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Um álbum de risco

05-06-2008

Djavan

Djavan é um dos primeiros astros da MPB a lançar um CD e fundar uma gravadora ao mesmo tempo

LUÍS ANTÔNIO GIRON

   É moda músico brasileiro criar selos para lançar seus CDs. O compositor alagoano Djavan, de 55 anos, 27 de carreira, faz uma aposta ainda mais ousada, que lembra Ivan Lins nos anos 80: acaba de fundar uma gravadora, a Luanda Records, e lançar o primeiro CD do catálogo: o próprio álbum, Vaidade, o 16º título de sua trajetória de notável misturador de ritmos e gêneros sonoros e letrista polêmico. Desta vez, o superastro não só compõe, escreve, toca, produz e arranja. 'Tive de escolher a capa, contratar assessoria e agora ando preocupado com a distribuição do produto no Brasil e no exterior', diverte-se, em sua fala característica, com objetividade e rapidez que parecem não combinar com seu canto lírico. 'Estou adorando desbravar um campo novo. O formato do mercado está mudando por causa da pirataria e da internet. Decidi enfrentar o desafio.'

   Djavan já tinha um bom estúdio, o Em Casa - que, como o nome sugere, fica em sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro -, uma editora e uma banda sob seu comando, formada por seus filhos Max (guitarra) e João (bateria) e outros. Só faltava a infra-estrutura de gravadora. Ele conta que comprou cinco salas no prédio de seu escritório, no Leblon, e convidou profissionais para cuidar das vendas, centralizando as operações do país. Depois de um ano de trabalho, a Luanda dispõe de 24 funcionários na sede e tem planos para alimentar o catálogo. Djavan paga tudo do próprio bolso, sem patrocínio ou sociedade. 'O máximo que pode ocorrer é não dar certo', brinca. Nesse sentido, assume o romantismo em arte e dinheiro. 'Quero gravar músicos que não têm oportunidade. Meu negócio é música, não grana.' Mesmo assim, Vaidade segue o padrão de qualidade das grandes gravadoras. A produção é caprichada. Djavan lança o disco em turnê nacional, no dia 15 em São Paulo, numa temporada de três semanas. Depois, segue para o Rio e outras capitais. Em outubro, iniciará turnê internacional. 'Eu me sinto tão atrevido quanto um principiante', jura.

   A ousadia compensou, pois Vaidade merece figurar entre os melhores discos de Djavan. A coleção habitual de melodias que se tatuam no ouvido se une a letras mais diretas do que as que se converteram em marca registrada, forradas de imagens no mínimo peculiares. É um belo trabalho, enriquecido pelos arranjos de cordas do próprio artista. 'Já me deixei levar pelos sons quando escrevia versos', reconhece. 'A gente amadurece e toma juízo. Agora dou mais atenção às letras, mas o meu jeito está lá.' Letras e melodias se encontram em fase inspirada e vão distantes os tempos de versos arrevesados como os de 'Açaí'. A música de trabalho, 'Se Acontecer' - na trilha da novela Senhora do Destino -, é uma toada com escalas flamencas e versos como A tenda da noite/enche de sombra/um sonhar vazio (sim, ele ainda é Djavan). Há sambas 'djavaneses', como os belos 'Celeuma' e 'Bailarina' - este traz um ótimo duelo entre a guitarra do autor e o cavaquinho de Hamilton de Holanda. A faixa-título é uma valsa lírica sobre vaidade masculina. E 'Tainá-Flor', define, é 'uma mistura de calango e maxixe', repleta de achados rítmicos. A música flui com naturalidade e harmonia. Djavan dono de gravadora é o músico na melhor das liberdades: a da autonomia financeira.
 

Título
Vaidade
Artista
Djavan
Gravadora
Luanda
Preço
R$ 30

(© Revista Época)


Saiba mais sobre a carreira de Djavan

Compositor, intérprete e arranjador, Djavan é um dos principais nomes da atual música popular brasileira e lança Vaidade, o primeiro trabalho pela sua gravadora Luanda Records

GRAZIELA SALOMÃO
 

RAIO-X
Reprodução

Nome
Djavan Caetano Viana

Nascimento
27 de Janeiro de 1949, em Maceió, Alagoas

Filhos
Flávia, Max, João (do primeiro casamento) e Sofia (do segundo)

Cinema
Djavan trabalhou em Para Viver um Grande Amor, em 1983, dirigido por Miguel Faria Jr. Ele interpretou um poeta-mendigo que se apaixona pela moça rica da história, vivida por Patrícia Pilar.

   Ele queria ser um craque do futebol como os grandes jogadores Pelé e Garrincha. Mas o seu talento era para o universo artístico, trabalhar com ritmos, versatilidade de tons e harmonia. Conquistar o público com as melodias e poesias de suas canções.

   Djavan Caetano Viana não teve oportunidade de estudar música quando criança. Nascido em Maceió, em uma família pobre, tudo o que aprendeu para começar a tocar foi, apenas, de olhar e observar seus colegas. Do pai, não se lembra direito, pois morreu quando ele tinha três anos. A mãe era lavadeira na capital alagoana e trabalhou duro para sustentar a família. Foi ela a responsável por apresentar o pequeno Djavan a grandes sucessos da música popular brasileira da época, como Ângela Maria e Nelson Gonçalves.

   A infância foi marcada pelo sonho de ser jogador de futebol profissional. Mas, foi na adolescência que a música conquistou definitivamente o garoto, tornando-se essencial em sua vida.

   A família não queria. A arte não traria nenhuma realização ao menino. Ele deveria, ao contrário, seguir a carreira militar. Entretanto, Djavan não conseguia imaginar-se um militar. Para fugir da pressão familiar, aos 16 anos saiu de casa, indo para Recife morar com um primo.

Luz, Som, Dimensão

   A permanência na casa do primo não foi das melhores. Por um mês, trabalhou como office-boy na fábrica de refrigerantes Crush. Foi o tempo que ele agüentou beber seu refrigerante favorito. Depois, não conseguia nem sentir o cheiro da bebida.

   Após largar o emprego na Crush, Djavan ficou tocando violão na cidade. Aos 18 anos, decidiu voltar para a casa da mãe: não agüentava mais morar na casa do primo e a saudade da família era enorme. Só que, para voltar a Maceió, Djavan teria que trabalhar. Ele não queria fazer outra coisa que não fosse música e, para isso, formou uma banda: a LSD. A inspiração foi a música dos Beatles "Lucy in the sky with diamonds". O nome, entretanto, provocou problemas com a polícia, que acreditava ser uma referência à droga.

Reprodução

   A LSD tocava, principalmente, canções do grupo britânico, a principal referência dos garotos. Djavan era guitarrista e crooner da banda. Nos tempos livres, gostava de compor suas próprias canções. A complexidade delas não agradava ao restante da banda, que não o deixava cantá-las durante os shows.

A   pós quase seis anos de união, Djavan resolveu que queria mais. O objetivo era trabalhar com suas próprias composições e expandir seu sucesso para o resto do Brasil. Em 1973, decidiu ir para o Rio de Janeiro.

(© Revista Época)


Discografia completa de Djavan

Discos

A voz - o violão - a música de Djavan - 1976
 



Djavan - 1979




Alumbramento - 1980




Seduzir - 1981

 


Luz - 1982




Lilás - 1984




Meu Lado - 1986




Não é azul mas é mar - 1987




Oceano - 1989




Coisa de acender - 1992




Novena - 1994




Malásia - 1996


 

Bicho Solto - 1998


 

Djavan 'Ao Vivo' - 1999


 

Milagreiro - 2001




Vaidade - 2004

 



DVD


Djavan 'Ao Vivo' - 2000
 





Songbook

Songbook - Volume 1
Songbook - Volume 2

(© Revista Época)


Alagoano é o primeiro artista local de ponta a lançar disco com financiamento, gravação e distribuição próprios

Djavan inaugura modelo independente

DA REPORTAGEM LOCAL

   A empresária musical e o executivo do disco desceram no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e foram assaltados. Levaram celulares e um relógio Cartier do executivo, mas seus anéis de ouro ficaram. O dono da gravadora ficou consternado com o incidente, mas não socializou o prejuízo com seus dois funcionários.

   A gravadora se chama Luanda Records Brasil, o nome de seu dono é Djavan. Após rescindir contrato com a multinacional Sony Music, o artista alagoano de 57 anos enfrenta o que classifica como um "passo enorme no escuro": ser o primeiro músico brasileiro de ponta a peitar financiamento, gravação, lançamento, distribuição e divulgação de seu próprio CD -que, aliás, se chama "Vaidade" e sai com 75 mil cópias em primeira tiragem.

   O diretor de marketing de sua gravadora é Edison Coelho, 56, um dos homens por trás do sucesso voraz da axé music no Brasil dos anos 90, quando trabalhava na Universal. "Quando saí tive convite de outra multinacional, mas chegou o momento em que queria um novo desafio", diz.

   Foi ele o assaltado no aeroporto com a terceira ponta do tripé da Luanda, Mara Rabello, 45, empresária de Djavan há 14 anos, que já administrava a produtora de shows e a editora do artista.

   Mara, que no assalto perdeu os anéis, mas não os dedos, comenta por entrelinhas os intercâmbios de papéis numa indústria em franca queda (leia quadro à direita). "Outro dia brinquei com Edison: "É, eu no meu carrinho, você no seu carrão, música da Bahia... Agora não tem mais, vai ter que se virar com MPB mesmo".

   Foi ela que negociou abrir mão de um "contrato de valores muito altos" com a Sony e hoje pondera o estado de coisas: "Ouvimos tanto eles falarem que o CD e a música iam acabar, um país como o Brasil não pode pensar assim. A gente não acredita nisso".

   Djavan também não, embora saiba que o peso do disco diminuiu no todo de sua carreira: "Mudou tudo, o disco realmente perdeu importância, se diluiu, cada vez mais ele vale menos".

   Com capital acumulado em 28 anos de história profissional, construiu estúdio próprio para gravar sua obra e agora fecha o cerco numa gravadora que, ele sonha, pode vir a lançar outros artistas se tudo der certo.

   Não fala quem contrataria, mas dá pistas. "João Bosco é um artista que amo. Ficaria honrado." Chega a pensar em produzir um trabalho do colega, mas hesita: "Adoro produção, fiquei craque nisso, mas tenho que me dedicar a meu trabalho.

   Tenho exemplo de artista que amo e respeito e tive que jogar fora arranjo que fez para mim. É muito chato, difícil".

   Expoente forte de uma época governada pelo individualismo na MPB, Djavan aproveita o momento de bicho solto e, dono de empresa, se põe a refletir sobre sua condição de artista.

   Conta como é compor após quase 30 anos de experiência. "Compor, nesta altura do campeonato, é a coisa mais dolorosa que existe. Não é só o que sair, o critério é muito acirrado."

   Conta que, embora sonhe fazer discos de intérprete, precisa continuar compondo, até como antídoto para o desgaste que acompanha o final de cada turnê que faz. "Encerro turnê num tal estado de tristeza, de esgotamento, que só uma música nova me salva."

   Explica melhor o esgotamento que os shows provocam. "Saio do palco inteiraço, feliz. Mas costumo atender às pessoas no final e ao final disso estou arrasado, cansado, vazio, puxado. O público tira muito, você termina exaurido."

   Corrige-se, não quer transmitir tais sentimentos como ruins. "São pessoas que gostam muito de mim, dizem coisas que estão presas na garganta. É um momento rico, algo de que preciso também. No resto do tempo não ando na rua, a gente vai se enclausurando", finaliza, voltando ao balanço entre o individual e o coletivo, o artesanato e a indústria, o artista e o gerente de um novo modelo musical que sofre para nascer. (PEDRO ALEXANDRE SANCHES)

(© Folha de S. Paulo)

 

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