Notícias
Gilberto Freyre por Peter Burke

05-06-2008

Gilberto Freyre

Pesquisador inglês, referência nos Estudos Culturais e Históricos, prepara livro sobre sociólogo pernambucano

Luciana Veras
Da equipe do DIARIO

   Autor de mais de duas dezenas de livros, boa parte deles vertida para o Português, o historiador, pesquisador e professor inglês Peter Burke dedica-se, agora, a um novo projeto literário: um duo com a esposa Maria Lucia sobre o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. "Nosso título provisório: GF, an intellectual portrait. Sem prazos, apesar de esperarmos terminar de escrever em 2005, e sem editores na Inglaterra ou no Brasil", explica Burke ao DIARIO em entrevista por e-mail.

   Londrino, 67 anos, ex-aluno de Oxford, ex-professor da Universidade de Sussex e prestes a se aposentar da cátedra de História Cultural na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Peter Burke é referência nos Estudos Culturais e históricos e quaisquer discussões sobre mídia. Vários de seus escritos estão disponíveis no Brasil, publicados pela Unesp, Jorge Zahar e Edusc: de Fabricação do Rei - A Construção da Imagem Pública de Luis XIV a Uma História Social da Mídia - De Gutenberg a Internet, passando por A Escrita da História, Uma História Social do Conhecimento e Testemunha Ocular.

   Na conversação cibernética, o receptivo professor Burke demonstra conhecimento sobre o Português (que entende e fala fluentemente), Pernambuco e o jornal que o procura ("é uma honra aparecer no Diario, cuja história conheço um pouco por ter lido a edição do centenário editada por GF em 1925") e louvou a ajuda do clã Freyre. "A família tem sido muito prestativa. Foi maravilhoso trabalhar em Apipucos, mas fizemos pesquisa também na Baylor University, em Waco, Texas; na Catholic University, em Washington, e na Columbia University", diz. A seguir, seus comentários sobre Freyre, a História, a mídia e a política britânica.

(© Pernambuco.com)


"Às vezes, a História se repete, mas nunca exatamente"

Entrevista l Peter Burke

  DIARIO DE PERNAMBUCO - Como surgiu a idéia de escrever sobre Gilberto Freyre?

Peter Burke - Eu descobri o trabalho de Gilberto Freyre no início dos anos 60, nas notas de rodapé do famoso livro de Braudel sobre o Mediterrâneo, e li Casa Grande & Senzala em Inglês naquela época. Então eu sabia quem Freyre era quando ele veio para Sussex para dar palestras e receber um título honorário em 1965. Eu fui à palestra. Mais tarde, em 1980, fui chamado para contribuir com biografias de historiadores para o Dicionário Fontana de Intelectuais do Século XX e insisti na inclusão de Freyre. Quando visitei Apipucos depois da morte dele, achei o dicionário em sua biblioteca, mandado por Merquior, com um clipe de papel marcando meu texto sobre ele.

  DP - O que você pensa sobre Casa Grande & Senzala?

Burke - Há muito a ser dito sobre Casa Grande & Senzala. O que mais me atrai é o modo como GF, nos anos 1930, escreveu algo como a história da Escola de Annales da França e a assim considerada Nova História Cultural dos anos 1980(escrevi um artigo sobre isso no Tempo Social, um jornal da USP, alguns anos atrás). É claro que também estou ciente da importância do livro em dar aos brasileiros uma carteira de identidade.

  DP - Qual é seu principal objetivo?

Burke - No livro conjunto nosso propósito é apresentar um retrato intelectual de GF em vários aspectos, concentrando-se no seu trabalho como historiador e sociólogo, colocando-o numa perspectiva comparativa e chamando a atenção do mundo que fala Inglês para sua importância. No livro de Maria Lucia a ser publicado em Português, ela falará sobre a importância da Grã-Bretanha e, em alguma extensão, dos Estados Unidos no desenvolvimento do pensamento de Freyre.

  DP - O senhor acha que os pensamentos e idéias de Freyre serão bem recebidos nos países que não falam Português?

Burke - Gilberto Freyre provavelmente continuará a ter uma recepção dividida fora do Brasil, assim como ele teve dentro do País, não tanto por razões lingüísticas, mas por motivos políticos. O que as pessoas que sóo leram em traduções não percebem é como ele é um escritor maravilhoso e um mestre da linguagem, "dançando" com o Português, como ele gostava de dizer.

  DP - Já leu os outros livros de Freyre? Como os avalia?

Burke - Eu li virtualmente tudo que GF publicou e penso que, de várias formas, Sobrados e Mucambos é um trabalho melhor de história. Também admiro Ingleses no Brasil e Ordem e Progresso mais do que a maioria das pessoas que já escreveram sobre ele.

  DP - O que conhece do Brasil? E de Pernambuco?

Burke - Tenho visitado o Brasil desde 1986 (depois de ter conhecido Maria Lucia em 1985) e de fato gosto bastante do País e do povo (ou, para usar o plural favorecido por GF, eu adoro "os Brasis"). Não conheço bem Pernambuco, mas estive em Caruaru e também na pequena cidade onde Borges vive, onde compramos algumas das xilogravuras da oficina de sua família. Acho o Nordeste diferente em todos os níveis de São Paulo, onde me sinto mais em casa porque lá mora minha família brasileira: mais tradicional, mais africano, mais próximo do século XIX em alguns aspectos, do jeito de falar de advogados e professores à sobrevivência de lugares como o restaurante Leite.

  DP - Como é trabalhar com sua esposa?

Burke - Por anos tenho conversado com Maria Lucia sobre GF, então é difícil dizer agora de quem são as idéias. Escrever juntos pode ser mais difícil, ainda nem começamos isso! Não queremos dividir os capítulos entre nós e sim reescrever o que outro escrever até que ambos estejamos satisfeitos.

  DP - O senhor é uma autoridade em mídia e estudos históricos. Como define esses tempos de guerras furiosas? A História está se repetindo?

Burke - Às vezes, a História se repete, mas nunca exatamente. É como um tour circular, no qual você nunca volta ao mesmo lugar. Não há novidade nas guerras de idéias, sejam elas religiosas ou políticas. O que é mais novo é que agora nós experimentamos a mesma guerra numa escala mundial, uma grande guerra no lugar de várias guerras pequenas. A mídia, obviamente, representa seu papel nisso tudo.

  DP - É mais fácil estudar e interpretar a História atualmente, quando todo mundo tem acesso à Internet e a rede mundial de informações pode fornecer versões diferentes para um único fato?

Burke - Em várias maneiras é mais difícil estudar História na era da Internet. Há uma variedade de informações; porém são, de fato, muitas para se escolher uma, como, por exemplo, se você tenta uma busca no Google sobre um personagem histórico menor e milhares de respostas aparecem. O problema é avaliar essa informação e retornar às fontes. Com um livro acadêmico você tem notas de rodapé, você procura os livros mencionados nessas notas e depois os livros mencionados nas notas destes e, gradualmente, trabalha rumo às fontes originais. Mas é complicado fazer isso on line. Meus alunos me dizem "achei isso na net". E eu pergunto a eles: "mas onde eles acharam isso?".

  DP - O senhor já escreveu sobre Luís XIV, um rei que afirmava que seu Estado era ele mesmo. Não há muitas monarquias restantes no Mundo, porém existem muitos políticos que ainda se comportam como o Rei Sol. Quem é o Luís XIV do século XXI?

Burke - Houve vários competidores com Luís XIV no século XX, alguns deles foram citados no meu livro. Hoje não há tantos. Não acho que Putin ou Bush sejam do seu nível. Chirac pode se modelar em Luís (estou bem certo de que Mitterand fazia isso); em todo caso, ele é o governante mais parecido com Luís que posso pensar hoje, com as virtudes e vícios do Rei Sol.

  DP - Por último, mas não menos importante, como é viver na Inglaterra agora, com o primeiro-ministro Tony Blair como o maior apoiador dos rompantes de guerra de George Bush? O medo se espalhou pela ilha?

Burke - Não diria que há uma atmosfera de medo. Nós britânicos somos acostumados ao perigo. Morei em Londres durante as "blitze", de 1940 a 1944. Entre as décadas de 60 e 90, havia a ameaça de atos terroristas do IRA. Então, nada de novo para nós. Porém, muitos eleitores trabalhistas, eu incluso, estão desiludidos com Blair e, porque não podemos nos forçar a apoiar os Conservadores, estamos votando nos Liberais Democratas. Não queremos que eles vençam, mas sim que façam melhor, bom o suficiente para provocar uma revolução no Partido Trabalhista. É tempo de dar uma chance a Gordon Brown.

 

(© Pernambuco.com)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia