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Caetana não respeita ninguém

15-07-2004

O teatro está presente no Festival de Inverno de Garanhuns

As artimanhas da morte sertaneja batem à porta na nova montagem de Moncho Rodriguez, que estréia no FIG com as atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro

GEISA AGRICIO

   “A única certeza da vida é a morte”, diz o adágio popular. Mesmo diante desta constatação irrevogável, é perene ao ser humano temer o instante do fim. E são justamente os mistérios que envolvem a morte e o temido o momento de defrontá-la ganham um tom lúdico e arquetípico na ótica de Moncho Rodriguez, encenador e co-autor do espetáculo Caetana, que estréia no sábado, às 19h, no Teatro Luís Souto Dourado, durante o 14º Festival de Inverno de Garanhuns.

   No palco, as atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro, que trabalharam, respectivamente, como diretora e intérprete na última montagem da peça A Ver Estrelas, de João Falcão, pela primeira vez contracenam no palco.

   Caetana é uma alusão à representação nordestina da morte, que passa pelo imaginário popular com uma imagem feminina. A alcunha criada nos grotões do Sertão tornou-se poeticamente popularizada na obra armorial de Ariano Suassuna.

   Além da personagem-título, a estética armorial inspirou o diretor a transpor no palco elementos da tradição cultural nordestina numa concepção atual do teatro: “Há muito desejava trabalhar a questão da morte, quando as meninas me deram carta-branca para criar o espetáculo, elegi Caetana, dando à morte uma identidade nacional, partindo do pressuposto que encaro o Nordeste como uma nação”, diz Rodriguez.

   O diretor foi convidado pelas atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro para realizar um espetáculo baseado nas tradições mambembes do teatro popular. Lívia Falcão, depois de uma temporada no Rio, onde participou de diversos trabalhos, como as peças Lisbela e o Prisioneiro e Nada de Pânico e os filmes 1972, Onde Anda Você? e da adpatação de Lisbela, realizou em paralelo às produções um curso de formação clownesca, e retornou ao Recife disposta a “expor o palhaço que vive dentro dela”.

   A atriz conta que, durante a estada no Sudeste, a incomodava que espectros artísticos pernambucanos como música, cinema e artes plásticas eram exaltadamente referenciados, mas que o teatro local nunca era lembrado. “Voltei ao Recife não com pretensão de realizar aqui um teatro melhor ou mais importante do que tem sido feito, mas que nos permitisse a capacidade de experimentar no palco e mobilizar a cena”, conta.

   Lívia vive no palco a divertida rezadeira, Benta, que depois de anos indicando, segundo suas crenças, os caminhos do além para as almas penadas, vê-se diante da sua hora de encontrar a Caetana, interpretada por Fabiana Pirro. Grávida de sete meses, Pirro encarna o desafio de viver a morte no delicado momento em que reflete, na verdade, a chegada da vida. Além de Caetana, a atriz exibe resistência ao manipular bonecos de materiais reciclados, misturados com elementos da tecelagem usados no interior do Nordeste por artesãos e bordadeiras.

   PROCESSO – Moncho Rodriguez passou três anos percorrendo cidades interioranas, ao lado de Fabiana Pirro, em uma profunda pesquisa dos elementos da cultura popular de forma a serem agregados a novas linguagens num teatro de identidade nordestina. Em Caetana, é possível perceber referências como circo, teatro mambembe, expressões religiosas tipicamente populares, mamulengos, além de outras peculiaridades da região.

   O texto de Moncho Rodriguez foi escrito em co-autoria com o poeta Weydson Barros Leal, estreante na dramaturgia. Ressalta nele o hábil uso da rítmica e rima dos panfletos da literatura de cordel e aborda, de forma criativa e lúdica temas como desafios do amor e da vida, a obstinação do nordestino diante das adversidades, o jeitinho dado para driblar as agruras, até mesmo a própria Caetana, a percepção mítica da morte e o conflitos para apreender o que é transcendental.

   Os autores conseguem dar leveza a um tema profundo que ganha doce tom pueril na sólidas interpretações de Falcão e Pirro. “Tudo aqui é na verdade uma grande brincadeira. Não busquei psicologismos ou fazer um retrato fiel da realidade sócio-política, a intenção é de experimentar no palco, ousar com diversão, como fazem os brincantes da cultura nordestina”, comenta Moncho Rodriguez.

   Com a intenção de fazer um espetáculo itinerante, já que é a peça foi pensada para percorrer cidades por todo Nordeste, em exibições gratuitas, a cenografia do espetáculo possui mobilidade, permitindo a encenação em qualquer espaço. O cenário lembra um picadeiro, que comportar recursos de iluminação, som, e efeitos visuais.

(© JC Online)


Making off faz ponte com o público

   Mostrar os bastidores do teatro é o objetivo do Ateliê Design & Vídeo no documentário Caetana: a montagem, baseado na peça Caetana. O filme, dirigido por Leonardo Crivellare, começou a ser feito em abril deste ano, mas ainda não foi concluído. "A gente queria capturar o processo evolutivo da montagem de uma peça", conta Luciana Teixeira, produtora do vídeo. Com esse propósito, a equipe acompanhou de perto todos os passos do diretor Moncho Rodriguez e das atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro. Com o roteiro da peça em mãos, a produção do filme começou a participar de todas as etapas da construção da Peça.

   Crivellare pretende mostrar a emoção que envolve cada conquista, a evolução dos personagens e a criação dos detalhes que ajudam as atrizes a contar a história em cena. A equipe do Ateliê, que além de Luciana e Crivellare, é composta por Marcelo Barreto, editor, e Cezar Maia, assistente de direção, é a mesma que foi premiada no festival de Vídeo do Recife, com A Cubana, fez o clipe O samba chegou, co-produziu o curta Satiricuspe.

Pernambuco.com)


Espetáculo devolve cultura popular ao povo

   As atrizes Lívia Falcão e Fabiana Pirro não só encenam Caetana como assinam a produção da peça que traz como principal diferencial a proposta de levar gratuitamente o espetáculo para vários bairros do Recife, cidades do interior de Pernambuco e outros Estados do Nordeste. O projeto é uma forma de retribuição.

   “Era uma idéia que há muito desejamos fazer, as leis de incentivo partem de dinheiro público e nada mais justo que esse investimento retorne a quem não tem acesso à produção cultural. Além disso, como artistas, é o maior desafio da nossa carreira expor-se mesmo em plena rua”, comenta Lívia Falcão.

   Apenas na estréia, em Garanhuns, será cobrada uma entrada de R$ 3. Todas as outras apresentações agendadas serão abertas ao público. Para viabilizar o projeto das encenações gratuitas, a equipe contou com o apoio da Prefeitura de Olinda, Prefeitura do Recife, Governo do Estado e da aguardente Pitú.

   De Garanhuns, o grupo segue para Triunfo, com apresentação no dia 19. No dia 24, acontece uma exibição no Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, às 20h.

JC Online)


Programação esquenta na véspera do feriado

Pitty, The Fevers, Henrique Annes são algumas atrações

Júlio Cavani
enviado especial

   GARANHUNS - Pitty, roqueira baiana que encerraria a programação de hoje no Palco Pop do Festival de Inverno, teve sua apresentação antecipada por causa de outro show seu marcado para a mesma noite. Ela deve cantar no Parque Euclides Dourado pouco antes das 22h, entre as pernambucanas Carla Cibele, que abre, e Estrógeno, que encerra a noite. Na Praça Guadalajara, a atração principal é a banda The Fevers, antecedida por Kátia de França, Os Gatos e Túnel do Tempo, a partir das 21h.

   O Palco Instrumental (Parque Ruber Van Der Linden, 18h) recebe hoje Henrique Annes e Quinteto da Paraíba. No espaço da cultura popular (Avenida Santo Antônio, 10h), se apresentam Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, Gaiteiros de Garanhuns, A Porca e Ciranda Pernambucana. O Palco Forró, que funciona na madrugada com forte presença do público, é embalado por Toinho do Baião e Josildo Sá. Por fim, o Quarteto Egan toca na Igreja de Santo Antônio às 20h.

   No Cinema do Parque Euclides Dourado, serão exibidos às 19h30 o curta pernambucano LastNote.Com e o longa Igual a Tudo na Vida, de Woody Allen, que ainda não estreou no Brasil. As sessões começaram na segunda-feira, sempre com bom público, apesar do atraso de uma hora no primeiro dia por falhas elétricas. Na terça, a projeção funcionou bem, mas muitos pais tiveram que retirar seus filhos da sessão de O Prisioneiro da grade de Ferro, que continha cenas impróprias não divulgadas pela organização do Festival. Boa parte da platéia, de jovens a idosos, nunca havia ido ao cinema.

   Na segunda-feira, a Praça Guadalajara foi ocupada pelo maior público visto no Festival este ano, com 45 mil pessoas atraídas pelo show de Cavaleiros do Forró, mesmo com alguns momentos de garoa, superando Simone, Santanna e Ney Matogrosso, que tocaram no fim de semana. Para se ter uma idéia do sucesso da banda, o número é superior à lotação do Estádio da Ilha do Retiro. Na terça, entretanto, as pessoas mal compareceram ao show de Versão Brasileira, que marcou um mal aproveitamento de um espaço nobre da programação. Também foi fracasso de público nos dois dias a programação de música eletrônica no Euclides Dourado, que ultrapassava as 3h da madrugada muitas vezes com menos de dez pessoas na platéia, outro desperdício.

Pernambuco.com)

 

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