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Cantoras voltam à corrente principal da MPB com o que fazem de melhor

05-06-2008

Simone, com Ivan Lins

 

Canção transparente: Olivia Hime; Baiana da gema: Simone

Hugo Sukman

   Dois grandes momentos da música brasileira abrem os novos discos de Olivia Hime, “Canção transparente” (Biscoito Fino), e Simone, “Baiana da gema” (Maynard/EMI).

   No de Olivia, ela recupera um velho choro de sua parceria com o marido, Francis Hime, “Cada canção” (perdido num LP dele, “Pau Brasil”, de 1982), uma das melhores músicas já feitas a partir de outra: a melodia, toda inspirada no choro “Vou vivendo” de Pixinguinha, a letra seguindo a idéia da música com precisão buarquiana, “Vou vivendo e contigo aprendendo/Vou rezando pra São Pixinguinha/Me trazer outra vez o Vininha/Derramando notinhas do céu”.

   No de Simone, ela lança um instant classic de Ivan Lins e Paulo César Pinheiro, “Baiana da gema”, uma indefinível mistura de samba de roda baiano com samba amaxixado carioca (algo esteticamente situado no início do século XX, quando negros baianos e cariocas criavam o samba no Rio), cuja letra celebra os dois estados matrizes da música brasileira: “O samba é de Copacabana pra Itapoã/Unindo Olodum com a Mangueira do Amanhã/Ficou assim jóia rara/E salve a Bahia e a Guanabara”.

   Mas, mais do que felizes aberturas, os dois discos têm em comum o fato de trazer de volta as duas cantoras para a corrente principal da MPB. Ambas — Olivia na sofisticação extrema de projetos como “Mar de Algodão” (sobre Caymmi), “Canta Chiquinha Gonzaga” e “Estrela da vida inteira” (sobre Manuel Bandeira), Simone na extrema popularização através de baladas sentimentais e arranjos tecladísticos — estavam há quase 20 anos ausentes dela. Agora, voltam com o que faziam de melhor: Olivia cantando suas próprias letras, para músicas de Francis mas também dos novos parceiros Mauricio Carrilho e Sérgio Santos; Simone cantando somente novas de Ivan Lins, prestando tanto um serviço à própria carreira, colorindo-a novamente de boas canções, como à de Ivan, reunindo sua produção recente. Ambos os discos têm a ambição do songbook .

Disco revela letrista que escreve de um ponto de vista raro

   Olivia canta desde músicas de seu primeiro LP, de 1981, o samba reflexivo “A tarde” (“E a tarde vai caindo em mim/Sobre essa cidade/E eu fico pensando assim”) e o baião épico-indigenista “Parintintim” (“Diz pro Parintintim/Se esquecer de mim/diz pra ele que eu sou pior que o ruim/Corre lá pra avisar do seu fim”) a inéditas como o samba “Sol forte” e a valsa “Sinuosa”. Estas duas, por sinal, refletem a principal atividade atual da cantora, a de diretora artística da Biscoito Fino, pois são parcerias com dois contratados seus, o mineiro Sérgio Santos (que busca renovar o samba) e o carioca Mauricio Carrilho (que busca fixar gêneros cariocas tradicionais como a valsa e o choro), típicos artistas Biscoito Fino.

   Mas mais do que o reflexo de sua cabeça de produtora na criação artística — presente também na participação de grupos de sua gravadora renovadores da música instrumental como o Tira Poeira (que a acompanha no samba “Disfarçando”) e o Quarteto Maogani (em “Canção transparente” e “Mariposa”) — o que o disco revela é uma letrista sui generis , que escreve de um ponto de vista raro, o da mulher brasileira madura e moderna.

   De tal ponto de vista é que ela fala, de forma sempre confessional, com a filha numa anticanção de ninar como “Mariposa” (“Ó filhinha minha não sai de perto até clarear/Tua mãe tem medo e precisa muito do teu olhar/Conta aquela história que eu te contava pra dor passar”). Com o homem amado seja no registro sensual do baião “Cara bonita” (“Me põe no teu colo e me tira o quimono... e o sono”) ou na serenidade de uma canção como “Velho moinho” (“Minha vida eu recolho na concha da mão/Pra só então devolvê-la/Às imensas águas que brotam do teu chão”). Ou para si mesma, como no “Choro rasgado” (“Te peço que guardes pra sempre/Esse jeito doce no olhar/Que sejas sempre assim menina/Porém senhora diante da dor”) e no samba “Disfarçando” (“Quem amará a vida/Como eu amei”).

   Simone flagra Ivan Lins num momento iluminado e compulsivo de criação. Além de “Baiana da gema”, são outros dois sambas com mestre Paulo César Pinheiro (o sensual partido alto “É festa” e “Parei contigo”, que lembra em suas quebradas e na temática “briga de casal” a parceria do letrista com Baden Powell), quem gosta de música brasileira sabe o que isso significa. Há um bolero refinado em parceria com Joyce (“Cínica”) e um blues cortante com Aldir Blanc (“Por favor”, já gravado por Leila Pinheiro). Do parceiro de Ivan mais constante atualmente, o paulista Celso Viáfora, Simone pinçou duas sofisticadas canções de amor, “Veneziana” e “Atlântida”. Há da retomada da antiga parceria com Vitor Martins, as líricas “Tanto amor” e “Voar”, a novos parceiros como Francisco Bosco na latina “Dandara”.

   À exceção do desconjuntado samba “Saravá! Saravá!” (com Martinho da Vila) só tem música boa de Ivan, arranjos de Gilson Peranzzetta e Simone em boa forma. Se a falta de perspectiva mercadológica gerar obras assim, que viva a crise.

(© O Globo)


Espanha vive febre de Carlinhos Brown

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Após reunir 400 mil pessoas no Fórum Barcelona 2004, em torno de um trio elétrico chamado Camarote Andante, o baiano Carlinhos Brown, 39, anda galgando paradas européias.

   A "Carnavalona" (como ele apelidou a micareta em que cantou e tocou Tom Jobim, Jorge Ben Jor, Perez Prado e Dizzy Gillespie) ajudou seu álbum "Carlito Marron" a conquistar disco de ouro (50 mil cópias) na Espanha. "Maria Caipirinha", dele com DJ Dero, russo que vive na Argentina, é hit atual de ponta nas pistas eletrônicas de Ibiza.

   "Maria Caipirinha" integra seu novo CD, "Carlinhos Brown & DJ Dero Present Candeal Beat", que deve sair no Brasil pela Universal, só no fim do ano.

   "Estava louco para fazer umas fusões eletrônicas. "Candeal Beat" é eletrônica artesanal, tecnobatucada", define Brown, da Bahia, para onde voltou entre uma e outra excursão européia. "Viajo pela Europa em ônibus com cama, adoro. O Brasil tinha que reaprender a fazer show sem precisar de avião, baratearia custos, ingressos."

   Ele espera mostrar em setembro a seu bairro natal, Candeal, o produto de outra conexão Bahia-Espanha: o filme "El Milagro del Candeal", do cineasta Fernando Trueba ("Sedução").

   "O filme é um desses momentos da vida em que tudo fica claro. Não vou parecer mais um personagem perdido, fantasiado de Carnaval. Não abro mão de minha responsabilidade com o Candeal, não desisto do meu país. Quero me preparar para o Brasil, ser compreendido aqui", sonha o nômade pós-moderno.

(© Folha de S. Paulo)

 

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