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05-06-2008
'Notícias cariocas' busca rever o jornalismo dos anos 50
Macksen Luiz O jornalismo, na vida e na obra de Nelson Rodrigues, se transforma no tema dominante de Notícias cariocas, que se inspira na biografia do dramaturgo e nos traços tão marcantes dessa atividade em sua vivência e criação para desenhar narrativa vagamente rodriguiana. É possível perceber fragmentos de alguns personagens retirados de suas peças e até mesmo acontecimentos de sua história familiar, que aproveitados em trama que incorpora, igualmente, o ambiente humano e geográfico da cidade, composto a partir dos escritos de Nelson Rodrigues. Filipe Miguez reuniu esse material numa estrutura dramática que se alimenta das referências de universo peculiar, mas que retira dele aquilo que é genérico para alcançar autonomia e originalidade. Não é o que acontece em Notícias cariocas, ainda que estejam em cena o repórter policial de tantas peças, fatos biográficos que remetem à vida do autor de Senhora dos afogados, e que o cenário da cidade, nos anos 50, se recomponha com o circuito da Gávea e a inóspita região de São Conrado e adjacências. Filipe Miguez não consegue manipular dramaticamente essas características, captadas em leituras atentas, para encontrar uma terceira via que se articule em si mesma. O que parece mais bem armado nesta incorporação é o clima jornalístico do período, com seus tipos, mecanismos de funcionamento, a missão profissional camuflada em objetivo de poder, a conveniência da verdade e o oportunismo da mentira, que se mostram com relativa autenticidade em trama que fica aquém desse retrato histórico de um tempo da imprensa. A trama se descaracteriza pela forma como desenvolve as situações, repletas de idas e vindas, com detalhes irrelevantes e algumas situações mal resolvidas, expondo as fraturas do texto. Ao aclimatar a ação no ambiente jornalístico da década de 50, escapou ao autor mão mais firme para sustentar idéia interessante, ficando apenas na vizinhança de uma atmosfera. E é nesta atmosfera que Notícias cariocas respira melhor, deixando que a sonoridade de época nos diálogos e flagrantes da cidade recomponham, com paralelismo, o mundo de Nelson Rodrigues. A dupla Enrique Diaz e Ivan Sugahara procura imprimir dinâmica à encenação, com cortes rápidos e cenografia que interfira, como o desdobrar de páginas de jornal, no quadro dramático. Os diretores impõem essa intensidade à montagem, mas nem sempre conseguem preencher alguns vazios do texto - a destacar, a cena pouco inspirada do teatro de revista e a solução final, um apagado desfecho. O cenário branco, uma tela para projeções de imagens, estáticas ou em movimento, se integra à nervosidade do espetáculo, com seus efeitos dramáticos, como o impacto do assassinato. A iluminação de Maneco Quinderé está perfeitamente ajustada à profusão de imagens geradas pelas projeções. Os figurinos de Marcelo Olinto vestem as atrizes com roupas da moda e estão perfeitos na caracterização dos atores. O elenco masculino, talvez por ter maior oportunidade, valoriza a sua participação, em especial os ''jornalistas'' - César Augusto, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto e Marcos Valle -, que mostram integração e desenvoltura. Drica Moraes fica no limite da farsa e Susana Ribeiro se prejudica pelo descompasso da personagem. Bel Garcia também se desequilibra pelo caráter de seu papel. As interpretações de Raquel Rocha e Felipe Rocha se ressentem na difícil cena do teatro de revista. Notícias cariocas. CCBB. Quarta a domingo, 19h. R$ 10. (© JB Online)
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