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Djavan renova-se na simplicidade

05-06-2008

Djavan: longe da Sony Music, ele aposta na redução do preço dos CDs

 

Djavan lança Vaidade, disco de inéditas, no qual todas as composições foram feitas por ele, sem parcerias. Várias canções do CD são candidatas às paradas de sucesso

JOSÉ TELES

   Djavan caiu na independência, depois de 27 anos de carreira, 15 discos (um na Som Livre, três na EMI, e 11 na Sony). Vaidade é o primeiro CD da Luanda Records, a gravadora que fundou este ano. “Vinha pensando no projeto há tempo. Sei que é um risco alto, mas eu estava motivado a fazer isto”, conta, em entrevista por telefone. “No futuro, a Luanda deve lançar discos de outros artistas, mas não sei quando isto começará a acontecer”, completa.

   O artista sem as amarras de uma grande gravadora é uma tendência mundial. “O mercado está mudando, passa por uma transição, e, por causa da Internet, da pirataria, o próprio CD é hoje uma indefinição. Não se sabe como a música continuará a ser comercializada”. Curiosamente, enquanto se prepara para o futuro, cuidando das várias etapas do processo, da gravação à distribuição, Vaidade tem uma simplicidade que faz lembrar os primeiros discos do cantor alagoano, embora ele discorde desta volta ao básico: “Na realidade, eu fiz isto no disco anterior, Milagreiro. Neste, até preparei arranjos para cordas, coisa que não fazia há algum tempo”. As cordas estão em cinco faixas, entre as quais Dorme,Sofia, acalanto para a filha de dois anos e nove meses (que faz uma pequena participação na canção).

   Djavan admite que a atual situação familiar influenciou as músicas de Vaidade: “Talvez seja por isto que se pense que estas canções sejam parecidas com as dos meus antigos discos. Estou vivendo um recomeço, isto deve ter se refletido nas composições”. Ao mesmo tempo em que reaprende a trocar fraldas, ele está cada mais vez perto dos filhos do primeiro casamento, Max (30 anos), e João (25). Ambos estão na banda com o pai. O primeiro é guitarrista, o segundo baterista. “A gente tem um entendimento maravilhoso. Existe um código intelígivel na música que fazemos. Vamos aproveitar isto enquanto eles ainda estão tocando comigo”, brinca, lembrando que Max Viana já estreou disco solo.

   A capa de Vaidade lembra a de Coisa de Acender (1992). As canções de letras mais diretas e melodias menos dissonantes e jazzísticas vão inevitavelmente ser incorporadas ao repertório de cantores de barzinho (para os quais Djavan é um dos autores preferidos). Com exceção de Celeuma, samba composto para Mart’nália, as demais canções foram criadas durante a feitura do disco: “Entrei no estúdio com uma música pronta, e cinco sem letras. Meu método é sempre este. Geralmente quando volto de uma turnê, chego com muita vontade de compor. Na estrada não consigo fazer isto. Então, elas vão surgindo. Faço em casa e vou levando para o estúdio as músicas prontas”. Vaidade, garante Djavan, não se refere a algum sentimento pessoal, é apenas, uma provocação. Na canção homônima a palavra está em um dos versos: “O pessoal lá em casa não gostou, mas insisti”, revela.

   O cantor acabou de fechar a turnê de Milagreiro. Foi um ano e meio, e 120 apresentações. A turnê de Vaidade ele começa, dia 15 de julho em São Paulo, segue para o Rio e até novembro passa pelas principais cidade do País. “Daí em diante vamos fazer o exterior. Acho ótimo esta coisa que acontece, com muitos artistas brasileiros fazendo shows em outros países. A MPB é um das últimas grandes reservas culturais do mundo e os gringos estão cada vez mais descobrindo isto”, comenta Djavan, há muitos anos requisitado para apresentações e gravações nos EUA e Europa. Algo com que nem sonhava quando cantava Beatles com o conjunto LSD, em Maceió, nos anos 60. Uma trajetória vitoriosa que resume numa frase: “É preciso ter sorte na vida, até para atravessar a rua”.

   O DISCO – Se Acontecer, música que abre o disco, é uma daquelas baladas típicas djavaneanas. Lenta, melodiosa, fadada a perpetuar-se nas programações das FMs (reforçada pela inclusão na nova novela das oito). Flor do medo, um funk também tem a marca registrada do cantor, dissonância leve, frases repetidas, com uma segunda parte em que a voz sobe, para voltar à frase inicial. Sentimento verdadeiro, tem sotaque nordestino, toada/baião. Mundo vasto é um samba com a mesma levada de Flor de lis, com o violão do cantor destacando-se entre as cordas.

   A simplicidade está não apenas no fato de sete das canções dispensarem as cordas, como também nas letras diretas, sem “djavanear” nos versos (“Tu deságua em mim/Eu oceano”, um exemplo). “Pode ser quem for/ Nasceu pra ter amor/ Só não sabe/ Quando ele virá/ Se é cerca de flor/ Ou jogo de azar”, como é o caso de Sentimento verdadeiro, de Vaidade, que se destaca do repertório (todos compostos por Djavan, sem parceiros) e até da obra do cantor. Tem uma longa introdução de bandolim. Dia azul vai na base do dois pra lá, dois pra cá, pontuado pelo saxofone de Marcelo Martins.

   Em quase falsete, Bailarina tem o andamento caetaneado de Trem das cores, Estátua de sal, é meio jazz, meio blues. E tudo acaba com o coruja Acalanto para Sofia, com cordas bachianas. Vaidade é antes de tudo um disco pop, que pode levar Djavan a vender novamente tanto quanto sua bem-sucedida contraparte de baixos teores, Jorge Vercilo.

(© JC Online)


Senhores do destino

Numa tentativa de driblar a decantada crise da indústria fonográfica, Djavan abre a própria gravadora, enquanto um time de medalhões da MPB abandona as multinacionais em troca dos pequenos selos

Ivan Claudio

   Não bastasse a pirataria explícita das esquinas e aquela mais difícil de ser reprimida, feita em casa com arquivos mp3, mais uma reviravolta está colocando a indústria fonográfica nacional de pernas para o ar. Exceto por alguns nomes que resistem bravamente dentro das gravadoras multinacionais – caso de Caetano Veloso e do ministro da Cultura, Gilberto Gil – um time considerável de medalhões da MPB passou a não renovar seus contratos com as empresas nas quais desenvolveram grande parte de suas carreiras, passando a lançar discos por selos e gravadoras menores. De Milton Nascimento – que finaliza quatro trabalhos em CD e DVD pelo selo próprio Nascimento – a Djavan, recentíssimo dono da gravadora Luanda Records, pela qual acaba de colocar no mercado o ótimo Vaidade, amplia-se o leque de artistas que dispensaram o suporte milionário das majors.

   Na lista dos que optaram pelos pequenos, Simone chega às lojas esta semana
com o álbum Baiana da gema, produzido pela Maynard Music, entoando com
alegria apenas músicas inéditas de Ivan Lins. “Ninguém mais quer ficar dentro
das grandes gravadoras”, garante Ivan, também desimpedido. “Vai fazer o que lá?

   As pessoas estão tomando conta de si próprias, se produzindo e saindo atrás
do seu público.” Há dois anos longe da Universal Music, Simone diz que faria
Baiana da gema de qualquer forma, até às próprias custas. “A indústria só quer o bônus, não o ônus. Quer que tudo saia do artista. Ela não pode diminuir o padrão dele.” Outra que partiu em busca de nova casa é Gal Costa. Depois de ter passado pela extinta gravadora Abril e pela Indie Records, ela negocia com a Trama. Mesmo caso de João Bosco, que lançava seus discos pela Sony Music – o excelente Malabaristas do sinal vermelho (2003) vendeu apenas dez mil unidades. À debandada geral, iniciada há três anos com Maria Bethânia, que trocou a BMG pela refinada Biscoito Fino, onde criou o selo Quitanda, acrescenta-se Zizi Possi e Paulinho da Viola, ambos sem contrato.

   Neste cenário de mudanças, a via da independência está se revelando a única possível. A novidade, contudo, é que independente hoje em dia não tem mais a conotação de fundo de quintal da década de 1980. Com a tecnologia digital, tornou-se possível gravar em estúdios caseiros discos de insuspeita qualidade técnica. Pode-se imaginar, então, o grau de excelência a que se chega quando se dispõem de microfones avaliados em mais de US$ 5 mil e mesas de gravação das melhores marcas, como as do estúdio Em Casa, que Djavan montou no jardim da sua residência, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. “Quando decidi construir o estúdio, coloquei na cabeça que tinha de ser profissional. Gosto de fazer as coisas direito, por isso pesquisei bastante. Não é uma coisa irresponsável”, afirma Djavan, longe da Sony Music, depois de 22 anos de contrato.

Compartilha a mesma opinião a empresária Marilene Gondin, à frente dos negócios de Milton Nascimento, ex-Warner Music há um ano. “Os artistas não estão fazendo discos desinteressados no sucesso comercial. Mas todos querem buscá-lo com qualidade.” Entre os projetos imediatos do selo Nascimento estão os DVDs Pietá, A sede do peixe e Ponto de partida, e os álbuns de Marina Machado e de Bebeto, ex-baixista do Tamba Trio. “Desde 2001 o Milton estava fascinado com a idéia de ter nas mãos um instrumento para desenvolver os projetos dele e de gente nova, trabalhos que hoje dificilmente encontraria espaço nas gravadoras”, conta Marilene.

   Reclamação – A insatisfação com o tratamento recebido pelas multinacionais, interessadas em resultados mais imediatos, é uma reclamação comum dos artistas da MPB. Gal Costa, que agora só assina contrato para a gravação de um único CD – geralmente, o cantor se compromete em lançar três trabalhos –, diz que saiu da BMG porque se sentia muito insatisfeita. “Não estava fazendo os projetos que queria. Então, pedi minha liberação”, conta ela. “Hoje, as gravadoras pequenas têm força, garra, tesão e capacidade para ser agressivas no mercado.” É verdade. Mesmo sem o esquema de divulgação dos bons tempos, os artistas conseguem chegar ao público de maneira eficaz. Gal, por exemplo, teve a canção Nossos momentos entre os temas-chaves da recém-terminada novela global Celebridade. No mesmo caminho, a balada Se acontecer, de Djavan, e o samba É festa, de Simone – carros-chefes dos seus respectivos CDs –, já tocam insistentemente na recém-estreada Senhora do destino.

   Presidente da Trama, João Marcello Bôscoli conta que se sentia triste toda vez que ficava sabendo de mais um nome sem contrato. Hoje, vê os novos arranjos ganharem saldo positivo. “Aquela época de pegar o artista e colocá-lo no estúdio com um repertório na frente, montado à sua revelia, não cola mais”, afirma Bôscoli. “Quanto menor a gravadora, melhor o acompanhamento.” Contudo, comenta-se nos meios especializados que, no momento da revisão dos contratos dos grandes nomes da MPB, o que tem pesado são os altos valores e as cada vez mais dispendiosas produções de discos, somas impróprias para os atuais tempos de vendas minguadas. Zizi Possi, ex-Universal Music há dois anos, confirma estes bastidores. Mas culpa as próprias gravadoras por inflacionarem o mercado. “Os contratos só ficaram caros porque foram insuflados por esses caras (os executivos)”, espeta Zizi, que estuda propostas e seleciona músicas para um novo trabalho a ser lançado no fim do ano. “Eles colocaram na cabeça dos artistas que todos tinham de vender milhões. Faziam adiantamentos homéricos, como dar de luvas uma Mercedez ou viagens de primeira classe.”

   Bôscoli acredita que a era de esbanjamento é página virada. “Gravadora não é banco. Todos aqueles luxos com aviões fretados e clipes de meio milhão de dólares eram gastos que qualquer estudante de economia sabia que não iam durar. Era uma visão construída pelas próprias gravadoras. Hoje, quem quiser carro blindado que pague.” Djavan, que viu sua vendagem cair dos dois milhões de CDs de Djavan ao vivo (2000) para os 110 mil de Milagreiro (2001), vai além. Para ele, a única forma de dar sobrevida à combalida indústria fonográfica – cujas metásteses se espalham internacionalmente – é atacar a pirataria com a redução drástica do preço dos discos. Prática que as grandes gravadoras, mesmo diante de um poderoso inimigo, estão longe de adotar.

(© Revista Isto É)

 

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