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05-06-2008
Durante um mês, os leitores enviaram as perguntas que gostariam de fazer ao Fred Zero Quatro. Foram selecionadas 15 delas e cada leitor ganhou um CD. Leonardo Ortolani André (São Paulo, SP) Como é possível (se é que é) viver de boa música, entenda-se boa música como aquela que sai da alma do artista, de forma poeticamente instigante e original, temperada com suas experiências de vida e influências musicais/culturais, sejam elas regionais ou não, num país onde a maior parte do povo tem como referência apenas noticiários e programas de empresas de mídia claramente comprometidas com as elites? Caro Leonardo, não é fácil, mas não impossível. O povo brasileiro no fundo é muito musical e, pode acreditar, tem muito bom gosto. Acho que somos um dos povos naturalmente mais musicais do ocidente. Você está absolutamente certo em seu diagnóstico, o problema se resume a isto: acesso à informação. A indústria cultural brasileira - e especialmente a indústria fonográfica - vinha sendo controlada à mão de ferro por um cartel reduzidíssimo de corporações multinacionais, cujo objetivo prioritário era gerar lucros para seus investidores - da forma mais insana, predatória e irresponsável possível, um pouco como vêm fazendo os bancos, nacionais e estrangeiros. Só que ele avançou com tanta fúria no pote que o quebrou, como estão acostumado a fazer mundo afora. Isso está no seu instinto, e o Estado clientelista brasileiro colaborou de todas as formas, omitindo-se do papel regulatório que lhe cabia. Para nossa sorte, deu no que deu. A indústria quebrou, corroída pela pirataria e pelas práticas fraudulentas que ela própria fomentou. Não é muito diferente do que aconteceu com gigantes de Wall Street como Enron, AES e outras: corrupção, balanços fajutos, falta de transparência, contabilidade "criativa" e por aí vai. Mas ele não tem culpa, é da sua natureza, você sabe...Agora vemos a ruína, demissão em massa, rádios falidas, lojas fechando e jornalistas apalermados sem saber a quem apelar, com seus empregos também ameaçados. Ou seja, só temos a celebrar, pois os dias da música contaminada e corrompida estão contados.
Caro Márcio, o cenário, como sabemos, é de terra arrasada. Mas
como dizem sabiamente os orientais, crise é sinônimo de oportunidade.
Podemos muito bem estar vivendo um novo eldorado! Acho que os horizontes
serão mais generosos com aqueles que tiverem os espíritos mais ousados e
empreendedores. Com as novas tecnologias, as possibilidades se multiplicam
e também se tornam cada vez mais acessíveis. É claro que tudo vai depender
muitíssimo do cenário econômico e político, ou seja, um "espetáculo do
crescimento sustentável" seria não só bem-vindo, mas fundamental. A meu
ver, o governo, apesar de tudo, está sinalizando com algo muito positivo,
que é a política de microcrédito para novos empreendedores, através dos
grandes bancos estatais como BNB (sigla), BNDES (sigla) e CEF (sigla). O
Banco do Nordeste, por exemplo, está anunciando algo inédito, um programa
de financiamento de bilhões de reais para o setor cultural. Demorou! Caríssima Eliane, acho mesmo que, conceitualmente, a internet é uma mídia muito mais interessante para o compositor que o cd, mas você tem razão. Se não houver uma política eficaz - de médio e longo prazo - de distribuição de renda, alfabetização e inclusão digital, essa alternativa se tornará inviável. O fato é que estamos vivendo basicamente de shows e, por outro lado, não há como não perceber que o cd está sendo progressivamente abandonado pelo mercado. Não entendo por que o governo, o congresso, enfim o Estado brasileiro permanece se omitindo - ou agindo de forma muito tímida - em relação ao sistema de radiodifusão, que está sendo sucateado. Tratam-se, afinal, de concessões públicas. Tudo isso precisa ser revisto e redemocratizado. Aqui em Recife, eu, como presidente do Conselho Municipal de Cultura, estou pressionando - junto com algumas entidades como o Centro Josué de Castro e o Sebrae/PE - a prefeitura a regulamentar uma lei já votada e aprovada pela Câmara de Vereadores, que institui uma emissora pública municipal - a Rádio Frei Caneca.
Caríssima Ísis, pretendemos continuar modestamente caminhando, fazendo
amigos - e inimigos, por que não? - e tentando influenciar pessoas nessa
marcha que iniciamos em 94 com o lançamento de nosso primeiro disco. Como
diria o subcomandante Marcos, o legado que queremos deixar pra nossos
filhos não é pouco, É nada menos que um mundo melhor...
Caríssima Maria Fernanda, não sei se entendi bem o espírito da pergunta,
eu diria que é vergonhoso saber que num país de natureza tão exuberante e
fértil, existem milhões de pessoas que não ganham nem esse salário de
fome. Não sei o que eu faria, mas posso enumerar algumas coisas que com
certeza não faria. Não compraria o carnê do Baú. Não torceria pelo
Rubinho. Não tomaria coca-cola. Não apostaria nos caça-níqueis. Não iria
pra missa. Não iria pro shopping. Não confiaria na polícia. Nem na Força
Sindical...
Caro Alberto, a julgar pelo que a gente vê nos shows, nosso
público é muito heterogêneo. Tem pré-adolescentes, cinquentões, surfistas,
skatistas, ecologistas, recepcionistas, zapatistas, professores,
ativistas, publicitários, playboys... A música "Meu Esquema" - eu não pude
evitar - entrou até numa coletânea do dia dos namorados encartada na
revista "Capricho". Quanto às nossas influências, são muito variadas:
The Clash, Jorge Ben, Gainsbourg, Moreira da
Silva, Pinduca, Sam Cooke, Roy Orbinson,
Gang of Four, Siba e Fuloresta, Maciel Salu,
Instituto, Outkast, Asian Dub Foundation,
Radiohead e muitas outras. Ultimamente, tenho ouvido um bocado de
coisa: Nação Zumbi , Nação Zumbi , Nação Zumbi
...
Caro Thiago,o mesmo tipo de avaliação ele já proferiu em relação
à bossa–nova e Tom Jobim. Não tenho mais nada a comentar, a não ser que
considero Suassuna, como analista cultural, um excepcional dramaturgo.
Caríssima Luana, Modéstia à parte, acho bastante apropriado e me
sinto enormemente gratificado. O clipe de "O Outro mundo de Xicão Xukuru"
(música de nosso último disco) também vem sendo utilizado por uma ong que
promove oficinas de leitura e interpretação com crianças e adolescentes da
periferia do Recife. Achamos que a música popular tem um poder
irresistível e sempre é bom saber que outras pessoas têm a mesma opinião.
Caro Leonardo, sinceramente, não vejo muita diferença entre Bush,
Kerry ou qualquer dos reais aspirantes à Casa Branca. Como alguém já
disse, as eleições americanas são sempre disputadas por um único partido,
o "republicrata". Alguém aí se lembra qual foi a primeira ação concreta de
política externa de Clinton como presidente?, Bombardear o Iraque, isso
mesmo, sem nem sequer consultar a ONU. Motivo aparente: seu índice de
popularidade baixíssimo. Quem se interessar em relembrar a grande coleção
de feitos do sanguinário Clinton, vai encontrar muita coisa em alguns
livros de Noam Chomsky lançados no Brasil.
Caro Diego, é justamente por isso que eu venho festejando o
desmonte progressivo do atual modelo da indústria fonográfica.
Teoricamente, nada mais impede que a música popular volte a cumprir um
papel sócio-cultural que já foi determinante em outros tempos no Brasil.
Caríssima Ana Carolina, não se desespere. Como já disse, há
sinais e focos de guerrilha cultural se multiplicando em todos os cantos
do país. Quando você menos esperar, a revolução estará entrando em sua
casa via rádio, tv ou internet. Quem viver, verá. Alexandre Marcelo Bueno (São Paulo, SP) - A música, assim como outras formas de arte, pode ser encarada como uma forma de resistência ao processo predatório, também conhecido como globalização. Minha pergunta é: como passar da resistência ao "ataque"? Como transformar a matéria artística em ação política e ideológica? Caro Alexandre, reitero o que disse a Ana Carolina, e
complemento: acho que um passo decisivo será dado quando os
músicos, poetas, compositores e artistas em geral compreenderem
a importância da articulação coletiva e da consolidação de redes
independentes. É preciso criar mais associações, cooperativas,
federações e fortalecer os sindicatos. Aqui em Recife, foi
criada recentemente uma associação chamada AMPE - Articulação
Musical Pernambucana. Também foi realizado um estudo sobre a
cadeia produtiva da música local, que vai gerar um fórum
permanente com bandas, estúdios, rádios, produtores,
jornalistas, técnicos, casas de espetáculo, gestores, lojistas
etc. São passos concretos e bastante animadores. Caríssima Francisca, só a título de esclarecimento, o
nome de nossa banda (fundada em plena guerra fria em 84) nunca
fez apologia, ao contrário, sempre ironizou o tal "mundo livre".
Nossa canção-assinatura, gravada em 94, trazia a seguinte frase:
"...ou você explora o próximo/ou o próximo é você/ essa é a
única moral do mundo livre..." (Samba Esquema Noise). Agora se
eu entendi o sentido de sua pergunta, acho que ela já foi
contemplada com o que eu respondi para Eliane, Ísis, Luana...
Sobre o D2, eu diria que nós também vivemos à procura da batida
perfeita, e quando a encontrarmos, não perderemos a chance de
embalá-la com contra-informação - a mais surpreendente e
inquietante que estiver ao nosso alcance. Caro Fábio, eu diria que as influências mais diretas
foram The Clash , Gang of Four , o
bandido-escritor Caryll Chessman , o antipsiquiatra e
poeta R.D. Laing , a filósofa Marilena Chauí, os
pensadores Marshall McLuhan, Bakunin, Jean Baudrillard, Noam
Chomsky, escritores latinos como Garcia Márquez e Júlio
Cortazar, o antiartista Marcel Duchamp e cineastas como Stanley
Kubrick e Robert Altman. Caro André, na minha modesta opinião, a humanidade vive
uma crise de valores, como se todos tivéssemos nos rendido à
barbárie. É uma questão naturalmente muito complexa, mas acho
que, em primeiro lugar, precisaria haver, em todos os níveis do
processo civilizatório uma revisão radical das prioridades.
Chomsky resumiu muito bem o dilema atual no título de um de seus
últimos trabalhos: O Lucro ou as Pessoas? Por um lado, parece
claro que as esquerdas experimentam uma espécie de encruzilhada,
por outro, há quase um consenso de que o neoliberalismo precisa
ser urgentemente superado ou não restará planeta habitável algum
para as futuras gerações. Que tipo de democracia faz sentido na
era das grandes Empreiteiras Militares Privadas? Só os escravos
da mídia globalitária não sabem que tanto na Rússia quanto no
leste europeu é cada vez maior o contingente de cidadãos
"livres" que se sentem traídos e enganados e vêm defendendo
abertamente a volta do socialismo. Liberdade não combina com
miséria. Será que os milhões de famintos desempregados que
incham as periferias das grandes cidades são mais livres que os
escravos das fazendas do Pará? Eu juro que não tenho certeza. A
utopia vive e todos deveriam participar desta discussão. De
minha parte, eu concebi um esquema estratégico relativamente
simples. Primeira fase: abaixo as tiranias privadas e todo poder
ao Estado; segunda fase: abaixo o Estado e todo poder às ruas;
terceira fase: abaixo o poder...
(© Revista Caros Amigos)
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