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05-06-2008
Dois paraibanos ganharam os prêmios de melhor atriz e ator: Sóia Lira, que vive do que ganha no balcão de uma lanchonete, e Jurandir Oliveira, que já foi pedreiro Maria do Rosário Caetano Fortaleza - Ao contrário do ano passado, quando o júri oficial do Cine Ceará atribuiu todos os prêmios a um só filme (Amarelo Manga), este ano houve intenção explícita de procurar o melhor em cada um dos cinco concorrentes. Todos os longas receberam pelo menos um prêmio, no festival que homenageou o cineasta Walter Salles. Mas o grande vencedor foi Lost Zweig, de Sylvio Back. O drama histórico, que acompanha a última semana de vida do casal de judeus-austríacos Lotte e Stefan Zweig -- eles recorreram ao suicídio em Petrópolis, no Carnaval de 1942 -- foi eleito o melhor filme, e Sylvio Back o melhor diretor. Ganhou ainda os prêmios de melhor fotografia (Antonio Luiz Mendes) e trilha sonora (do maestro Paulo Moura). O segundo longa mais premiado do festival foi O Quinze, produção carioca-cearense, baseada no romance homônimo de Rachel de Queiroz. Seus protagonistas - os atores paraibanos Jurandir Oliveira (também diretor do filme) e Sóia Lira - foram eleitos os melhores intérpretes. O filme recebeu, ainda, o prêmio da Crítica e o APCNN (Associação dos Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste). Ninguém esperava muito da versão cinematográfica de O Quinze. Afinal, antes dela, três diretores tentaram e não conseguiram levar às telas o primeiro romance de Rachel de Queiroz (ela tinha apenas 19 anos quando o escreveu). A produtora cearense, Letícia Menescal, afilhada da escritora, conseguiu captar R$ 1,2 milhão e fazer, como diz o ditado, de um limão uma limonada. Ou seja, com baixo orçamento, realizar filme histórico (a trama se desenrola na Seca de 1915, uma das mais terríveis da história nordestina). O filme tem problemas, mas convence por sua garra e força documental. Jurandir Oliveira, diretor e principal ator de O Quinze, forma com Sóia Lira um convincente casal de retirantes. Ele é Chico Bento, ela, Cordolina. Os dois fogem da seca na companhia de quatro filhos pequenos e de um cachorro. Vão parar num campo de concentracão de flagelados nos arredores de Fortaleza e lá reencontrão a professora Conceição (Karina Barum), moça letrada que tem muito da biografia de Rachel de Queiroz. E que ama o primo, Vicente (Juan Alba). Ele também se interessa por ela, mas a seca o leva a priorizar a busca de alimento para o gado e meios capazes de debelar a praga de carrapatos que assola as fazendas da região de Quixadá. O casal de retirantes convence mais que o casal Conceição-Vicente. Jurandir e Sóia Lira têm o biotipo e a pele tostada de sol dos sertanejos nordestinos. Ambos conheceram a pobreza no meio familiar e na vizinhanca que circundou suas infâncias e juventudes. Sóia carrega história de vida semelhante à de Marcélia Cartaxo (Urso de Prata em Berlim, com A Hora da Estrela). As duas começaram a trabalhar em teatro em Cajazeiras, na Paraíba. Com o Grupo Terra, fizeram Beiço de Estrada, grande sucesso do Projeto Mambembão. Foi no elenco desta peça que Suzana Amaral descobriu Marcelia. Sóia assistiu, discretamente, ao triunfo da colega no Festival de Brasília-85 e em Berlim-86. Seguiu fazendo teatro e agregou-se ao Grupo Piolim, dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos. Uma das montagens do grupo, Vau da Sarapalha, de Guimarães Rosa, causou grande impacto no meio teatral e teve, entre seus espectadores, o cineasta Walter Salles. Ao realizar Central do Brasil, Walter escolheu Sóia Lira para interpretar a mãe de Josué (Vinícius de Oliveira). Órfão (a personagem de Sóia morre atropelada numa rua do Rio), o menino inicia viagem Brasil a dentro na companhia de Dora, ´escrevinhadora´ de cartas interpretada por Fernanda Montenegro. Sóia lembra que entrou "em pânico" quando chegou ao set e deparou-se com Fernanda Montenegro. "Comecei a chorar e disse a Walter que não ia dar conta do meu papel". O cineasta fez de tudo para acalmá-la. "Lembrei a ela, que nossos testes de seleção haviam escolhido a magnífica atriz que conheci no elenco de Vau da Sarapalha e que tinha certeza que ela faria um belo trabalho. E foi o que ela fez". Hoje, Sóia vive em João Pessoa. Tira seu sustento de uma modesta lanchonete. "Como não dá para viver de teatro e cinema (além de Central do Brasil, atuou em Árvore da Marcação e Árvore da Miséria), eu vivo no balcão da minha casa de lanches. Coloco um pano na cabeça, faço e vendo sanduiches, salgados e sucos. E assim, vou levando". O prêmio de melhor atriz no Cine Ceará vem em boa hora. Marcélia Cartaxo, que acaba de regressar ao seu estado natal (depois de duas décadas morando no Rio) foi a primeira a abraçar a amiga. O melhor ator - A história de Jurandir Oliveira também é muito parecida com a de Soia Lira. Paraibano, filho de pai pedreiro, ele aprendeu desde cedo o ofício. Migrou para o sul e continuou trabalhando como pedreiro. Um dia, encontrou o ator Nelson Xavier, que o convidou para atuar no filme A Queda, cujo principal cenário eram as obras do metrô carioca. Jurandir passou, dali em diante, a exercitar-se nos ofícios de ator e de pedreiro. Sua habilidade para a construção civil o levou a um terceiro ofício: o de cenógrafo de cinema e de teatro. Construiu cenários para Nelson Pereira dos Santos (em A Terceira Margem do Rio) e para produções de Mariza Leão. Criou os cenários de versão inacabada de O Quinze, que tinha direção do potiguar Augusto Ribeiro Jr. O cineasta morreu de ataque do coração, em 1997 e deixou menos de 20% de imagens do filme impressas em película. Parte deste material seria usada em documentário de média-metragem sobre Rachel de Queiroz, dirigido por Jurandir. No filme O Quinze, que teve sua avant premiere no Cine Ceará, Jurandir começou da estaca zero. Trouxe para o projeto a atriz Maria Fernanda (filha de Cecília Meirelles), que interpreta Mãe Inacia, avó da professora Conceicão, e a jovem Karina Barum. Principal ator do curta Como Se Morre no Cinema (making of póstumo de Vidas Secas), dirigido por Luelane Corrêa, montadora de O Quinze, Jurandir, o pedreiro que virou ator, transforma-se agora em diretor. Em agosto, ele vai mostrar O Quinze no Festival de Gramado (o filme é um dos cinco selecionados da competição brasileira) e tem convite para o Festival de Montreal, no Canadá. Nada mal para um operário da construção civil. No campo do curta-metragem, dois títulos roubaram a festa no CineCeará: Formigas, da cearense Verônica Guedes, baseado em conto homônimo de Lygia Fagundes Telles, e Desirella, animação dirigida pelo paulistano Carlos Eduardo Nogueira, formado em Artes Plásticas pela USP. (© O Estado de S. Paulo) Vencedores - 14º Cine Ceará Após sete dias de Festival, o XIV Cine Ceará foi encerrado na noite de terça-feira, dia 29, com o anúncio da premiação para os longas e curtas-metragens exibidos nas mostras competitivas. Concorreram aos prêmios cinco longas-metragens e 28 curtas-metragens (14 em película e 14 em vídeo). O título de melhor filme de longa-metragem ficou com Lost Zweig, do diretor Sylvio Back, que recebeu também o Prêmio Banco do Nordeste de Cinema, no valor de R$ 10.000,00. O melhor curta-metragem escolhido pela Comissão Julgadora foi Formigas, da diretora Verônica Guedes, que também recebeu o Prêmio Banco do Nordeste de Vídeo, no valor de R$5.000,00. Os prêmios foram outorgados por dois júris, um para cinema de longa-metragem e um para curta-metragem em cinema e vídeo. A mesa do júri de longa-metragem foi composta por Myrna Brandão (RJ), Sérgio Sanz (RJ), Geraldo Moraes (DF), Luiz Zanin Oricchio (SP), Vladimir Carvalho (PB), Rosemberg Cariry (CE) e Regina Martins (RS). Compondo a mesa do júri de curta-metragem em cinema e vídeo estiveram presentes Malu Moraes (DF), Carlos Brandão (RJ), Marcelo Lyra (SP), Pedro Jorge de Castro (CE/DF), Maria Muricy (RJ). Premiação Longa-metragem: Melhor filme: Lost Zweig Curtas-metragens (Película): Melhor filme: Formiga Premiação Curta-metragem (Vídeo): Melhor vídeo: Desirella Premiação Animação (Entre Filmes e Vídeos): Desirella Melhor Produção Cearense : Formigas Além dos prêmios concedidos pela direção do XIV Cine Ceará, o Festival firmou parcerias que resultaram em outras premiações. A TVC exibiu de quinta a domingo últimos todos os Curtas exibidos neste Festival e pediu para que o telespectador votasse pelo correio eletrônico. E o vencedor foi O Sorvete, curta da categoria Experimental de Marcelo Teixeira e Marco George. A Mostra Olhar do Ceará premiou, com base num juri popular que votou por telefone, o curta Achados e Perdidos de Ives Albuquerque, com o Troféu Euselio Oliveira e um prêmio em serviços da casa de Cinema. A Empresa quanta ofereceu R$ 6 mil para o melhor filme e R$ 4 mil para a melhor produção cearense. A Kodak ofereceu latas de negativo e a Link Digital ofereceu 4 horas de telecine off-line. A Fundação Demócrito Rocha concedeu o Premio Samburá de Cinema ao Melhor Curta e Melhor Longa Metragem exibidos nas Mostras Competitivas deste Festival. O júri formado por Frederico Fontenele, Wilson Baltazar e Antidio Barbosa de Oliveira Filho escolheram como Melhor Curta, o filme de Amílcar Claro, Imensidade, e como Melhor Longa, Noite de São João, de Sérgio Silva. A Critica Especializada concedeu prêmios ao Melhor Curta e ao Melhor Longa Metragem que são, respectivamente, Desirella, do diretor Carlos Eduardo Nogueira e O Quinze do diretor Jurandir Oliveira A Associação de Produtores e Cineastas do Norte e Nordeste concedeu o premio de Melhor Curta a Hansen Bahia, de Joel de Almeida e de Melhor Longa, O Quinze, de Jurandir Oliveira,que serão entregues por Vladimir Carvalho e Marcélia Cartaxo. O Canal Brasil ,pela primeira vez concede premio no Cine Ceará. E escolheu como Melhores Curtas Metragens A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante,e Formigas, de Verônica Guedes, que ganharão 5 mil reais cada, e serão exibidos em rede nacional. (© Site Cine Ceará)
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