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A ironia peçonhenta de João Ubaldo Ribeiro

05-06-2008

João Ubaldo Ribeiro

Autor reúne crônicas publicadas pelo 'Estado' cuja marca é a crítica mordaz

UBIRATAN BRASIL

   Desde que decidiu não participar da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa no dia 7, o escritor João Ubaldo Ribeiro passou a intensificar sua participação no lançamento do livro Você me Mata, Mãe Gentil (256 págs., R$ 26), reunião de 56 crônicas publicadas no Estado entre 1999 e 2004, lançada agora pela Nova Fronteira. "Tenho de ajudar na promoção, mas confesso que isso atrapalha o trabalho no meu novo livro", comenta o autor. "Às vezes, por causa da interrupção, levo uma semana para retomar o fio da meada."

   Ubaldo está decidido a não participar da festa em Paraty, por julgar que vinha recebendo um tratamento abaixo de sua importância literária.

   "Abandonei, mas sem brigas. Desejo sucesso a todos", afirma, colocando um ponto final no assunto. Um Ubaldo de poucas concessões? Ele se apressa a negar qualquer vedetismo, mas reconhece que a ironia, marca registrada em suas crônicas, tem sido mais peçonhenta ultimamente.

   É o que se pode observar na seleção que compõe Você me Mata, Mãe Gentil. Se no primeiro texto, Grande Ano, Este, publicado em 10 de janeiro de 1999, Ubaldo é brincalhão ao tratar da obrigação dos carros portarem kit de primeiros socorros, no último, E onde Fica a Incompetência?, que o Estado publicou no último 25 de abril, a ironia é quase totalmente substituída pela indignação. "Não percebi essa diferença, pois não fiz a seleção das crônicas, mas, como fiquei mais velho, acho que fiquei mesmo mais desiludido", afirma. "Não espero muito do ser humano, pois acredito que quem vai herdar esse planeta vai ser a barata, a única sobrevivente da destruição provocada pelo homem."

   Ubaldo parece ser o homem ideal para anunciar o fim do mundo, pois fala do apocalipse com sua habitual voz tonitruante, modelada pelo malemolente ritmo de falar dos baianos, além do sorrisinho inquebrantável. É como se anunciasse um mal que não vai doer tanto. Mesmo assim, ele jura que vive um momento mais otimista. E utiliza o livro que está escrevendo como prova.

   Prometida à Nova Fronteira há mais de dois anos, a obra vem ganhando novos formatos. "Se eu tivesse escrito o livro no prazo combinado com a editora, certamente seria um texto muito sinistro, amargurado. Por isso, até que o atraso tornou-se um fato positivo."

   Como não tem o hábito de esquematizar a história que vai escrever ("o assunto vai brotando naturalmente"), Ubaldo conta que pode estar preparando um livro alegre, quem sabe até escapista. "Talvez eu fale da minha terra, Itaparica, de uma forma nostálgica, recriando um mundo alegre e cheio de esperança, habitado por pessoas que tenham defeitos, mas também virtudes", explica, sem dar pistas concretas.

   As críticas, portanto, continuam alimentando suas crônicas. Ubaldo conta, por exemplo, que não pretende voltar tão cedo aos Estados Unidos, país com o qual mantém, há anos, uma agradável relação. "Aprendi inglês menino, com americanos, e até hoje costumo resmungar em inglês", explica. "Mas, em uma das últimas vezes que fui lá, a convite de uma universidade, fui tirado da fila de embarque por um policial que não foi com minha cara de feições árabes. Além de me revistar por inteiro, fez com que seu cachorro me cheirasse em todas as partes do corpo, sem nenhum exceção. Assim, tornou-se difícil visitar um país assombrado pelo medo."  

(© O Estado de S. Paulo)

 

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