à
primeira fase da Padaria. SA - No caso da polêmica dele
com o Adolfo Caminha ficou bem claro isso. A Fome, que é seu primeiro
romance, o próprio Antônio Sales, grande amigo dele, chega a dizer que não é
propriamente um romance. Ele foi juntando fatos e mais fatos, porque ele primava pelo
realismo, no melhor sentido. Rodolfo Teófilo presenciou a desgraça da seca, tudo o que
ele conta ali é verdade, e ele faz questão de dizer. Pois bem, ele realmente acumulou
demais fatos horrendos. Tenho até um trabalho no meu livro Dez Ensaios de
Literatura Cearense (ed. UFC). Andei descobrindo, num livro de poemas do Rodolfo
Teófilo, a vítima dos morcegos, naquela cena do romance. O poema é histórico, e prova
que o fato aconteceu mesmo. Ele fala em constrição dos vasos, na cianose, quirópteros,
quer dizer, numa linguagem muito científica, mais ou menos como Júlio Ribeiro (autor de A
Carne), que foi atacado mais por causa disso. Adolfo Caminha, em sua crítica,
pegou justamente por este lado da (falta de) literariedade. É o caso também do José
Veríssimo, que fez a crítica de Os Brilhantes, em 1895, e observa a
linguagem, que diz não ser muito apurada. No livro Os meus zoilos, no qual
Rodolfo Teófilo juntou toda a polêmica, ele acha que Veríssimo é incoerente, quando
diz que ele é um grande escritor e escreve mal. O que José Veríssimo quis dizer é que
Rodolfo Teófilo tinha tudo pra ser um bom escritor mas não cuidava muito do estilo. SA - Waldy Sombra, no livro
Rodolfo Teófilo - o Varão Benemérito da Pátria, transcreve esta minha
opinião: ao fim da polêmica Adolfo X Rodolfo, os dois tinham e não tinham razão.
Rodolfo, em contrapartida ao artigo do Adolfo Caminha, que segundo ele teria saído
anonimamente em 1891, na revista Moderna, quando ataca A Normalista vai
descobrir coisas que, para uma obra realista, são erros graves. Como, por exemplo, o
Mendonça, pai da Maria do Carmo, ter vindo, no fim da seca, montado num jumento. Ele veio
em 1877, e Caminha descreve as torres da igreja do Coração de Jesus, que nem tinham sido
construídas ainda, e tem outras coisas mais. Quanto à literariedade, isso aí faço
questão de dizer, o Adolfo Caminha leva a melhor. Por outro lado, nem a falta de um
estilo melhor prejudica o Rodolfo Teófilo nem estes erros prejudicam a literariedade do
romance de Caminha. Agora, Caminha exagerou na crítica ao dizer que a seca do Ceará
teria páginas muito melhores e muito mais verdadeiras se tivessem sido escritas ou por
Aluísio de Azevedo ou por José de Alencar. Azevedo tudo bem, mas Alencar... José de
Alencar é um escritor imenso, mas sabemos que o romantismo não tem compromisso com a
verdade. E ele ainda disse que ''A Fome do Ceará'', um poema de Guerra Junqueiro, feito
em 1877, vale mil vezes A Fome. Aí o Rodolfo Teófilo ficou furioso, disse
que o que o tinha ferido mais, nas injustiças que Caminha fez ao seu romance, foi que
faltava verdade nas cenas que ele, Rodolfo Teófilo, descreveu. SA - Particularmente, acho que
o melhor livro de Rodolfo Teófilo é o que ele chamou de novela, Violação.
Livro bem escrito, sem deslizes. É de 1899. O Paroara também é um romance
bem construído. Agora, a poesia dele é fraca. SA - Ele foi para o Rio em
1896. Antônio Sales foi padeiro-mor interino, apenas. Na primeira fase, o padeiro-mor foi
Jovino Guedes. Na segunda, foi escolhido José Carlos Júnior e ele, no ano em que Sales
foi embora, ele morreu, e assumiu Rodolfo Teófilo, o último padeiro-mor. Antônio Sales,
brincando como Moacir Jurema, dizia que as sessões passaram a se fazer na casa dos
padeiros casados. As últimas foram feitas na casa do Rodolfo Teófilo, com bolinhos e
tudo, houve até quem dissesse... O crítico José Ramos Tinhorão disse que a Padaria se
aburguesou, na segunda fase. Não vejo aburguesamento nisso, não. Só porque eles não
andavam fazendo sessões nos cafés? Outra coisa, esta história de achar, aliás, como o
Adolfo Caminha, que a Padaria Espiritual perdeu a graça. Não é isso. Tem que ver que,
naquela época, os homens casados tinham uma postura diferente da dos homens solteiros.
Antônio Sales casou-se em 1894. Inclusive, na segunda fase entram pessoas mais maduras,
como Antônio Bezerra, que era o mais velho de todos, e o próprio Teófilo. SA - Ele não fez parte da
Academia num primeiro momento. O Centro Literário tem o nome dele mas ele não é figura
de destaque lá. Meu pai, Otacílio de Azevedo, que é contemporâneo da queda do Acioly,
não é ninguém que tenha contado a ele não, ter visto Rodolfo Teófilo recolhendo
soldados do governo feridos, até tirando a farda pra eles não serem mortos pelo povo
revoltado. Quer dizer, ele era um homem bom demais, notável. Era inimigo do Acioly mas
nem por isso ia deixar matar os soldados. Rodolfo Teófilo era um homem de coração
imenso. Por exemplo, a questão da vacina. O Meton de Alencar fez uma campanha terrível
contra, o próprio governo do estado mandou que fizessem a análise da vacina em
Manguinhos, que hoje é a Fiocruz, no Rio de Janeiro, e o resultado que veio é de que a
vacina era da melhor qualidade. Eles esperavam o contrário, para desmoralizar Rodolfo
Teófilo. SA - Papai não teve muita
convivência, certamente devido à diferença de idade, papai era muito jovem quando houve
a queda do Acioly. Mas ele via Rodolfo Teófilo, que era uma figura muito respeitada. Às
vezes, levada na brincadeira, como naquela história da ''laranjinha''. É uma bebida
alcóolica, e consta que ele era contra o fumo e o álcool. Só que apareceu esta bebida
chamada ''laranjinha'' e tinha escrito no rótulo ''R. Teófilo''. Ele não tinha filhos
mas tinha um filho adotivo, o Raul. Um dia, disseram, mas rapaz, você é contra o álcool
e tá aqui ''R. Teófilo''! Ele disse, não, isto é coisa do Raul... SA - E tem um romance que nunca foi reeditado, Maria Rita. Conta a história de um Queiroz, de um rapto, parece que é uma história verídica também, passada no século 18. Ele mesmo declarava que sempre gostou de se basear na verdade. A obra ficcional de Rodolfo Teófilo merece ser reeditada, sim. Aliás, soube que já saiu nova edição de A Fome, eu mesmo sugeri à UFC que, se fosse possível, reeditasse O Paroara, um dos melhores romances dele, que teve uma outra tiragem nos anos 70 pela Casa de Juvenal Galeno, com prefácio do Otacílio Colares, e já precisa de uma nova edição porque é um belo romance e marcou uma época. Seria interessante inclusive reeditar Os Brilhantes. (© O Povo-NoOlhar.com.br)
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