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 'Não sou homem de um estilo só'

05-06-2008

Djavan

Djavan lança 16º disco, enfrenta o risco de abrir gravadora e diz que não abre mão da incoerência

Helena Aragão

   Djavan não gosta de ouvir seus discos antigos. Nem de gravar álbum ao vivo - apesar de reconhecer que ficou feliz com os 2 milhões de cópias vendidos do CD duplo lançado em 1999. Quer sempre encarar o risco, conta ele, porque tem sempre algo a dizer, em letra e música. Agora, aos 55 anos, anuncia nova empreitada: a abertura da gravadora Luanda Records, já com o primeiro produto nas lojas, Vaidade, seu 16º CD.

   Não se trata de uma iniciativa qualquer. Enquanto alguns artistas começam a se mobilizar para comprar seus fonogramas das gravadoras multinacionais ou lançar os próprios selos, o músico alagoano é o primeiro que se dispõe a cuidar de todas as partes do processo: do controle do direito autoral até o marketing, passando pela distribuição nacional - setor que a maioria deixa a cargo de empresas consolidadas. Elegante, diz que não teve problema com a Sony, com a qual trabalhou por 22 anos.

   - Brigamos aqui ou acolá, mas sem conseqüências.

   Evidentemente, não foi só o gosto pelo risco que o levou a investir em uma gravadora.

   - Ninguém sabe o que vai acontecer com o mercado fonográfico. Muitos disseram que seria uma loucura entrar nesse negócio, mas penso justamente o contrário. É bom estar cercado de pessoas entendidas nesta fase delicada.

   Sem grandes ambições (''Não sou um empresário'', diz), Djavan quer usar a gravadora nos mesmos moldes do estúdio que construiu em sua casa, na Barra: com amplitude para lançar outros artistas, se quiser. Só que, por enquanto, além de não pensar em passado, ele também não quer se preocupar com o futuro.

   - Sei que é um mergulho no buraco negro. Já estou com medo da quantidade de pedidos que vou receber...

   Fiquemos no presente, então. Ou seja, em Vaidade. Tal nome bem que pode ser visto como um reflexo do bom momento de sua carreira. Há Djavan na capa do disco - em foto que lembra muito a de Coisa de acender, de 1992 - e na assinatura solitária das 12 faixas. E também no logotipo da gravadora, o mesmo da editora e da produtora do artista, com o acréscimo de um fone de ouvido em seu rosto desenhado de perfil. Mas ele explica que o título do álbum nada tem a ver com egotrip. Pelo menos não a sua.

   - Escolhi este nome por causa da faixa-título, uma música semiinstrumental. A letra fala sobre algo com que os homens não sabem lidar. A alma feminina do homem é que trata da vaidade, algo que nos motiva, mas também pode nos enterrar.

   O disco é marcado pelo uso de orquestra de cordas, pelo som do bandolim de Hamilton de Holanda - instrumentista que Djavan diz ter conhecido pela TV - e pela volta de suas aventuras no terreno do samba, com o qual cria uma divisão rítmica inimitável.

   E, por falar em imitação, o compositor diz até gostar de ouvir os cantores que ''em todo bar com música ao vivo'' copiam seu estilo. E não concorda em classificar como clone o cantor Jorge Vercilo.

   - No começo sofri com a pecha de músico difícil. Se estou sendo imitado, é porque estou acessível. Mas não é o caso do Jorge. Se não o achasse bom, não teria gravado com ele.

   Aos 28 anos de carreira, Djavan revela seus projetos: gravar um disco de voz e violão e outro de intérprete. E, sobretudo, preservar a sua incoerência.

   - A coerência é cíclica. Não sou um homem de um estilo só.  

(© JB Online)


Míssil autoral

Tárik de Souza
Crítica/Disco

   Diferente de Milagreiro (2001), que tinha uma atmosfera experimental e inclinação regional nordestina, Vaidade, o primeiro de Djavan por sua própria gravadora, Luanda Records, é um míssil autoral (todas as composições são dele, sem parceiros) de fragmentação urbana. Mira vários alvos - os que o compositor e cantor alagoano erigiu com sua marca registrada de baladeiro que também balança, de suingueiro de voz lamentosa, levemente bluesy.

   Paradoxal, no grito de independência fez um disco mais comercial que o último, atrelado ao mercadão. E ainda o intitulou Vaidade, além de amarrar duas faixas a campeões de audiência capazes de rebocar as vendas. Se acontecer, a baladona letárgica que abre o CD (a bordo, um daqueles versos atípicos do Djavan letrista: ''que a manhã/ pura e sã/ com as mãos de jasmim'') já integra a trilha da nova novela do horário nobre da Globo, Senhora do destino. Tainá-flor, a única de poética um pouco mais rural, foi feita sob encomenda para o filme Tainá 2, um favorito da garotada com estréia prevista para janeiro de 2005.

   Estratagemas que não deixam a integridade do disco faltando um pedaço. Último grande nome a estabelecer-se na MPB com ressonância de mercado, em meados dos 70, quando várias levas de nordestinos tomaram o Sudeste (os cearenses Fagner, Belchior, Ednardo, os pernambucanos Alceu Valença, Geraldo Azevedo, os paraibanos Elba e Zé Ramalho), Djavan registrou marca estilística, hoje muito xerocada.

   A princípio seu samba quebrado, com desdobramentos melódicos (Fato consumado, Flor de lis), parecia filiado à escola do hoje ministro Gilberto Gil. Mas adições de funk e jazz o fizeram - como Ben Jor - edificar uma caligrafia própria e ao mesmo tempo universalista.

   O sincopado Celeuma e principalmente Mundo vasto (onde recorre a um falsete benjoriano) filiam-se, no disco, a essa corrente, embora o segundo padeça sob o manto de cordas pesadas e supérfluas.

   Ao mesmo tempo, Djavan passou a injetar dissonâncias e compassos alterados a temas de índole romântica, como ocorre no disco em faixas como Amor algum, Sentimento verdadeiro e Flor do medo. Como um desses chefs da nova cozinha espanhola que adicionasse grãos de pimenta num bombom Sonho de valsa.

   Aliás, a valsa, gênero, permeia a faixa-título com sua letra arrependida (''feriu-me de vaidade/ cada verdade dura'') e a rodopiante Bailarina.

   Há ainda tinturas de bolero (Dia azul) e blues (Estátua de sal) e uma singela cantiga de ninar (Dorme Sofia) sob orquestração sinfônica. Sem avançar na linha altamente pessoal que traçou, Djavan mostra em Vaidade que pode fazer (bem) mais do mesmo.

(© JB Online)


Djavan recomeça tudo na vida e na carreira

Lauro Lisboa Garcia

O novo álbum Vaidade é o primeiro por sua nova gravadora. Ouça faixa Se acontecer, que está na trilha da novela Senhora do Destino

   São Paulo - Djavan é um artista que sempre soube administrar bem o talento e correr riscos como motivação profissional. Agora, depois de passar 22 dos 28 anos de carreira contratado da multinacional Sony, decidiu começar tudo de novo. Esta semana chega às lojas o álbum Vaidade, o primeiro por sua gravadora Luanda Records. Não é novidade que grandes astros da música brasileira - como Maria Bethânia e Paulinho da Viola, entre outros - têm migrado para a produção independente ou para pequenos selos, por causa da crise do mercado. Djavan deu um passo adiante. Assumiu todos os riscos de ter uma gravadora própria, incluindo encarar o obstáculo maior para qualquer produtor de discos: a distribuição. "Esse foi o grande desafio", afirma Djavan. "O Brasil é um continente e eu não queria, por estar fazendo independente, que o meu disco tivesse distribuição pior do que tinha antes. Queria que a coisa continuasse no mesmo nível e estamos conseguindo." Um bom indício da repercussão do trabalho é que a balada Se Acontecer, um standard djavânico, está na trilha da novela Senhora do Destino.

   Para Djavan é um recomeço. Não do zero porque a música abrangente do compositor alagoano já conquistou o País e boa parte de Europa, Estados Unidos e países do continente africano. No entanto, a nova situação o coloca de volta ao início da carreira em alguns aspectos, não apenas profissional, mas pessoal. E isso se reflete de alguma maneira nas boas canções do disco. Algumas têm referências nordestinas e dois sambas suingados - Mundo Vasto e Celeuma - remetem ao formato de Fato Consumado e Flor de Lis, seus primeiros sucessos. A vinheta Dorme, Sofia é uma canção de ninar para a filha de 2 anos e 10 meses, do segundo casamento. "Não só por causa da gravadora, mas também em casa estou recomeçando. É casamento novo, tem cheiro de fralda, carrinho de bebê. Tudo isso me trouxe aquele passado de volta."

   Nem por isso as canções têm conteúdo autobiográfico, embora a maioria fale de relacionamentos afetivos. "Um pouco de experiência pessoal sempre tem, mas sou um inventor de canções, vou buscar a situação no outro, na imaginação."

   Como toda boa música, Vaidade é um disco para ser saboreado aos poucos. Cheio de referências jazzísticas e da vasta musicalidade do compositor, tem riqueza de detalhes que dá prazer descobrir - como a presença da guitarra do filho Max Viana na funkeada Flor do Medo, o bandolim chorão de Hamilton de Holanda em Vaidade e o belo traçado do piano de Renato Fonseca em Sentimento Verdadeiro. Este é o Djavan integral. No dia 15, ele estréia turnê nacional em São Paulo. Recuse imitações.

(© O Estado de S. Paulo)


Bicho solto mesmo

Hugo Sukman

   O choro-canção levíssimo “Bailarina”, a melodiosa valsa “Vaidade”, a toada nordestina com toque andaluz “Se acontecer”, o maxixe meio calango “Tainá-flor”, o blues clássico “Estátua de sal”, a volta ao samba em “Celeuma” (mais clássico, tipo “Flor de lis”) e “Mundo vasto” (mais quebrado, bem pessoal, tipo “Êxtase”, “Aquele um”), o acalanto “Dorme Sofia”, o funk “Flor do medo”...

   O repertório de “Vaidade”, novo disco de Djavan, é tão variado e livre esteticamente que parece trabalho de um iniciante em busca de estilo.

   — Depois de 28 anos de carreira na qual já se fez de tudo e se marcou um estilo forte, tudo o que se quer é parecer outro — orgulha-se Djavan.

   O compositor de fato se sentiu outro durante a realização de “Vaidade”, não um outro qualquer, talvez alguém muito próximo daquele jovem alagoano de voz bonita tentando mostrar no Rio seus sambas, coisas como “Fato consumado”.

   — “Vaidade” é como um vôo no escuro, parece mesmo coisa de início de carreira — diz Djavan, referindo-se ao fato de que se trata do primeiro disco lançado por sua própria gravadora, a Luanda Records, não um selinho qualquer, mas uma gravadora mesmo, que cuida da gravação ao marketing, tornando o compositor o primeiro grande da MPB a arriscar tanto em meio à crise do mercado. — Mas não é só isso: estou com uma filhinha de 2 anos e 9 meses, casamento novo, totalmente influenciado pela delicadeza delas, minha mulher e minha filha, pela inspiração feminina.

   A mistura de reinício de carreira com o início de nova família fez com que ele, inconscientemente até, dispusesse-se a compor canções de formato mais clássico, menos escancaradamente djavânicas .

   — Ainda sou novo mas (ele é de 1949) já trabalhei muito. No início de carreira é fácil arranjar motivos para trabalhar: ganhar dinheiro, auto-afirmação, ser valorizado. Depois de 28 anos é preciso novos desafios. E esse disco me trouxe isso — afirma o autor do disco “Bicho solto” (de 1998, que trazia o sucesso “Eu te devoro”), agora botando em prática o sugestivo título, deixando o bicho solto mesmo, livre.

Compositor diz que sua gravadora foi bem recebida

   Depois de um disco na Som Livre, três na EMI-Odeon e 11 na Sony — um dos quais, o duplo “Djavan ao vivo”, vendeu um milhão de unidades, ou seja, dois milhões de discos — Djavan resolveu começar sua renovação criando sua própria gravadora. Virou independente não por necessidade, mas por desejo e, apesar do vôo no escuro, ele não se arrepende.

   — Só o que eu posso dizer é que o mercado foi muito receptivo à iniciativa. Tanto as grandes lojas, as rádios, o mercado como um todo recebeu bem a iniciativa — diz Djavan, que já tem a faixa “Se acontecer” na trilha de “Senhora do destino” e bem tocada no rádio, tudo, garante ele, sem os procedimentos viciados da indústria, tipo jabá ou “investimentos” de marketing. — Estou cercado por gente muito experiente no mercado, como a Mara Rabello (empresária do cantor há muitos anos) , o Edson Coelho (executivo que trabalhou com Djavan na EMI do fim dos anos 80 e na Sony) . Mas o mercado muda a cada dia, está em transformação, por isso houve essa boa receptividade. Está aberto a idéias e procedimentos novos.

   A independência de Djavan já vinha sendo ensaiada há anos. Desde o disco anterior, “Milagreiro”, ele grava no bem equipado estúdio que construiu em casa, não por acaso chamado Em Casa.

   — Mas para manter a disciplina, eu vou ao estúdio como quem vai trabalhar. Eu me visto, vou para lá e evito aquela história de dar um passadinha em casa para comer alguma coisa.

   É responsável também, há alguns anos, pelos arranjos de todas as canções. Inclusive os de cordas.

   — Crio os arranjos no teclado e o computador já transcreve as partituras. Aí passo para o Luiz Avellar, que vai reger e faz correções para ajustar as cordas à pulsação da minha música.

   E, no caso de “Vaidade”, Djavan é autor de todas as letras e músicas das 12 canções. Mas apesar disso tudo — ser o autor, o arranjador, o dono do estúdio, da gravadora, e até o pai de dois dos músicos, o guitarrista Max e o baterista João Viana — ele garante que o título “Vaidade” não é auto-referente.

   — Não, não é mesmo — ri Djavan. — O pessoal lá de casa também implicou com o título, na verdade só eu o defendia. É que é o título de uma canção das que eu mais gosto do disco. Ela não só reflete, na letra, o espírito feminino do disco, pois fala de um homem que pede perdão por ter sido vaidoso, como tem uma melodia que eu adoro. Fiz questão de fazê-la semi-instrumental, chamando para solar o (bandolinista) Hamilton de Holanda, para mim um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Quis valorizar a música.

   A compulsão por compor, refletida em “Vaidade” mas também em quase todos os discos do cantor, é notória.

   — Só a música nova me salva — diz — Chego exausto, exaurido, vazio de uma turnê. Aí vem a necessidade, física mesmo, de compor. Por isso, observe, nunca fiz discos que poderia fazer, tipo voz & violão, ou só de intérprete. Mesmo o “Ao vivo”, só de sucessos, eu me sentia meio brincando. Trabalho é compor.

   Depois da longa turnê de “Milagreiro”, ele chegou ao estúdio apenas com duas canções prontas, o samba “Celeuma”, feito para Mart’nália (e que estará no DVD da cantora), “Tainá-flor” (para o filme “Tainá 2”, que sai em janeiro) e umas cinco melodias.

   — O ambiente dos músicos me leva a compor. Componho de madrugada e gravo de manhã.

   Madrugadas que geraram os versos tão representativos de “Bailarina”: “Sou um barco navegando/Alto-mar por você/A me desbravar sem medo/Com um desejo incontido/Invadindo a canção”. Versos de um artista maduro com o fogo do iniciante cujos desejos invadem canções.

(© O Globo)


Marcas registradas de um cantor e compositor que orgulha a MPB

Antonio Carlos Miguel

   “Se acontecer”, abrindo o disco, primeira música de trabalho (e um dos temas que farão parte da trilha da atual novela das 21h na Globo), é, para o bem e para o mal, pura balada djavanesca . É bem possível que aconteça nas rádios, seja mais uma canção dele incorporada ao repertório dos barzinhos, mas pouco acrescenta ao que o compositor alagoano já fez no gênero. Esse padrão-Djavan, no entanto, deve ser entendido como um trunfo para a música popular brasileira e é suficiente para garantir interesse a seu novo disco, “Vaidade”.

   Em meio às 12 faixas inéditas, há boas surpresas. Dois grandes sambas, por exemplo, “Mundo vago” e “Celeuma”. Sambas tortos, sincopados, de andamento inusitado, cheios de quebras e subidas de tom. Ou seja, típicos da lavra de Djavan, mas que o próprio não fazia há anos. “Mundo vago” é conduzido por seu violão, a bateria de seu filho, João Vianna, e tem o contraponto do naipe de cordas (regência de Luiz Avellar para arranjo do próprio cantor) e do teclado de Renato Fonseca. Enquanto em “Celeuma” o violão de Djavan dialoga com o piano de Fonseca e a guitarra semi-acústica do outro filho do cantor, Max Vianna. Além das composições e do tratamento instrumental, as letras mostram uma evolução de Djavan, que aposta na sonoridade das palavras, mas agora com mais conteúdo e sentido.

   Ritmos e gêneros musicais costumam ser embaralhados por Djavan, compositor que também transita pelo pop e até pelo jazz. Mas “Vaidade” traz mais canções próximas de estilos tradicionais, como a faixa-título, balada emoldurada pelo bandolim de Hamilton de Hollanda que fica entre a valsa e a seresta. Em escaninho próximo, “Bailarina” é choro-canção que, fazendo jus ao título, baila com graça e maestria. Muito bem construído, versos e desenhos melódicos e rítmicos que se entrelaçam, o tema é enriquecido pelos vocais em scat , no meio e no fim, que funcionam como comentários do cantor.

   A veia pop — em temas que poderiam estar no repertório de gente como Stevie Wonder, Sting e Peter Gabriel — também convence. “Flor do medo” é perfeita conjunção de melodia atraente e ritmada, senso harmônico, letra com assumido romantismo já no convidativo verso de abertura: “Venha me beijar de uma vez”. Some-se a isso um cantor de timbre pessoal, emissão perfeita, divisão inteligente e o uso de um preciso scat , que antecede o elétrico solo de guitarra de Max Vianna, e temos uma canção pop que é Djavan em sua melhor forma. Mais balada pop djavanesca em “Amor algum”, novamente guitarreira, (boa) influência de Max Vianna. Exemplos de sobra, portanto, para um disco do qual Djavan pode se orgulhar. Sem vaidade.

(© O Globo)


Perfeição como vaidade

Mônica Loureiro

   Ser contratado de uma gravadora multinacional não é mais vantagem para nenhum artista. Pelo menos é o que aponta a tendência do mercado, que vem ampliando o caminho para os independentes. Aliás, este termo não vai demorar a cair em desuso. Afinal, o número de artistas que hoje estão tocando suas carreiras por si mesmos é bem significativo - e o fenômeno se estende por todo o País.

   O "libertado" mais recente é o perfeccionista Djavan, que está lançando o CD "Vaidade", o 16º álbum de carreira, através de sua gravadora Luanda Records. Enquanto colegas optaram por criar selos - como Maria Bethânia, Zélia Duncan, Milton Nascimento - o alagoano ousou ao montar uma gravadora e um estúdio próprios, com uma estrutura completa.

   "Não posso determinar teorias sobre a independência fonográfica, ainda me considero no escuro. Sei que as coisas vêm mudando e, se isso for uma tendência, só o tempo dirá. Com a criação da Luanda, eu tentei me antecipar a essa transformação, além de considerá-la um desafio maravilhoso, uma motivação rara em 27 anos de carreira", diz Djavan.

   Mas quem pensa que ele brigou com a Sony, sua gravadora anterior, se engana. Pelo menos, o cantor e compositor procura amenizar o rompimento. "Sempre tive um bom relacionamento com a Sony, claro que houve algumas brigas como qualquer `casamento' de 22 anos. Continuamos sócios no catálogo e ela está responsável pela fabricação e entrega do disco novo", esclarece. Sobre a liberdade de criação, ele também é taxativo:

   "Não foi para isso que criei uma gravadora, porque por toda a minha vida tive liberdade para trabalhar. Essa é uma coisa que deve ser imposta no início de carreira, só assim se consegue". Segundo Djavan, à Sony não interessava o seu desligamento, mas ainda assim não houve maiores problemas na hora de rescindir o contrato. "O fim de nosso relacionamento foi só no aspecto de contratação exclusiva", reforça.

Preço mais em conta

   A Luanda Records foi montada em um ano e mobilizou pessoas do Brasil inteiro. "Estamos com departamentos de marketing, de produção e também entramos na área de distribuição, que é, sem dúvida, o fator mais complicado assim como a construção do estúdio Em Casa. Mas, por enquanto, tudo tem funcionado bem, inclusive o mercado varejista está sendo bastante receptivo", anima-se, avisando que a idéia é que a gravadora não se restrinja a seus discos e de seus filhos. "Recebo muitas fitas, discos, livros de poesia. O que tiver ao nosso alcance, faremos".

   "Vaidade" chega hoje às lojas brasileiras com, segundo o artista, uma "tiragem responsável" e um preço menor do que o praticado atualmente. Preços, aliás, são o "calo" das grandes gravadoras e o principal pretexto dos consumidores de produtos piratas.

Louras

   Djavan não espera repetir a vendagem do "Ao vivo", que chegou à marca dos 3 milhões. "É curioso como esse tipo de trabalho atrai um público efêmero, que passa. Na época da turnê, percebi que estava entrando muita loura, daquelas que perseguem jogador de futebol, no camarim... Depois, com `Milagreiro', elas sumiram!", brinca. Mas você lamentou isso? "Não! Eu não procuro cor e, sim, qualidade. Aliás, não estou procurando nada! Sou casado e muito bem casado com a (morena) Rafa!", apressa-se em lembrar.

   Para o lançamento no exterior, há a possibilidade de uma negociação diferenciada. "Vamos fazer um trabalho de país em país", diz. O show de lançamento acontece no próximo dia 15 no DirecTV Hall, em São Paulo. No Rio, só em agosto, dia 13, no Claro Hall.

Tempo para reinventar

   Djavan diz que "Vaidade" foi o disco mais demorado de sua carreira. "Comecei a trabalhar no dia 3 de novembro de 2003 e só o finalizei em maio. Ele tem arranjos de cordas em cinco faixas e, como sempre, faço as letras, músicas, toco, arranjo e produzo", comenta. O disco tem 12 faixas, produzidas e arranjadas por ele e com regência de Luis Avelar. "Conheci Luis em 1979 e trabalhamos juntos até o disco `Lilás'. Ele fez parte de minha primeira banda, a Sururu de Capote", destaca.

   Com exceção das faixas com cordas, a banda é a mesma do disco anterior, "Milagreiro": João e Max Viana (bateria e guitarra), Renato Fonseca (piano) e Sergio Carvalho (baixo). "Agora eles estão no ponto! Trouxe também o Marcelo (Martins, saxofonista) para me dar um auxílio luxuoso. Ele já conseguiu chegar a fase em que uniu o instrumento ao coração", elogia.

   "Quero muito que este disco soe diferente, apesar de que meu processo de criação se repetir no formato. Costumo entrar em estúdio com pouquíssimas músicas e geralmente sem letra. Em `Vaidade', por exemplo, só `Celeuma' estava pronta, porque eu tinha feito para Mart'nália. Pegando aquela atmosfera de estúdio, vou para casa e componho à noite. Sempre com a idéia de mudar, de reiventar", conta.

   Entre as outras faixas, estão "Se acontecer" - já incluída na trilha da novela "Senhora do destino" - "Tainá-flor", feita para o filme "Tainá 2"; "Dorme, Sofia", composta para a filha que hoje está com dois anos e 9 meses, além do samba "Mundo vasto".

   Sobre o título, Djavan conta que enfrentou resistências. "Fui muito contestado, até em casa... Mas quis chamar a atenção para a música, que considero a mais importante do disco. Eu convidei Hamilton de Holanda, que considero um dos instrumentistas mais precisos, para dividir o solo comigo. É uma canção que fala claramente da alma feminina do homem", diz. Se é vaidoso, Djavan diz que sim, mas não no sentido físico: "Minha vaidade é uma só, a de querer fazer direito tudo que faço. Sempre quero demonstrar que tenho capacidade", diz.

(© Tribuna da Imprensa)

 

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