Notícias
Marcos Serrano, o último padeiro

26/09/2003

 

Rodolfo Teófilo pegou a Padaria Espiritual quando ninguém mais queria botar a mão na massa. Muitos dos jovens escritores da agremiação tinham ido embora, outros haviam morrido, e a situação política era desfavorável para agitos de qualquer ordem

Eleuda de Carvalho
da Redação

   Ante o espanto da ''burguesia ignara'' (como disse Antônio Sales, o mentor da idéia), a cidadezinha de Fortaleza sacudiu-se do habitual marasmo, mal alumiado por amarelos lampiões, na noite de 30 de maio de 1892. Da sacada do número 105 da rua Formosa, atual Barão do Rio Branco, Sales e sua turma lançaram a Padaria Espiritual numa ''manifestação onça'', como dizia a gíria da época. Noitada comandada por Moacir Jurema, nome de forno do Sales, posto que toda a rapaziada tinha um apelido, se possível, jocoso. Adolfo Caminha (o Félix Guanabarino) recitou um poema de Álvaro Martins, o Policarpo Estouro, a pedido do próprio. Mais uma garoa de poemas e a parte musical, com a valsa ''Pão Duro'', do padeiro violinista Henrique Jorge (o Sarasate Mirim), e a polca ''Padaria Espiritual'', do flautista Nascimento.

   Em fornadas posteriores, a pilhéria continuou dando o tom. O padeiro Paulo Kandalaskaia (de nome, Joaquim Vitoriano), de quem se diz que entrou na Padaria não por suas artes literárias mas por força do muque na hora de brigar, foi obrigado a narrar, em forma de ''balada escandinava'', a história de Frivolino Catavento (codinome de Ulisses Bezerra). Certa feita, eles mandaram assar um pão de três metros e fizeram, quiçá, o primeiro happening na Terra de Iracema. As festas-reuniões dos padeiros eram sempre regadas à legítima caninha do Cumbe e a muitos goles de aluá.

   No princípio, eram rapazes de artes e letras reunidos no Café Java, de Mané Coco, Manuel Pereira dos Santos, que não entendia nada de poesia mas adorava a turma. Vestia-se de fraque, sem gravata, e sempre trazia uma rosa na lapela. Não contava tostões para celebrar com pompa o aniversário dos padeiros: acima do seu quiosque, na Praça do Ferreira, boiava um balão a gás, com o nome da Padaria, para que ''até o Padre Eterno dela tivesse notícias''. Se bateu lá, quem sabe. Mas a Padaria e seu programa de instalação foram badalados até na rua do Ouvidor, no Rio, que se não era mais a Corte era a capital do Brasil.

   Além das fornadas, exclusivas aos homens (embora as mulheres já tivessem tomado parte ativa, ativíssima, na campanha abolicionista e republicana), eles passaram a publicar um jornalzinho domingueiro, O Pão. Saíram seis números em 1892, com tiragens de até 2.500 exemplares por edição, cada um a 60 réis. Depois de dois anos, com a reorganização da Padaria, vão sair mais 30 números do semanário que finou-se, segundo Antônio Sales, de''caquexia pecuniária''. Em 1982, com estudo, seleção e notas de Sânzio de Azevedo, sai a edição fac-similar do O Pão, em parceria da Academia Cearense de Letras, UFC e Prefeitura de Fortaleza.

   Na segunda fase, que começa em 1894, com algumas defenestrações, entre as quais a do polêmico e contundente Adolfo Caminha, é que ingressa uma figura magra, barba em ponta, sempre metido em costume negro que o tornava ainda mais delgado, levando a tiracolo um mais negro guarda-chuva. Era Rodolfo Marcos Teófilo, que nasceu em Salvador da Bahia, no dia 6 de maio de 1853, e fechou os olhos na sua cidade do coração, Fortaleza, em 2 julho de 1932, ano de seca terrível, fenômeno do qual ele é um dos estudiosos pioneiros. Morava em aprazível chácara situada na avenida Visconde de Cauípe, que ainda estava de pé, no começo dos anos 80, a avenida já batizada de ''da Universidade''. Fechada não se sabe há quanto tempo, por falta de herdeiros diretos, ostentava na parede da varanda coberta de folhas uma placa onde se lia seus feitos e o título que recebeu, Varão Benemérito da Pátria, por sua campanha solitária no combate à varíola, que dizimava as gentes do interior e da capital. Foi ali, entre os últimos gatos pingados, numa noite de julho de 1898, que Rodolfo Teófilo comandou a fornada pela derradeira vez. Se a casa foi posta abaixo, a obra dele - tanto no campo da ciência quanto da arte e da saúde pública - serve para mostrar ao presente e ao futuro a história de um homem de bem. Para falar dele, e clamar pela reedição dos seus textos, Sânzio de Azevedo.


O POVO - Rodolfo Teófilo ingressa na Padaria Espiritual a partir da segunda fase. A agremiação ganha novo fôlego com a presença dele?

Sânzio de Azevedo - A Padaria Espiritual, criada em 1892, foi reorganizada em 1894, quando estava já desaparecendo. Uns tinham viajado, uns outros tinham morrido, pelo menos o Paulo Kandalaskaia, o Joaquim Vitoriano (assassinado na Praça do Ferreira). Sales resolveu arregimentar os que ainda havia e juntar novos elementos, como José Carlos Júnior, Artur Teófilo, José Carvalho, Antônio Bezerra e Rodolfo Teófilo. Na verdade, figuras importantes que ele convidou pra refazer a Padaria. Estas figuras não foram ''lembradas'' na primeira fornada, digamos assim, porque já tinha muita gente, né? Foram vinte da primeira vez, 19 e depois mais o Antônio de Castro. Na segunda, mais 14. Destes, Rodolfo Teófilo é o mais destacado, porque já tinha uma obra feita. Em 1894, ele já tinha publicado alguns livros de caráter científico e o romance A Fome é de 1890, até anterior à primeira fase da Padaria.

OP - Como você avalia a produção literária do Rodolfo Teófilo?

SA - No caso da polêmica dele com o Adolfo Caminha ficou bem claro isso. A Fome, que é seu primeiro romance, o próprio Antônio Sales, grande amigo dele, chega a dizer que não é propriamente um romance. Ele foi juntando fatos e mais fatos, porque ele primava pelo realismo, no melhor sentido. Rodolfo Teófilo presenciou a desgraça da seca, tudo o que ele conta ali é verdade, e ele faz questão de dizer. Pois bem, ele realmente acumulou demais fatos horrendos. Tenho até um trabalho no meu livro Dez Ensaios de Literatura Cearense (ed. UFC). Andei descobrindo, num livro de poemas do Rodolfo Teófilo, a vítima dos morcegos, naquela cena do romance. O poema é histórico, e prova que o fato aconteceu mesmo. Ele fala em constrição dos vasos, na cianose, quirópteros, quer dizer, numa linguagem muito científica, mais ou menos como Júlio Ribeiro (autor de A Carne), que foi atacado mais por causa disso. Adolfo Caminha, em sua crítica, pegou justamente por este lado da (falta de) literariedade. É o caso também do José Veríssimo, que fez a crítica de Os Brilhantes, em 1895, e observa a linguagem, que diz não ser muito apurada. No livro Os meus zoilos, no qual Rodolfo Teófilo juntou toda a polêmica, ele acha que Veríssimo é incoerente, quando diz que ele é um grande escritor e escreve mal. O que José Veríssimo quis dizer é que Rodolfo Teófilo tinha tudo pra ser um bom escritor mas não cuidava muito do estilo.

OP - A briga de Teófilo e Caminha vazou até às páginas do O Pão. Quem estava certo?

SA - Waldy Sombra, no livro Rodolfo Teófilo - o Varão Benemérito da Pátria, transcreve esta minha opinião: ao fim da polêmica Adolfo X Rodolfo, os dois tinham e não tinham razão. Rodolfo, em contrapartida ao artigo do Adolfo Caminha, que segundo ele teria saído anonimamente em 1891, na revista Moderna, quando ataca A Normalista vai descobrir coisas que, para uma obra realista, são erros graves. Como, por exemplo, o Mendonça, pai da Maria do Carmo, ter vindo, no fim da seca, montado num jumento. Ele veio em 1877, e Caminha descreve as torres da igreja do Coração de Jesus, que nem tinham sido construídas ainda, e tem outras coisas mais. Quanto à literariedade, isso aí faço questão de dizer, o Adolfo Caminha leva a melhor. Por outro lado, nem a falta de um estilo melhor prejudica o Rodolfo Teófilo nem estes erros prejudicam a literariedade do romance de Caminha. Agora, Caminha exagerou na crítica ao dizer que a seca do Ceará teria páginas muito melhores e muito mais verdadeiras se tivessem sido escritas ou por Aluísio de Azevedo ou por José de Alencar. Azevedo tudo bem, mas Alencar... José de Alencar é um escritor imenso, mas sabemos que o romantismo não tem compromisso com a verdade. E ele ainda disse que ''A Fome do Ceará'', um poema de Guerra Junqueiro, feito em 1877, vale mil vezes A Fome. Aí o Rodolfo Teófilo ficou furioso, disse que o que o tinha ferido mais, nas injustiças que Caminha fez ao seu romance, foi que faltava verdade nas cenas que ele, Rodolfo Teófilo, descreveu.

OP - Qual o melhor da obra literária de Teófilo? E o pior?

SA - Particularmente, acho que o melhor livro de Rodolfo Teófilo é o que ele chamou de novela, Violação. Livro bem escrito, sem deslizes. É de 1899. O Paroara também é um romance bem construído. Agora, a poesia dele é fraca.

OP - Quanto à atuação dele, na cena literária no começo do século 20. Antônio Sales vai embora no fim do século 19, por causa das pressões políticas, e só volta depois da queda do Acioly...

SA - Ele foi para o Rio em 1896. Antônio Sales foi padeiro-mor interino, apenas. Na primeira fase, o padeiro-mor foi Jovino Guedes. Na segunda, foi escolhido José Carlos Júnior e ele, no ano em que Sales foi embora, ele morreu, e assumiu Rodolfo Teófilo, o último padeiro-mor. Antônio Sales, brincando como Moacir Jurema, dizia que as sessões passaram a se fazer na casa dos padeiros casados. As últimas foram feitas na casa do Rodolfo Teófilo, com bolinhos e tudo, houve até quem dissesse... O crítico José Ramos Tinhorão disse que a Padaria se aburguesou, na segunda fase. Não vejo aburguesamento nisso, não. Só porque eles não andavam fazendo sessões nos cafés? Outra coisa, esta história de achar, aliás, como o Adolfo Caminha, que a Padaria Espiritual perdeu a graça. Não é isso. Tem que ver que, naquela época, os homens casados tinham uma postura diferente da dos homens solteiros. Antônio Sales casou-se em 1894. Inclusive, na segunda fase entram pessoas mais maduras, como Antônio Bezerra, que era o mais velho de todos, e o próprio Teófilo.

OP - Rodolfo Teófilo fica na cidade, nessa época conturbada do governo Acioly. Tem a sedição do Juazeiro em 1913. Havia o Centro Literário, a própria Academia Cearense de Letras, o Instituto... Teófilo está em todas?

SA - Ele não fez parte da Academia num primeiro momento. O Centro Literário tem o nome dele mas ele não é figura de destaque lá. Meu pai, Otacílio de Azevedo, que é contemporâneo da queda do Acioly, não é ninguém que tenha contado a ele não, ter visto Rodolfo Teófilo recolhendo soldados do governo feridos, até tirando a farda pra eles não serem mortos pelo povo revoltado. Quer dizer, ele era um homem bom demais, notável. Era inimigo do Acioly mas nem por isso ia deixar matar os soldados. Rodolfo Teófilo era um homem de coração imenso. Por exemplo, a questão da vacina. O Meton de Alencar fez uma campanha terrível contra, o próprio governo do estado mandou que fizessem a análise da vacina em Manguinhos, que hoje é a Fiocruz, no Rio de Janeiro, e o resultado que veio é de que a vacina era da melhor qualidade. Eles esperavam o contrário, para desmoralizar Rodolfo Teófilo.

OP - O que seu Otacílio de Azevedo falava sobre esta figura, que o escritor Humberto de Campos descreveu como um guarda-chuva segurando outro?

SA - Papai não teve muita convivência, certamente devido à diferença de idade, papai era muito jovem quando houve a queda do Acioly. Mas ele via Rodolfo Teófilo, que era uma figura muito respeitada. Às vezes, levada na brincadeira, como naquela história da ''laranjinha''. É uma bebida alcóolica, e consta que ele era contra o fumo e o álcool. Só que apareceu esta bebida chamada ''laranjinha'' e tinha escrito no rótulo ''R. Teófilo''. Ele não tinha filhos mas tinha um filho adotivo, o Raul. Um dia, disseram, mas rapaz, você é contra o álcool e tá aqui ''R. Teófilo''! Ele disse, não, isto é coisa do Raul...

OP - Na obra de Teófilo, o primeiro ciclo do cangaço esteve presente, assim como cenas do campo e da cidade, o caso dos cearenses que vão pra Amazônia em O Paroara... São livros que interessam ainda hoje?

SA - E tem um romance que nunca foi reeditado, Maria Rita. Conta a história de um Queiroz, de um rapto, parece que é uma história verídica também, passada no século 18. Ele mesmo declarava que sempre gostou de se basear na verdade. A obra ficcional de Rodolfo Teófilo merece ser reeditada, sim. Aliás, soube que já saiu nova edição de A Fome, eu mesmo sugeri à UFC que, se fosse possível, reeditasse O Paroara, um dos melhores romances dele, que teve uma outra tiragem nos anos 70 pela Casa de Juvenal Galeno, com prefácio do Otacílio Colares, e já precisa de uma nova edição porque é um belo romance e marcou uma época. Seria interessante inclusive reeditar Os Brilhantes.

(© O Povo-NoOlhar.com.br)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


Google
Web Nordesteweb