Notícias
Fred Navarro - “O falar nordestino é cheio de picardia”

05-06-2008

O jornalista Fred Navarro

Jornalista Fred Navarro, pernambucano radicado em São Paulo, que acaba de lançar Dicionário do Nordeste, com 5.000 verbetes, discute sotaque, preconceito e homogeneização da língua

Por Homero Fonseca e Marco Polo

Como foi a feitura do livro?

Quando eu me mudei para São Paulo, pela segunda vez, em 1988, eu estava trabalhando na Istoé. Num dia de fechamento, mandei uma coluna de volta ao Departamento de Arte, pois ela estava troncha. Aí, foi aquela gargalhada. Todo mundo entendeu que a coluna estava torta, mas eles não usam a palavra troncha. Então ali surgiu uma luz. Eu uso muito essas expressões e cada vez que acontecia isso eu anotava numa cadernetinha, num papelzinho. Um belo dia, eu tinha uma gaveta cheia de pedaços de papel, uma caderneta de anotação, e era um material bem razoável. Então, decidi sistematizar a pesquisa.

Depois dessa pesquisa, como você definiria o falar nordestino?

O falar nordestino tem uma característica que o diferencia do falar do resto do Brasil, que é o bom humor, a picardia, a sacanagem. Tudo é motivo para gozação, tudo é motivo para brincadeira e isso é impressionante. O que mais se aproxima disso é a gíria carioca. No final desse trabalho todo, o que ficou para mim, em evidência, é que apesar da miséria, da seca, do sofrimento, da pobreza, dos políticos, esse povo não perde o élan, não perde sua vontade de viver, de brincar, de tentar fazer do dia-a-dia uma coisa mais amena. Também é impressionante a referência à terra, à natureza. Então, eu diria que é uma linguagem marcada pelo bom humor e pela relação com a natureza. Existem diversas ilhas, diversos falares pelo Brasil afora. Mas é no Nordeste onde encontramos, juntos, esse bom humor e essa ligação com a natureza.

Por falar nessa diversidade, como você, que se debruçou sobre um quase-dialeto, encara o milagre da unidade lingüística brasileira?

Essa lição eu aprendi do mestre Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro. Ele diz que essa unidade se deve a três acidentes geográficos: a Floresta Amazônica, a Cordilheira dos Andes e o Oceano Atlântico, intransponíveis militarmente. Foi uma unidade forjada geograficamente e mantida politicamente ao longo desses cinco séculos.

Seu livro serve para que tipo de leitura?

Para mim é como se fosse uma reportagem séria, que você poderia ler num grande jornal ou numa grande revista. Você pode abrir em qualquer página e começar a ler aleatoriamente, porque as citações e os exemplos são realmente gostosos de ler. Às vezes eu tinha cinco citações para o mesmo verbete e eu escolhia as duas mais bem humoradas, mais leves. Essas citações são a alma do livro, elas mostram os usos das palavras e das expressões no cotidiano. Eu tive que ler e ouvir algo em torno de 700 livros e discos, dos quais uns 400 são citados. Eu tive que ouvir muito Caetano, Fagner , Ednardo... Aqui de Pernambuco, desde Luiz Gonzaga até Fred 04, Mestre Ambrósio, Chico Science. Então, como diz a professora Nely Carvalho, foi um critério anacrônico, tem coisas de várias épocas, e também geograficamente vasto, do sertão, do litoral.

Você deve ter percebido que muitas coisas do linguajar nordestino, sobretudo no Sertão, e que podem ser interpretadas como erradas, vêm do português arcaico.

“Arre, égua!” você encontra em Gil Vicente... “Avoar” era o verbo voar em Portugal até 200 anos atrás, mas hoje em dia quem fala “avoar”, dizem que está falando errado. O professor Marcos Bagno, da UnB, que fez o prefácio do meu livro, abre a discussão do que é falar errado. Ele diz que se a pessoa se comunica ou dá a entender o que ela quer, não está falando errado, o resto é convenção. Você não vê um “arretado” em nenhum jornal. O jornalismo e a literatura são baseados em clássicos.

A língua é um fator de identificação cultural, mas também de estigma, a partir do momento que diferencia as pessoas por suas origens distintas. Você acha que um livro como esse reforça o preconceito ou o atenua?

Minha experiência pessoal é que atenua. O lançamento do livro em São Paulo teve grande receptividade, tanto em relação à mídia quanto às pessoas, que ficam admiradas com a riqueza da linguagem e seu bom humor. Nesse sentido, eu acho que o livro quebra barreiras, abre portas, ele serve como um manual de tradução para pessoas que não tinham acesso a essas expressões deliciosas que nós usamos.

A partir dos anos 60, com as redes nacionais de televisão, houve uma certa homogeneização da linguagem no país, com a predominância de determinados tipo de falar, que são os do Rio de Janeiro e São Paulo. O que você descobriu em relação a isso nesse seu trabalho?

Se analisarmos com alguma severidade, mesmo antes da televisão, o rádio já cumpria esse papel de homogeneização, de padronização nacional e as principais emissoras eram fixadas em São Paulo e no Rio. Eu vejo esse fenômeno como inevitável. Você não pode criar ondas protetoras para Internet, para televisão, para rádios, para livros, para comunicação eletrônica. Então eu acho que essas coisas do Rio de Janeiro que vão bater em Cajazeiras têm até um aspecto benéfico, ampliam o vocabulário, ampliam o horizonte. A maioria dos pernambucanos e baianos que eu conheço e que mora em São Paulo, às vezes solta o seu “arretado”. Você perde um pouco, mais não perde totalmente (o sotaque). Mas a permeabilização, a troca de informações, não há como fugir disso, nem entre Estados nem entre países. Essas fronteiras estão acabando. Quantas coisas nós temos de origem francesa, inglesa, árabe? Isso não empobreceu a língua portuguesa, ao contrário. Temos, como exemplo, alcatifa e tabica – que só se falam aqui no Nordeste – e almirante, atalaia, também palavras árabes. Quando são aprendidas e incorporadas viram contribuição, viram patrimônio lingüístico. Outro exemplo é mouse, que daqui a pouco vai ser escrito com a, aportuguesado. Eu não sou contra essa invasão, a população mostra que quando essas palavras são bem-vindas, elas são incorporadas.

(A entrevista completa está na edição 43 - impressa - da Revista Continente Multicultural)

(© Revista Continente Multicultural)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia